Sandra Conrado
Psicanalista,Membro da Escola Brasileira de Psicanálise.
Do ponto de vista da psicanálise, o fracasso escolar, entre as bulimias, anorexias e depressões, está inserido no que chamamos “novos sintomas”. Embora, diferentemente desses sintomas, o fracasso escolar existem há tempos, sua novidade é que hoje ele surge também como uma resposta a esse modelo atual de denunciar o declínio dos ideais na cultura. Para que se estuda hoje? Não é raro se ouvir dos pais: “para concorrer, para ser o melhor, para ter melhor lugar no mercado, etc”.
Se o fracasso escolar está inscrito na ordem de um sintoma é porque ele se coloca, por outro lado, na via de um gozo que incomoda e, por isso, também apela ao analista como aquele que pode produzir uma resposta para seu mal-estar.
É em busca dessa resposta que produzi esse trabalho
Um dia, numa sala de aula de professores de criança, fiz a afirmação de que o fracasso escolar, do ponto de vista psicanalítico, era visto como um gozo de não querer saber. Depois de uma discussão acirrada, cuja polêmica se deu por causa do termo gozo, um professor, muito entusiasmado diz: “acho que não se trata de um gozo, mas de uma tortura. Discordo de você!”. Ora, dizendo a esse professor que estávamos discutindo a mesma coisa, trouxe apenas que, entre os termos gozo e tortura faltava apenas a noção de inconsciente. O gozo é inconsciente, embora, a tortura sobre como mal-estar para a criança, pais, professores, escola e os que encontram-se ao seu redor.
Para falar sobre essa questão vou me subsidiar do campo freudiano e de seu conhecimento do sintoma, do gozo, do saber e da transferência, os quais, sendo lido por Lacan, nos trazem uma imensa contribuição.
Na situação clínica ele aparece muito claramente e não sei se é tão diferente do que temos nas escolas, onde a criança parece ficar um tanto quanto alheia ao referencial do Outro, que na última etapa de seu ensino, Lacan nos mostrou como inexistente.
Ao justificar o conceito de inconsciente na metapsicologia, Freud nos diz que na vida mental do indivíduo há sempre um outro alguém envolvido, Outro que lhe confere o estatuto de uma inferência. Ele diz:
“todos os atos e manifestações que noto em mim mesmo e que não sei ligar ao resto de minha vida mental, devem ser como se pertencessem a outrem” [1]
Lacan, ao longo do seu ensino, nos fala do Outro de três maneiras: primeiro como absoluto - o Outro concreto. Depois como Outro do desejo – inconsistente; e, na última fase de seu ensino, o Outro inexistente e, por isso, impossível de dar a resposta ao sujeito.
Trago esse três momentos do Outro em Lacan na tentativa de especular a condição da escola. Em que acredita a educação? Entre outros aspectos que os professores ensinem os conteúdos. No ideal da educação o professor precisar ser bem concreto, um Outro absoluto que dê conta de um saber.
Na minha experiência com professores de ensino fundamental, por ocasião da disciplina Psicologia da Aprendizagem num curso de Pedagogia, ouvi várias vezes essa pergunta: “como faço para os meus alunos gostarem de estudar?”. Uma pergunta que não deixa de carregar uma cota de angústia, pois, como poder, do lado do professor que não tem a consistência do saber, resgatar o desejo da ignorância, se a educação não admite em seu meio, sujeitos barrados?
Pelos ensinamentos de Freud e Lacan pude, nessa experiência, tirar muito proveito dela, situando-me dentro da dificuldade do que é o modelo pedagógico, mas, sobretudo do que é a angústia de um professor diante do fracasso escolar, que na visão de muitos deles, é do aluno.
É nesse sentido, de como fazer, que apontamos a inexistência do Outro. Nossa sociedade tem sofrido por isso e a escola como instrumento dela não está isenta desse processo. Há hoje em dia uma descrença. “Se o Outro não existe, em quem vamos acreditar?”
Na verdade o Outro nunca existiu, o que fizemos foi dar uma entidade a ele através de um supereu que almejava ideais em torno de um nome, o Nome-do-Pai como nos ensinou Lacan. Só que hoje, esses ideais mudaram de configuração.
Retomando a questão do professor e a sua angústia diante do fracasso escolar, diria: não é por causa da inconsistência do Outro que o professor não tenha uma resposta. A falta de resposta cria um complicador sério, dando muitas vezes margem ao espontaneismo. A escola é uma estrada, ela tem um fim, um lugar a se chegar e todo processo deve seguir uma direção. O professor pode dar uma resposta, o que é muito diferente de dar o “saber como fazer” ou o “saber como verdade”.
O filme “Sociedade dos Poetas Mortos” nos mostra um exemplo disso. Um professor que exerce certa função para os alunos, no sentido de provocar não só a transferência ao saber particular e o valor do subjetivo, mas que não sustentou as conseqüências dos seus atos. Ele foi expulso da escola, os alunos punidos e, entre tudo isso, uma passagem ao ato: o suicídio.
Na análise, por exemplo, não é porque um sujeito possa se servir da associação livre que seu tratamento deixe de ter uma direção. Se estamos nesse ponto de que o Outro não existe, a psicanálise se posiciona diferente desses encaminhamentos onde se visa modelos espontaneistas. A posição ética da psicanálise é a de que sejamos responsáveis pelo que fazemos. Se frente ao Outro que não existe não temos resposta, insisto: isso é um complicador, na medida em que cada um vá poder se autorizar de si mesmo ao que bem entende. O que a psicanálise diferencia nisso, e ai vai a minha questão, é que a resposta não tenha que ser dita nem com o saber ponto, nem com o espontaneismo, mas, como diz Lacan, com uma suposição.
Se esse “Outro que não existe” não puder ser questionado como lugar de saber suposto, corre-se o risco de um cinismo e isso traz um imenso perigo para qualquer processo. Um sujeito, principalmente uma criança, na posição de construção de saber, não suporta ficar à toa, à deriva. O lugar do professor é fundamental. A questão, nos diz Lacan:
“consiste em saber em que lugar é preciso está para fazer o sujeito sustentar esse saber•””. [2]
Penso que ao longo dos tempos a Pedagogia sempre trabalhou no sentido de encontrar uma saída com a intenção de oferecer formas de um melhor ensino e uma melhor aprendizagem. Ampliam-se conceitos, mudam-se outros. O alvo das tentativas de mudança tem sido geralmente o professor. Nos fins dos anos 60 tiram ele e o seu bureau de cima das plataformas, depois trocam seu nome para o de educador, na tentativa de tirar-lhe a pompa do saber todo. A medicina é chamada para criar as patologias escolares, assim ficaria mais fácil para a escola, pois o problema da insuficiência fica sob a responsabilidade da criança. As Universidades continuam fazendo pesquisas, mais formação, mais informação, mais estudo. Vira e mexe e a dificuldade continua. Hoje, o problema do fracasso escolar bate a porta dos consultórios dos psicanalistas. E há quem diga que bom seria se voltar ao modelo clássico. Outros criticam Vygostky por ter defendido a intervenção pedagógica.
Freud nos diz que há três missões impossíveis: governar, analisar e educar, impossível por que ele tinha a clareza do real do educar. Então, nessa perspectiva, o que a psicanálise pode oferecer como contribuição à Educação, sobretudo quando ela aparece como um fracasso para sustentar o desejo de saber, é um novo posicionamento diante do real do gozo de não querer saber, mas de não querer saber da ignorância.
A questão, dentro do meu ponto de vista, é a desconsideração que a educação tem com relação à ignorância. Para a ignorância a escola faz vista grossa, quando na verdade ela é um elemento real. Cito Lacan
“A ignorância, acabo de dizer, é uma paixão, não é para mim como uma menos valia, tampouco um déficit. É outra coisa, a ignorância está ligada ao saber”[3]
Podemos perguntar até que ponto um professor pode suportar essa condição de ignorância se o Outro da educação vocifera “saiba!” O gozo é isso, é o logotipo de um sujeito alienado, que sem desejo de saber, ignora a ignorância como arma contra o impossível do educar.
Talvez, antes de questionar porque o aluno não aprende, a saída do professor seja a de produzir um saber sobre o seu ato de educar. Ninguém tem a resposta de como fazer, o Outro não existe e é inútil pensar que os programas de qualificação bastam para inserir o professor no cerne da dificuldade da aprendizagem.
Outro aspecto que podemos destacar, como operador da aprendizagem, diz da possibilidade de uma virada nessa transferência que se estabelece entre professsor-aluno, pois ao invés dessa relação imaginária de um que ensina e outro que aprende, a transferência pode ser estabelecida como um ato de criação, onde a palavra não tenha um único sentido, que ela possa ir além, sustentar muitas funções e envolver muitos sentidos.
Na escola, em função da transferência, o professor pode dispor de um manejo onde o aluno possa sair de uma ação não pensada, para outra onde ele possa expressar melhor o seu pensamento. Como diz Vygotsky:
“tornar-se consciente de uma operação mental significa transformá-la do plano da ação para o pano da linguagem, isto é, recriá-la na imaginação de modo que possa ser expressa em palavras” [4]
A ação impulsiva de uma criança na escola não é sem intenções. O que ela deseja nessa intenção é saber de uma forma melhor o que está fazendo, só que num espaço mais elaborado (Mrech, 1980). Fracassar na escola pode ser uma forma de manifestar a falta de compreensão da ação dos outros sobre ela e nisso produzir um sofrimento, uma dificuldade, um sintoma especificamente escolar.
O fracasso não é da criança, nem do professor, ou do diretor em si, mas da estrutura escolar. A sua causa é da ordem de uma conjuntura onde todos nós estamos inseridos – a escola na civilização atual – naquilo que se tem de mais real: o gozo de não querer saber do desejo, o gozo de não querer saber da ignorância, da douta ignorância, lembrando aqui, mais uma vez, Lacan. Será que o fracasso não é uma denúncia de que diante da inexistência do Outro, há que haver uma nova invenção para barrar o gozo imaginário do mestre, que sem desejo, comanda o devoramento ao saber tudo para ser feliz e realizado? A ansiedade, a angústia, a preocupação de aprender, sintoma do estudante, cedeu lugar às depressões e ao inominável - o aprender parece sem sentido e sem lugar. O efeito disso é um gozo superegóico, devorador, que na falta de um referencial, produz atualmente um alheiamento, quero dizer, produz a falta de algo com valor significante que não esteja pronto, que não seja dado, para que simbolizações ou como nos diz Freud, para que sublimações sejam feitas.
Freud nos diz:
“Quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais fácil se reconciliarem com certos fatos do desenvolvimento infantil e, entre outras coisas, não correrão o risco de superestimar a importância das ulsões socialmente imprestáveis ou perversas que surgem nas crianças”[5]
É óbvio que um professor não vai poder dar conta de alguns predicados dos psicanalistas, mas por outro lado ele pode se dá ao privilégio de ensinar com perdas e nisso proporcionar um resto, um lugar vazio apto ao desejo, para que aí possa se operar uma transferência ao saber e consequentemente à aprendizagem.
O psicanalista em meio a toda essa estrutura deve apostar no professor como:
Primeiro: agente de sustentação e de criação para garantir, no sujeito infantil, a clareza de que o que fracassa não é ele, mas o que dele se pretenda atender aos ideais devoradores dessa cultura que exige a perfeição;
Segundo: agente do desejo de saber para que o aluno possa dizer: “você é aquele que me transmite, mas que ao fazer isso, me surpreende e me conduz ao novo”.
Referências Bibliográfica:
Barros, R. Conferência “O Inconsciente Hoje” , João Pessoa, março/2000
Freud, S – Artigos sobre a Metapsicologia, vol. XIV, Imago, Rio de Janeiro,, 1980
_____- O interesse Cientifico da Psicanálise, vol. XII, Imago, Rio de Janeiro, 1980
Lacan, J. - “O Saber Psicanalítico”, Seminário Mimeografado
_____ - ”Radiuofonia” (CEF do Recife), Seminário Mimeografado
Teixeira Lopes, E.M (org) –“A Psicanálise Escuta a Educação”, Autêntica, Belo Horizonte, 1998
Mrech, L. M – “Psicanálise Educação – Novos Operadores de Leitura”, Pioneira, São Paulo, 1999
1- Freud, S – Artigos sobre a Metapsicologia, vol. VIX, p. 195
2 – Lacan, J – O Saber Psicanalítico, seminário inédito, p. 26
[3] Idem, p. 10
[4] APUD Leny Magalhães Mrech. Psicanálise e Educação. Novos Operadores de leitura p. 65
[5] Freud, S – O Interesse da Psicanálise para as Ciências Não-Psicológicas, vol. XIII, p. 225
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domingo, 17 de maio de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
O CARNAVAL DOS MEDOS
Jacques-Alain Miller
Le Point: Pesticidas, poluição do ar, antenas retransmissoras, telefones celulares, reaquecimento climático, recessão....Por que, em nossas sociedades ocidentais, o medo parece progredir mais que alhures ?
Jacques-Alain Miller: Porque são as mais « tecnicizadas ». O sociólogo Ulrich Beck o mostrou, a técnica dá à luz uma « sociedade do risco » : quando você se desloca a cavalo, tudo depende de sua própria habilidade e de seu conhecimento do animal em questão ; quando você toma um avião, sua segurança está fora de você, pois sua vida depende de uma rede de sistemas complexos nos quais você deve confiar a priori. Mas a sociedade do risco se torna uma sociedade do medo desde que a ciência cesse de inspirar confiança. É o caso dos dias de hoje : cada um está intimamente persuadido de que o grande « sujeito suposto saber » não sabe tudo, que ele é furado como um gruyère e que avança e produz às cegas.
Nossas sociedades só aceitam o risco sob condição de quantificá-lo : a gente se pergunta quantos cânceres serão provocados pelos pesticidas ou pelos telefones celulares....
Com efeito. O sujeito suposto saber tem agora o desafio de prever o futuro. Amanhã não se fará mais apenas o diagnóstico das doenças que vocês tiverem, elas lhes serão preditas a partir da decodificação do genoma de vocês. Disso decorre a emergência de novos medos, inéditos, puros produtos do cálculo estatístico.
Nossa saúde e, em particular, nossa alimentação, é o que mais nos preocupa. Como o senhor explica esse medo?
É o que resulta do « pôr-se em segurança » como atitude fundamental do homem contemporâneo. Cada um é para si mesmo seu bem mais precioso. Cada um se relaciona consigo mesmo como com um objeto, com um ter, não com um ser. O impasse é que a saúde é perfeitamente aleatória. Não há ciência da saúde, dizia Canguilhem, o epistemólogo da biologia. A saúde é um mito.
Fala-se de indivíduos medrosos, podemos também falar de sociedades medrosas ?
O medo é a paixão das sociedades de mercado. Há sociedades na quais se mata ou nos matamos por um nada, nas quais a vida conta pouco aos olhos da vingança e em que domina o desdém para com a morte. Uma vez que o comércio apagou o sentido do sagrado e o ponto de honra, qual é único soberano bem que lhes resta? É o bem- estar. Doravante, o que domina é o desejo de cada um de se pôr ao abrigo, em segurança. A insegurança se torna o mal absoluto. O culto da felicidade engendra o reino do medo. Não mais se compreende a morte, recusa-se inclusive o envelhecimento, sonha-se em fazer a eternidade descer à terra e em benefício do indivíduo.
O homem brinca de se amedrontar?
Sim, esse carnaval dos medos tem certamente uma dimensão lúdica : um medo enxota o outro, há medos que estão na moda, inventa-se medos, o público pede medo. Mas o que não é uma brincadeira, é, aquém desses medos multiformes e sempre renascentes, o que eles expressam e camuflam a um só tempo : uma angústia social difusa cujo objeto está velado.
E de onde provém essa angústia ?
Da tecnização generalizada da existência. Doravante, ela polui as próprias fontes da vida, está em condições de remanejar a natureza da espécie. Suspeitamos que o avanço irresistível da ciência esteja, sem o saber, a serviço da pulsão de morte. O medo da bomba atômica não é mais o que era, porém, o último de nossos medos midiáticos datados é mais sutil, insinua-se no mais íntimo : recessão alarmante da produção espermática, crescimento indevido dos cânceres do testículo e das malformações masculinas. Pois bem, aí está o objeto escondido da angústia. SOS – falo !
Tradução : Vera A. Ribeiro
Le Point: Pesticidas, poluição do ar, antenas retransmissoras, telefones celulares, reaquecimento climático, recessão....Por que, em nossas sociedades ocidentais, o medo parece progredir mais que alhures ?
Jacques-Alain Miller: Porque são as mais « tecnicizadas ». O sociólogo Ulrich Beck o mostrou, a técnica dá à luz uma « sociedade do risco » : quando você se desloca a cavalo, tudo depende de sua própria habilidade e de seu conhecimento do animal em questão ; quando você toma um avião, sua segurança está fora de você, pois sua vida depende de uma rede de sistemas complexos nos quais você deve confiar a priori. Mas a sociedade do risco se torna uma sociedade do medo desde que a ciência cesse de inspirar confiança. É o caso dos dias de hoje : cada um está intimamente persuadido de que o grande « sujeito suposto saber » não sabe tudo, que ele é furado como um gruyère e que avança e produz às cegas.
Nossas sociedades só aceitam o risco sob condição de quantificá-lo : a gente se pergunta quantos cânceres serão provocados pelos pesticidas ou pelos telefones celulares....
Com efeito. O sujeito suposto saber tem agora o desafio de prever o futuro. Amanhã não se fará mais apenas o diagnóstico das doenças que vocês tiverem, elas lhes serão preditas a partir da decodificação do genoma de vocês. Disso decorre a emergência de novos medos, inéditos, puros produtos do cálculo estatístico.
Nossa saúde e, em particular, nossa alimentação, é o que mais nos preocupa. Como o senhor explica esse medo?
É o que resulta do « pôr-se em segurança » como atitude fundamental do homem contemporâneo. Cada um é para si mesmo seu bem mais precioso. Cada um se relaciona consigo mesmo como com um objeto, com um ter, não com um ser. O impasse é que a saúde é perfeitamente aleatória. Não há ciência da saúde, dizia Canguilhem, o epistemólogo da biologia. A saúde é um mito.
Fala-se de indivíduos medrosos, podemos também falar de sociedades medrosas ?
O medo é a paixão das sociedades de mercado. Há sociedades na quais se mata ou nos matamos por um nada, nas quais a vida conta pouco aos olhos da vingança e em que domina o desdém para com a morte. Uma vez que o comércio apagou o sentido do sagrado e o ponto de honra, qual é único soberano bem que lhes resta? É o bem- estar. Doravante, o que domina é o desejo de cada um de se pôr ao abrigo, em segurança. A insegurança se torna o mal absoluto. O culto da felicidade engendra o reino do medo. Não mais se compreende a morte, recusa-se inclusive o envelhecimento, sonha-se em fazer a eternidade descer à terra e em benefício do indivíduo.
O homem brinca de se amedrontar?
Sim, esse carnaval dos medos tem certamente uma dimensão lúdica : um medo enxota o outro, há medos que estão na moda, inventa-se medos, o público pede medo. Mas o que não é uma brincadeira, é, aquém desses medos multiformes e sempre renascentes, o que eles expressam e camuflam a um só tempo : uma angústia social difusa cujo objeto está velado.
E de onde provém essa angústia ?
Da tecnização generalizada da existência. Doravante, ela polui as próprias fontes da vida, está em condições de remanejar a natureza da espécie. Suspeitamos que o avanço irresistível da ciência esteja, sem o saber, a serviço da pulsão de morte. O medo da bomba atômica não é mais o que era, porém, o último de nossos medos midiáticos datados é mais sutil, insinua-se no mais íntimo : recessão alarmante da produção espermática, crescimento indevido dos cânceres do testículo e das malformações masculinas. Pois bem, aí está o objeto escondido da angústia. SOS – falo !
Tradução : Vera A. Ribeiro
domingo, 5 de abril de 2009
Sobre Educação
Carlange de Castro
Psicanalista,Especialista em Psicologia Clinica,Correspondente da EBP, Diretora do CEPP
A educação adquire o relevo de sua época, mudando conforme o tempo. No mundo globalizado, a educação ainda tateia seu lugar. Muito diferente dos modelos tradicionais, na situação moderna, como argumenta Forbes, o que ocorre é que saímos de uma sociedade vertical, hierárquica, para uma sociedade horizontal, em que a lei está em baixa, e tentar retomá-la é antiquado, “traumatiza”, e isso se apresenta com clareza na educação. A estrutura familiar atual mostra-se com uma nova configuração em que há uma queda do referencial masculino e da figura paterna. Com relação à educação de crianças e adolescentes, tornou-se banal presenciar filhos determinando e comandando a dinâmica familiar. Alunos ameaçando professores, diretores, comportamentos que fogem ao chamado bom senso, mas que se configuram como lugar comum. Pais que detestam dizer “não”, abdicando da razão em defesa do filho, transmitindo que tudo se explica, na compreensão ilimitada, reforçando um comportamento irresponsável na ascensão da vida adulta.
Freud postulou o antigo poder patriarcal, mas é Lacan que coloca o pai no contexto de função, sendo uma figura essencialmente simbólica que separaria a criança da mãe, instaurando a lei que corta os laços incestuosos que a une aos filhos. A criança, pela própria dependência infantil, faz Uno com a mãe. Essa relação apresenta-se para a mãe e filho como algo estritamente prazeroso, mas, para que o desenvolvimento desse filho possa ocorrer sem prejuízo, se faz necessária a separação, que é bastante difícil para a mãe. Somente o limite imposto pela função paterna à voracidade materna retira a criança da dependência da mãe, possibilitando ao filho uma realidade ordenada por obrigações e proibições. Ora, é através desse dispositivo que a criança vai assimilar os registros sociais e poder entrar no circuito educacional, pois educação não é sinônimo de escola ou pedagogia, mas refere-se ao meio social em que o sujeito está inserido e a forma como ele se articula a esse meio. É através da função paterna que a criança entra nos padrões das leis, articulando desejo e lei, fatores que a sociedade tende a manter como disjuntas. Ser pai é essencialmente ser responsável.
A flexibilidade encontrada na educação, bem como, no mundo moderno, reforçam um imaginário que tudo pode apontando ao um real de excesso, que apresenta como contraponto o mal-estar cotidiano gerando angústia e sintomas, situação recorrente que busca concordância nos remédios, psicoterapias e escolas.
Por associar educação e escola, muitas famílias têm deslocado essa função para uma instituição que não pode exercer a árdua tarefa de educar, já que a doutrina pedagógica articula educação à aprendizagem, postulando um saber completo que busca desenfreadamente respostas, numa direção que aponta no sentido do não saber fazer. Pensar no processo educativo é articulá-lo ao plano da subjetividade, e a psicanálise avança nesse sentido quando coloca a questão da verdade do sujeito, perguntando pelo seu desejo que a própria educação recusa insistindo em apontar a questão do sujeito da verdade.
Educar é educar as pulsões, logo observamos que tal tarefa não tem garantias, já que no inconsciente algo sempre escapa impossibilitando o seu alcance, nos deixando enquanto resto a linguagem e a tentativa de comunicação, pois a mesma é atravessada o tempo todo pelo mal-entendido, por aquilo que não faz sentido. Assim, seu desafio maior é suportar o risco que é da ordem do não explicável dentro de um processo que anseia explicação para tudo.
Referências Bibliográficas:
Freud Sigmund, Obras psicológicas completas, vol: VII, edição Standard, Rio de Janeiro: Imago, 1996
Freud Sigmund, Obras psicológicas completas, vol: XXII, edição Standard, Rio de Janeiro: Imago, 1996
Jorge Forbes: Silêncio das Gerações
http://www.jorgeforbes.com.br/br/contents.asp?s=23&i=74
Mezan, Renato: Freud, Pensador da Cultura
Psicanalista,Especialista em Psicologia Clinica,Correspondente da EBP, Diretora do CEPP
A educação adquire o relevo de sua época, mudando conforme o tempo. No mundo globalizado, a educação ainda tateia seu lugar. Muito diferente dos modelos tradicionais, na situação moderna, como argumenta Forbes, o que ocorre é que saímos de uma sociedade vertical, hierárquica, para uma sociedade horizontal, em que a lei está em baixa, e tentar retomá-la é antiquado, “traumatiza”, e isso se apresenta com clareza na educação. A estrutura familiar atual mostra-se com uma nova configuração em que há uma queda do referencial masculino e da figura paterna. Com relação à educação de crianças e adolescentes, tornou-se banal presenciar filhos determinando e comandando a dinâmica familiar. Alunos ameaçando professores, diretores, comportamentos que fogem ao chamado bom senso, mas que se configuram como lugar comum. Pais que detestam dizer “não”, abdicando da razão em defesa do filho, transmitindo que tudo se explica, na compreensão ilimitada, reforçando um comportamento irresponsável na ascensão da vida adulta.
Freud postulou o antigo poder patriarcal, mas é Lacan que coloca o pai no contexto de função, sendo uma figura essencialmente simbólica que separaria a criança da mãe, instaurando a lei que corta os laços incestuosos que a une aos filhos. A criança, pela própria dependência infantil, faz Uno com a mãe. Essa relação apresenta-se para a mãe e filho como algo estritamente prazeroso, mas, para que o desenvolvimento desse filho possa ocorrer sem prejuízo, se faz necessária a separação, que é bastante difícil para a mãe. Somente o limite imposto pela função paterna à voracidade materna retira a criança da dependência da mãe, possibilitando ao filho uma realidade ordenada por obrigações e proibições. Ora, é através desse dispositivo que a criança vai assimilar os registros sociais e poder entrar no circuito educacional, pois educação não é sinônimo de escola ou pedagogia, mas refere-se ao meio social em que o sujeito está inserido e a forma como ele se articula a esse meio. É através da função paterna que a criança entra nos padrões das leis, articulando desejo e lei, fatores que a sociedade tende a manter como disjuntas. Ser pai é essencialmente ser responsável.
A flexibilidade encontrada na educação, bem como, no mundo moderno, reforçam um imaginário que tudo pode apontando ao um real de excesso, que apresenta como contraponto o mal-estar cotidiano gerando angústia e sintomas, situação recorrente que busca concordância nos remédios, psicoterapias e escolas.
Por associar educação e escola, muitas famílias têm deslocado essa função para uma instituição que não pode exercer a árdua tarefa de educar, já que a doutrina pedagógica articula educação à aprendizagem, postulando um saber completo que busca desenfreadamente respostas, numa direção que aponta no sentido do não saber fazer. Pensar no processo educativo é articulá-lo ao plano da subjetividade, e a psicanálise avança nesse sentido quando coloca a questão da verdade do sujeito, perguntando pelo seu desejo que a própria educação recusa insistindo em apontar a questão do sujeito da verdade.
Educar é educar as pulsões, logo observamos que tal tarefa não tem garantias, já que no inconsciente algo sempre escapa impossibilitando o seu alcance, nos deixando enquanto resto a linguagem e a tentativa de comunicação, pois a mesma é atravessada o tempo todo pelo mal-entendido, por aquilo que não faz sentido. Assim, seu desafio maior é suportar o risco que é da ordem do não explicável dentro de um processo que anseia explicação para tudo.
Referências Bibliográficas:
Freud Sigmund, Obras psicológicas completas, vol: VII, edição Standard, Rio de Janeiro: Imago, 1996
Freud Sigmund, Obras psicológicas completas, vol: XXII, edição Standard, Rio de Janeiro: Imago, 1996
Jorge Forbes: Silêncio das Gerações
http://www.jorgeforbes.com.br/br/contents.asp?s=23&i=74
Mezan, Renato: Freud, Pensador da Cultura
domingo, 8 de março de 2009
Entrevista de Jacques-Alain Miller
Psychologies Magazine, outubro 2008, n° 278
Entrevista realizada por Hanna Waar
Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.
P.: Então, o que é amar verdadeiramente?
J-A Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".
P.: Por que alguns sabem amar e outros não?
J-A Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...
J-A Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
P.: Amar seria mais difícil para os homens?
J-A Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
P.: E nas mulheres?
J-A Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...
P.: Por que "cada vez mais"?
J-A Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman (1). Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.
P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.
P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
J-A Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!
P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
J-A Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.
P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?
J-A Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.
P.: E a fantasia masculina?
J-A Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe (2), a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.
P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
J-A Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.
P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
J-A Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante” (3). Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.
P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...
J-A Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.
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(1) Zygmunt Bauman, L’amour liquide, de la fragilité des liens entre les hommes (Hachette Littératures, « Pluriel », 2008)
(2) Les souffrances du jeune Werther de Goethe (LGF, « le livre de poche », 2008).
(3) Honoré de Balzac in La comédie humaine, vol. VI, « Études de mœurs : scènes de la vie parisienne » (Gallimard, 1978).
Tradução de Maria do Carmo Dias Batista.
Entrevista realizada por Hanna Waar
Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.
P.: Então, o que é amar verdadeiramente?
J-A Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".
P.: Por que alguns sabem amar e outros não?
J-A Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...
J-A Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
P.: Amar seria mais difícil para os homens?
J-A Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
P.: E nas mulheres?
J-A Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...
P.: Por que "cada vez mais"?
J-A Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman (1). Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.
P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.
P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
J-A Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!
P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
J-A Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.
P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?
J-A Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.
P.: E a fantasia masculina?
J-A Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe (2), a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.
P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
J-A Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.
P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
J-A Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante” (3). Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.
P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...
J-A Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.
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(1) Zygmunt Bauman, L’amour liquide, de la fragilité des liens entre les hommes (Hachette Littératures, « Pluriel », 2008)
(2) Les souffrances du jeune Werther de Goethe (LGF, « le livre de poche », 2008).
(3) Honoré de Balzac in La comédie humaine, vol. VI, « Études de mœurs : scènes de la vie parisienne » (Gallimard, 1978).
Tradução de Maria do Carmo Dias Batista.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Considerações sobre a Anorexia
Thaïs Moraes Correia
Psicanalista, Aderente da Delegação Geral do Maranhão e Escola Brasileira de Psicanálise-EBP
A primeira questão que os médicos costumam se fazer diante da anorexia é a ausência de “sintomas”. Há uma perda de peso auto-induzida por restrição alimentar que acontece de forma insidiosa sem a presença de febre, dor ou qualquer fraqueza.
Esses casos servem bem para pensarmos a diferença ente sintoma médico (que faz alarde, anuncia que algo não vai bem) do sintoma para a Psicanálise — insidioso e cifrado por entre as palavras: serve como ponto de significação.
Na medicina não há até o momento uma teoria etiológica da anorexia nervosa. Na teoria psicanalítica, especialmente nos idos 40 e 50 tinha-se uma visão de que a anorexia enquanto histeria de conversão simbolizava o repúdio à sexualidade. Alguns psicanalistas falavam em fantasias de gravidez oral.
Com Lacan podemos compreender a anorexia de outra forma. Nesses casos há uma demanda muda, silenciosa que deve ser acolhida. A paciente mantém uma relação anormal com a comida, sabe que arrisca sua vida, mas mantém esse saber fora da dimensão discursiva. Isto porque na anorexia há uma recusa dos deslizamentos significantes como se o desejo estivesse fragmentado pela fala — daí a deslibidinização que geralmente surge na adolescência quando emerge o enigma da sexualidade.
No caso da anorexia, o que se passa no corpo, não passa pelo discurso. O fato da pessoa ser escravo do não-comer também a leva a outra escravidão: do não-dizer. Há então uma fixação auto-erótica, o refúgio do sujeito num gozo suplementar.
É necessário uma intervenção — para que o sujeito pare de gozar. Cuspir significantes faz o sujeito trocar um gozo mudo por palavras. E de que a anoréxica goza? Exatamente de não comer nada, do (re)encontro com o nada.
Tanto nas toxicomanias como no FPS e nos transtornos alimentares há um gozo suplementar equivalente à pulsão da morte como se a dimensão do desejo estivesse esvaziada.
Numa análise, na vertente do amor de transferência, o sujeito pode encontrar o desejo que vai lhe permitir recusar o gozo excessivo.
“A anoréxica insiste no seu gozo comendo nada. O sintoma anoréxico, mais do que todo sintoma, contém um gozo que denuncia um apetite de inércia e morte. Assim, a demanda da anoréxica é muda, pois o Outro materno a esmagou pela engorda, empanturrando-a. De boca cheia, não se fala”.
Há uma fixação oral pela via do sujeito anoréxico? Fixação é um sujeito agarrado a um modo de gozo, quando ele deveria ultrapassa-lo, substituir por um outro modo de gozo. Uma análise vai provocar mudança inclusive na complexidade das pulsões: de mais de gozar a objeto causa de desejo.
Na anorexia há um horror desse corpo magérrimo que é provocado no outro.
As mães das anoréxicas são totalizantes e o que a anoréxica faz é “esburacar” a mãe nas palavras de Sara Fux.
Qual é a possibilidade de análise ai no caso dos sujeitos anoréxicos?
Uma paciente me procurou — estava com 36 quilos e só se alimentava de caldo de peixe e farelos de pão. Mostrava-se sem interesse inclusive de retornar ao consultório. Não se queixava, nem demandava nada a mim que como terapeuta lhe dava conforto e conselhos. Eu lhe dava alimento, enquanto o que ela queria era “nada”.Caberia mais ai uma psicanálise, pois é “o vazio da boca de um analista que a anoréxica, mais que ninguém, sabe que melhor satisfaz do que qualquer alimento”, nos diz Eliane Schermann.
A anorexia denuncia a questão da feminidade nos dias atuais. Se por um lado, as mulheres têm direitos ampliados por todas as esferas do social, há um massacre que aponta para um ideal de eu encarnado por esqueléticas top models.
Esse então é um drama moderno?
Nem tanto assim.
Vejamos o que acontece na Bulimia. Esse termo foi usado pela primeira vez em 1482 — como “aspiração de devorar” — e que como a anorexia, tornou-se um sintoma da moda. Preferimos chamá-las de sintoma social. Mosel, assim define :
«Por sintoma social se designa um problema comum a uma série de indivíduos em um dado momento da história, identificável como tal, mas enigmático quanto às suas causas e que represente um perigo ou um custo importante para a sociedade».
A bulimia se torna nos ano 70 um sintoma da moda, considerando inicialmente, como epidêmico, de início associado à anorexia, depois distinguido desta.
Pensando nesses sintomas é necessário falarmos do gozo aí implicado.
Na psicanálise, entende-se gozo, aquilo que não serve para nada. “Trata-se do nada que o anoréxico come, que o obsessivo coleciona e o histérico demanda — nos diz Christian Dunker.
É o nada que inclusive orienta a ação do analista: “pois se o amor é dar o que não se tem é bem certo que o sujeito possa esperar que se lhe dê, posto que um psicanalista não tem outra coisa que dar-lhe. Mas inclusive esse nada, ele não o dá, e mais vale assim: e por esse nada se lhe pagam”.
— Podemos então dizer que a forma como o sujeito lida com o nada, é a forma como ele produz seu sintoma.
O falo aponta para a falta enquanto que o objeto-mais-de-gozar nos aponta para o nada. Apesar de ambos abordarem a negatividade estão em oposição.
— Como uma análise caminha no sentido de fortalecer o recalque, haverá um esvaziamento de gozo que condicionará uma dessubjetivação — falta-a-ser — oposta então a nadificação que anoréxica usa como emblema de sua vida.
Psicanalista, Aderente da Delegação Geral do Maranhão e Escola Brasileira de Psicanálise-EBP
A primeira questão que os médicos costumam se fazer diante da anorexia é a ausência de “sintomas”. Há uma perda de peso auto-induzida por restrição alimentar que acontece de forma insidiosa sem a presença de febre, dor ou qualquer fraqueza.
Esses casos servem bem para pensarmos a diferença ente sintoma médico (que faz alarde, anuncia que algo não vai bem) do sintoma para a Psicanálise — insidioso e cifrado por entre as palavras: serve como ponto de significação.
Na medicina não há até o momento uma teoria etiológica da anorexia nervosa. Na teoria psicanalítica, especialmente nos idos 40 e 50 tinha-se uma visão de que a anorexia enquanto histeria de conversão simbolizava o repúdio à sexualidade. Alguns psicanalistas falavam em fantasias de gravidez oral.
Com Lacan podemos compreender a anorexia de outra forma. Nesses casos há uma demanda muda, silenciosa que deve ser acolhida. A paciente mantém uma relação anormal com a comida, sabe que arrisca sua vida, mas mantém esse saber fora da dimensão discursiva. Isto porque na anorexia há uma recusa dos deslizamentos significantes como se o desejo estivesse fragmentado pela fala — daí a deslibidinização que geralmente surge na adolescência quando emerge o enigma da sexualidade.
No caso da anorexia, o que se passa no corpo, não passa pelo discurso. O fato da pessoa ser escravo do não-comer também a leva a outra escravidão: do não-dizer. Há então uma fixação auto-erótica, o refúgio do sujeito num gozo suplementar.
É necessário uma intervenção — para que o sujeito pare de gozar. Cuspir significantes faz o sujeito trocar um gozo mudo por palavras. E de que a anoréxica goza? Exatamente de não comer nada, do (re)encontro com o nada.
Tanto nas toxicomanias como no FPS e nos transtornos alimentares há um gozo suplementar equivalente à pulsão da morte como se a dimensão do desejo estivesse esvaziada.
Numa análise, na vertente do amor de transferência, o sujeito pode encontrar o desejo que vai lhe permitir recusar o gozo excessivo.
“A anoréxica insiste no seu gozo comendo nada. O sintoma anoréxico, mais do que todo sintoma, contém um gozo que denuncia um apetite de inércia e morte. Assim, a demanda da anoréxica é muda, pois o Outro materno a esmagou pela engorda, empanturrando-a. De boca cheia, não se fala”.
Há uma fixação oral pela via do sujeito anoréxico? Fixação é um sujeito agarrado a um modo de gozo, quando ele deveria ultrapassa-lo, substituir por um outro modo de gozo. Uma análise vai provocar mudança inclusive na complexidade das pulsões: de mais de gozar a objeto causa de desejo.
Na anorexia há um horror desse corpo magérrimo que é provocado no outro.
As mães das anoréxicas são totalizantes e o que a anoréxica faz é “esburacar” a mãe nas palavras de Sara Fux.
Qual é a possibilidade de análise ai no caso dos sujeitos anoréxicos?
Uma paciente me procurou — estava com 36 quilos e só se alimentava de caldo de peixe e farelos de pão. Mostrava-se sem interesse inclusive de retornar ao consultório. Não se queixava, nem demandava nada a mim que como terapeuta lhe dava conforto e conselhos. Eu lhe dava alimento, enquanto o que ela queria era “nada”.Caberia mais ai uma psicanálise, pois é “o vazio da boca de um analista que a anoréxica, mais que ninguém, sabe que melhor satisfaz do que qualquer alimento”, nos diz Eliane Schermann.
A anorexia denuncia a questão da feminidade nos dias atuais. Se por um lado, as mulheres têm direitos ampliados por todas as esferas do social, há um massacre que aponta para um ideal de eu encarnado por esqueléticas top models.
Esse então é um drama moderno?
Nem tanto assim.
Vejamos o que acontece na Bulimia. Esse termo foi usado pela primeira vez em 1482 — como “aspiração de devorar” — e que como a anorexia, tornou-se um sintoma da moda. Preferimos chamá-las de sintoma social. Mosel, assim define :
«Por sintoma social se designa um problema comum a uma série de indivíduos em um dado momento da história, identificável como tal, mas enigmático quanto às suas causas e que represente um perigo ou um custo importante para a sociedade».
A bulimia se torna nos ano 70 um sintoma da moda, considerando inicialmente, como epidêmico, de início associado à anorexia, depois distinguido desta.
Pensando nesses sintomas é necessário falarmos do gozo aí implicado.
Na psicanálise, entende-se gozo, aquilo que não serve para nada. “Trata-se do nada que o anoréxico come, que o obsessivo coleciona e o histérico demanda — nos diz Christian Dunker.
É o nada que inclusive orienta a ação do analista: “pois se o amor é dar o que não se tem é bem certo que o sujeito possa esperar que se lhe dê, posto que um psicanalista não tem outra coisa que dar-lhe. Mas inclusive esse nada, ele não o dá, e mais vale assim: e por esse nada se lhe pagam”.
— Podemos então dizer que a forma como o sujeito lida com o nada, é a forma como ele produz seu sintoma.
O falo aponta para a falta enquanto que o objeto-mais-de-gozar nos aponta para o nada. Apesar de ambos abordarem a negatividade estão em oposição.
— Como uma análise caminha no sentido de fortalecer o recalque, haverá um esvaziamento de gozo que condicionará uma dessubjetivação — falta-a-ser — oposta então a nadificação que anoréxica usa como emblema de sua vida.
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