Por Jacques Lacan e Claude Lévi-Strauss
Jacques Lacan: – Se quisesse caracterizar em que sentido fui sustentado e transportado pelo discurso de Claude Lévi-Strauss, diria que é no acento que ele colocou sobre o que chamarei a função do significante, no sentido que este termo tem em linguística, na medida em que este significante não só se distingue por suas leis, senão que prevalece sobre o significado ao que as impõe.
Claude Lévi-Strauss nos mostra, por todas as partes, onde a estrutura simbólica domina as relações sensíveis. Ele nos mostrou que as estruturas do parentesco se ordenam segundo uma série que as possibilidades da combinatória explicam em última instância; ao ponto de que quase todas estas possibilidades se realizam em algum lugar, nas estruturas que registramos no mundo. Quer dizer que, por um lado, é possível responder por aquelas que não encontramos. devido a algum impasse ao qual levaria seu uso, e que, por outro lado, se existem classes possíveis que permanecem vazias, deve-se esperar encontrar algum dia que as complete.
Finalmente, o que faz que uma estrutura seja possível são razões internas ao significante; o que faz que certa forma de intercâmbio seja concebível o não, o são razões propriamente aritméticas.
O segundo passo que, graças a ele, eu já tinha franqueado, é aquilo que devemos aos seus desenvolvimentos sobre o mitema: uma extensão à noção do mito desse acento posto sobre o significante. A análise dos mitemas tal e como ele nos propõe realizá-la, consistiria em buscar estes elementos significantes, estas unidades significantes no nível do mito – onde elas se chamam mitemas, assim como no nível do material essencial temos os fonemas – para reencontrar ali uma sorte de linguística generalizada.
Muito me impactou, nesta primeira análise do mitema, o caráter avançado das fórmulas que ele conseguiu encontrar, já em condições de extrair das linhagens heroicas certas combinações: por exemplo, como um agrupamento de términos que se produz na primeira geração e se reproduz, mas em uma combinação transformada, na segunda. Digamos que o que acontece na geração de Édipo pode ser homologado à geração de Eteocles e Polinices segundo um modo de transformação previsível em seu rigor; então, a falta de arbitrariedade do mito se manifesta no fato de que em ambos os níveis encontramos uma coerência igual, que se corresponde ponto a ponto um nível com o outro.
Como Claude Lévi-Strauss não ignora, tentei, me atrevo a dizer que com um êxito total, aplicar sua grade aos sintomas da neurose obsessiva, e especialmente à admirável analise que fez Freud do caso do Homem dos Ratos, em uma conferência que titulei “O mito individual do neurótico”. Cheguei inclusive a formalizar estritamente o caso segundo uma fórmula dada por Claude Lévi-Strauss, onde se lê o que chamarei de signo de uma espécie de impossibilidade da resolução total do problema do mito. O mito está lá para nos mostrar a colocação em equação, sob uma forma significante, de uma problemática que por si só deve deixar necessariamente algo em aberto, que responde ao insolúvel, e sua saída, reencontrada em suas equivalências, que fornece – essa seria a função do mito – o significante do impossível.
Os significantes estão feitos para serem seriados, para serem organizados, para realizar-se uma escolha. Esse é o fundo sobre o qual se inscreve a experiência analítica, inclusive a experiência etnográfica: você encontrou lá o que podemos encontrar em nós.
Interessa-nos o sistema de significantes na medida em que organiza, na medida em que é a andamiagem de tudo isso e determina ali várias vertentes, pontos cardinais, inversões, conversões e o jogo da dívida.
Certamente, esta ordem de estudo envolve por si só tal mudança de perspectiva que permite reclassificar os problemas de um modo completamente diferente. Por exemplo, interrogar-se qual será exatamente o sistema de transformação do significante nas diferentes manifestações do simbolismo que a análise tem revelado no psiquismo: provavelmente não se apresente em todos os lugares do mesmo modo que na neurose obsessiva; é de um modo mais completo ou descompleto em outros registros? De aqui para frente podemos reencontrá-lo no sonho: e, se tivessem contado com esta chave, os autores que se interessaram na função do que chamaram sonhos em dois tempos, ou sonhos redobrados, teriam sido mais pertinentes em suas colocações, menos toscos em seu recurso às instâncias psíquicas em sua forma entificada para explicar a necessidade da reduplicação de um mesmo tema e o que ali se esgota. Isso não faz mais do que acrescentar a intensidade do problema, pois, se isso funciona ao nível do sonho ao que nos conduz a respeito da atividade mental? Isto renova por completo o alcance das perguntas.
Claude Lévi-Strauss: - O problema de hoje é o das relações ente a mitologia e o ritual, problema geralmente escamoteado sob o pretexto de que o mito é de ordem da representação, e o rito, da ordem da ação. Mas isto só seria verdadeiro se as ações, os gestos do rito, fossem ações e gestos verdadeiros, ou seja, se culminassem em um resultado. Você falou recentemente do significante e do impossível; se o ritual não produz resultado, é preciso concluir disso que consiste em pseudo-gestos executados, não em razão de um resultado concreto, mas porque são um apoio de significação. Nesta perspectiva, mesmo se tratando de dois sistemas de signos diferentes, de dois códigos diferentes, tanto no plano do mito como no do rito nos encontramos ante um código; alguma vez caracterizei o mito como uma metalinguagem e o rito como uma para-linguagem, mas, em ambos os casos, linguagem. Então, por que existem ali duas linguagens? É o problema que tentei colocar. Acho que é possível fazer progredir sua solução mostrando que esta assimilação entre o mito e o rito está tão justificada que o tipo de combinações que uma sociedade realiza em forma de mito, aquela que está do lado a realiza em forma de rito. As razões pelas quais se produzem estas eleições diferentes não tocam o essencial da interpretação simbólica, e envolvem a respectiva história destas populações. Não penso situar-me assim à zaga das minhas hipóteses procedentes. Vejo ali, pelo contrário, um meio de estendê-las e desenvolvê-las já que se trata de englobar no reinado do simbolismo o domínio do ritual, o qual se havia deixado de lado até agora.
*Intervenção de Lacan e resposta de Lévi-Strauss, trás uma exposição de este último, denominada “Sobre as relações entre a mitologia e o ritual”, na Sociedade Francesa de Filosofia, dia 26 de maio de 1956. Extraído do texto incluído em “O mito individual do neurótico”, que distribui nestes dias editorial Paidós.
Tradução: Blanca Musachi
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Comentário sobre “A Teoria do parceiro”. J. A . Miller.
Por Margarida Assad, psicanalista e Membros da Escola Brasileira de Psicanálise - EBP
Esse texto é uma ampla parte do curso dado por Miller em colaboração com Laurent no ano de 1996/1997, O Outro que não Existe e seus comitês de ética.
Penso que aí já se anunciavam as transformações do ensino de Lacan e, que Miller vem nos transmitindo desde então em seus cursos, marcando o segundo e o ultimíssimo Lacan.
A premissa é que não há um saber no real, o que se articula a não haver um saber sobre a relação entre os sexos. Assim, diz Miller, se há sintoma então não há saber no real sobre a sexualidade.
Para desenvolver essa questão, Miller nos fala da parceria do sujeito com a verdade que se apresenta para Descartes na relação do homem com Deus. Em primeiro lugar nos trazendo a solução cartesiana para que o homem possa se relacionar com um Deus que não engane, que não se manifeste e não deseje, ou seja, um deus silencioso, um deus da ciência. Por outro lado, Descartes, também aborda um deus atormentado, furioso, é o deus bíblico.
Como jogar a partida com a verdade com esse Deus-janus?
Essa parceria nos aponta para a parceria com o Outro. No início do seu ensino Lacan, colocava um problema para o sujeito: o de ter seu desejo reconhecido pelo Outro. Mas o conceito de Outro em Lacan se modifica, deixando de ser o Outro com a marca do significante fálico para aceder a um lugar de furo, de não resposta, de silêncio. O Outro sexual também se modifica e o sujeito terá que se relacionar com seu gozo, seu objeto a, semblante de objeto.
O parceiro então é o gozo; e o parceiro sexual será escolhido em função de como ele elabora seu saber sobre sua posição de exilado da relação sexual. Desta forma, é o sintoma, que passa a ocupar o lugar formal do núcleo de gozo. Surge uma nova teoria sobre o amor. Um amor que não passa pelo narcisismo, mas pelo inconsciente, ou seja, pela elucubração do saber da não relação sexual. Há o sintoma como um recurso para saber fazer com o outro sexo, que se torna um revestimento para o objeto a. O parceiro é assim o invólucro formal do núcleo de gozo. O que leva Lacan a dizer que no nível do sintoma o sujeito é sempre feliz.
Assim, se já podíamos pensar em um Deus janus, um que engana e um que não engana, podemos pensar em um objeto janus, um objeto fálico e um real, semblante de objeto. Mas também podemos falar em um sintoma janus, pois, como nos diz Miller, ele é o que não vai bem, mas é também o único lugar onde isso rola...
Com essas considerações podemos propor algumas questões sobre o tema de nosso colóquio:
Como explicar a parceria com um objeto da pulsão no nível do fundamento sintomático do casal?
Quais transformações podem ser pensadas sobre a pulsão quando o final de análise não se esgota na travessia da fantasia? Ou, se não há travessia da pulsão o que é a cura?
É possível amar seu sintoma? Fazer bom uso dele é amá-lo? O que se ama, quando há sinthoma e não sintoma?
Esse texto é uma ampla parte do curso dado por Miller em colaboração com Laurent no ano de 1996/1997, O Outro que não Existe e seus comitês de ética.
Penso que aí já se anunciavam as transformações do ensino de Lacan e, que Miller vem nos transmitindo desde então em seus cursos, marcando o segundo e o ultimíssimo Lacan.
A premissa é que não há um saber no real, o que se articula a não haver um saber sobre a relação entre os sexos. Assim, diz Miller, se há sintoma então não há saber no real sobre a sexualidade.
Para desenvolver essa questão, Miller nos fala da parceria do sujeito com a verdade que se apresenta para Descartes na relação do homem com Deus. Em primeiro lugar nos trazendo a solução cartesiana para que o homem possa se relacionar com um Deus que não engane, que não se manifeste e não deseje, ou seja, um deus silencioso, um deus da ciência. Por outro lado, Descartes, também aborda um deus atormentado, furioso, é o deus bíblico.
Como jogar a partida com a verdade com esse Deus-janus?
Essa parceria nos aponta para a parceria com o Outro. No início do seu ensino Lacan, colocava um problema para o sujeito: o de ter seu desejo reconhecido pelo Outro. Mas o conceito de Outro em Lacan se modifica, deixando de ser o Outro com a marca do significante fálico para aceder a um lugar de furo, de não resposta, de silêncio. O Outro sexual também se modifica e o sujeito terá que se relacionar com seu gozo, seu objeto a, semblante de objeto.
O parceiro então é o gozo; e o parceiro sexual será escolhido em função de como ele elabora seu saber sobre sua posição de exilado da relação sexual. Desta forma, é o sintoma, que passa a ocupar o lugar formal do núcleo de gozo. Surge uma nova teoria sobre o amor. Um amor que não passa pelo narcisismo, mas pelo inconsciente, ou seja, pela elucubração do saber da não relação sexual. Há o sintoma como um recurso para saber fazer com o outro sexo, que se torna um revestimento para o objeto a. O parceiro é assim o invólucro formal do núcleo de gozo. O que leva Lacan a dizer que no nível do sintoma o sujeito é sempre feliz.
Assim, se já podíamos pensar em um Deus janus, um que engana e um que não engana, podemos pensar em um objeto janus, um objeto fálico e um real, semblante de objeto. Mas também podemos falar em um sintoma janus, pois, como nos diz Miller, ele é o que não vai bem, mas é também o único lugar onde isso rola...
Com essas considerações podemos propor algumas questões sobre o tema de nosso colóquio:
Como explicar a parceria com um objeto da pulsão no nível do fundamento sintomático do casal?
Quais transformações podem ser pensadas sobre a pulsão quando o final de análise não se esgota na travessia da fantasia? Ou, se não há travessia da pulsão o que é a cura?
É possível amar seu sintoma? Fazer bom uso dele é amá-lo? O que se ama, quando há sinthoma e não sintoma?
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Jacques Lacan e a Psicanálise do Século XXI
Confiram a fala de Jorge Forbes na conferência de encerramento de seu programa no Café Filosófico (27/8/09), sobre a Psicanálise do século XXI.
http://www.youtube.com/watch?v=Xva3Coue9-c
http://www.youtube.com/watch?v=Xva3Coue9-c
Como Lacan se tornou psicanalista…
JEANNE JOUCLA
Esse título é uma brincadeira? Sim...e não, pois o próprio Lacan evoca esse « como » por ocasião de uma de suas entrevistas nas universidades norte-americanas em Yale, em 1975. Veremos que sua conclusão é surpreendente!
Lacan é convidado nas universidades norte-americanas. Em Yale, diante de um público de universitários e de estudantes, é um pouco aos trancos e barrancos : « Gostaria, em primeiro lugar, de lançar uma questão, precisamente aos que escolheram colocar-se como psicanalistas [...] como eles chegaram ao que pode, depois de tudo, ser razoavelmente chamado de seu...trabalho » …
« Agora, deixem-me responder minha questão : como me tornei psicanalista? »
Ele evoca, então, sua tese de doutorado em medicina em 1932, A psicose paranóica em suas relações com a personalidade, « um ensaio de rigor » antes de tudo que, diz ele, « eu me permito levar a sério ». Depois, ele faz a aproximação com Freud, escutando muito seriamente as histéricas e que descobriu o inconsciente; ele prossegue perguntando-se sobre as formações do inconsciente e sobre o fato de que, no tratamento, o que conta é o relato que se faz dela - um material linguageiro, então.
Lacan, depois desses desvios, reitera sua questão « […] gostaria de ter uma idéia de como alguém se decide a autorizar-se psicanalista nos Estados Unidos? Gostaria de ter uma idéia do que corresponde, aqui, ao que intituí na minha Escola e que chamo de « o passe ». Ele precisa: « isso consiste em que, no ponto onde alguém se considera suficientemente preparado para ousar ser analista, ele possa dizer a outrem […] o que o provocou a receber pessoas em nome da análises… ? » Silêncio…
Ele continua: « Vocês devem admitir que a descoberta do inconsciente é uma coisa muito curiosa, a descoberta de uma forma de saber muito especializada, intimamente ligada ao material da linguagem…que cola na pele de cada um pelo simples fato de ser humano…»
Lacan retoma, e é a terceira vez: « Agora, se alguém quiser me responder...eu o convido a dizer a verdade…Vocês podem me dizer simplesmente que vocês pertencem a uma associação psicanalítica, e que isso lhes pareceu ser uma bela situação…»
Depois, a última frase cai como um cutelo: « Mas o fim da verdade, a verdade verdadeira, é que entre homem e mulher, isso não funciona ».
Vamos parar nesta frase da qual imaginamos o efeito surpreendente que ela teve sobre a silenciosa platéia – e da qual medimos, várias décadas mais tarde, a pertinência cortante!
Estamos em 1975, ou seja, 8 anos depois da invenção do passe descrita na proposição de 67, e apenas 6 ans depois de seu funcionamento.
Tradução: Eucy de Mello
Esse título é uma brincadeira? Sim...e não, pois o próprio Lacan evoca esse « como » por ocasião de uma de suas entrevistas nas universidades norte-americanas em Yale, em 1975. Veremos que sua conclusão é surpreendente!
Lacan é convidado nas universidades norte-americanas. Em Yale, diante de um público de universitários e de estudantes, é um pouco aos trancos e barrancos : « Gostaria, em primeiro lugar, de lançar uma questão, precisamente aos que escolheram colocar-se como psicanalistas [...] como eles chegaram ao que pode, depois de tudo, ser razoavelmente chamado de seu...trabalho » …
« Agora, deixem-me responder minha questão : como me tornei psicanalista? »
Ele evoca, então, sua tese de doutorado em medicina em 1932, A psicose paranóica em suas relações com a personalidade, « um ensaio de rigor » antes de tudo que, diz ele, « eu me permito levar a sério ». Depois, ele faz a aproximação com Freud, escutando muito seriamente as histéricas e que descobriu o inconsciente; ele prossegue perguntando-se sobre as formações do inconsciente e sobre o fato de que, no tratamento, o que conta é o relato que se faz dela - um material linguageiro, então.
Lacan, depois desses desvios, reitera sua questão « […] gostaria de ter uma idéia de como alguém se decide a autorizar-se psicanalista nos Estados Unidos? Gostaria de ter uma idéia do que corresponde, aqui, ao que intituí na minha Escola e que chamo de « o passe ». Ele precisa: « isso consiste em que, no ponto onde alguém se considera suficientemente preparado para ousar ser analista, ele possa dizer a outrem […] o que o provocou a receber pessoas em nome da análises… ? » Silêncio…
Ele continua: « Vocês devem admitir que a descoberta do inconsciente é uma coisa muito curiosa, a descoberta de uma forma de saber muito especializada, intimamente ligada ao material da linguagem…que cola na pele de cada um pelo simples fato de ser humano…»
Lacan retoma, e é a terceira vez: « Agora, se alguém quiser me responder...eu o convido a dizer a verdade…Vocês podem me dizer simplesmente que vocês pertencem a uma associação psicanalítica, e que isso lhes pareceu ser uma bela situação…»
Depois, a última frase cai como um cutelo: « Mas o fim da verdade, a verdade verdadeira, é que entre homem e mulher, isso não funciona ».
Vamos parar nesta frase da qual imaginamos o efeito surpreendente que ela teve sobre a silenciosa platéia – e da qual medimos, várias décadas mais tarde, a pertinência cortante!
Estamos em 1975, ou seja, 8 anos depois da invenção do passe descrita na proposição de 67, e apenas 6 ans depois de seu funcionamento.
Tradução: Eucy de Mello
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Agnès Aflalo: Observações sobre o tema
Fazer uma análise. A condição para se tornar analista é fazer uma psicanálise. Para isso, é preciso encontrar um analista. Ora, O psicanalista não existe. O que existe é um ato do qual somente os efeitos de só depois poderão legitimar se houve uma análise. A pergunta “como se torna analista?” deriva-se então em diferentes questões, como esta do testemunho exposto, que permite verificar a pertinência da decisão de funcionar como analista. Lacan formalizou um fim lógico da experiência que passa pelo testemunho do passe diante de um júri fechado. O tema das Jornadas que vocês escolheram demanda um testemunho pouco distante do passe, posto que se trata de expor seu próprio percurso, e da decisão tomada de ocupar o lugar da variável na função de psicanalista. Há como relançar a experiência, se os testemunhos forem efetivamente ordenados em sua diversidade.
O fato. O momento da instalação precede freqüentemente o momento lógico do fim da experiência. É um fato que o analista só se autoriza de si mesmo, mas, também de alguns outros e é também um fato numa Escola de Lacan.
Nunca parar de pôr o paradoxo a trabalhar. É preciso um psicanalista para fazer existir o inconsciente. E não há psicanálise sem psicanalista. Fazer existir o inconsciente depende do ato analítico.
A regulação do desejo na análise. Alguém se torna analista porque assim o deseja. Esse desejo pode datar de antes da análise – na adolescência, sim, como foi meu caso, onde a leitura de Freud fez acontecimento. Mas, isto não basta. Esse desejo se decide por acaso no decurso da análise. Ele se impõe como alternativa de uma escolha forçada (as únicas que contam): “isso, ou nada mais”. Tornamo-nos analistas quando estamos habitados pelo desejo de que a psicanálise não desapareça conosco - quando se decide que a experiência subjetiva da análise é de tal forma insólita, que vale a pena ser transmitida a outros.
Tirar as conseqüências radicais da inexistência do Outro- mas não por meio de fazer uma análise sem a presença real daquele que se dedica a fazer o analista. A psicanálise e os psicanalistas, isso faz dois, mas não por meio de fazer existir o Discurso Analítico sem psicanalista.
O que faz alguém analista é, in fine, uma vicissitude do sintoma- se a decisão está tomada, basta decifrar o querer-dizer do sintoma, e o que resta do querer gozar é suficientemente esvaziado para alojar a queixa de um outro. Em outras palavras, decidir de se fazer o parceiro de um outro sinthoma que não o seu, para que se complete o trajeto que vai do Outro ao outro (l’(a)utre).
Tornar-se analista e permanecer analista: relançar a aposta ética. Isso depende do ato para cada paciente, e a cada sessão. Isso implica em reinventar a análise com cada um, a fim de que os efeitos de verdade desencadeados pelo ato possam se construir em um saber singular que toque o real do sintoma. Isso implica em supervisões, e a retomada da análise, quando os restos ativos do sintoma disto necessitem.
Não parar de acreditar no inconsciente, e de se fazer responsável pelo sintoma. É saber que o real do inconsciente não pára nunca de engendrar seu próprio desconhecimento. Isso é verdade antes, durante e depois da análise. Tornamo-nos analistas quando consentimos com a ascese prescrita pela causa analítica, que prescreve se desfazer deste desconhecimento engendrado pelo real, e, portanto, de nunca estar desobrigado. É dar seu lugar ao inconsciente pós-analítico, e não somente para retomar um período de análise, mas também interpretar outras formações do inconsciente, se for necessário, como o fato de analisar a lógica do ato falho.
A Escola de Lacan. Tornar-se analista numa Escola de Lacan é decidir fazer-se responsável com outros da transmissão do Discurso analítico. Isso comporta passar pelo ensino de Freud, de Lacan, sem fetichisar seus conceitos. Quando a Coisa analítica não lhes deixa mais em paz, e que decidiu de fazer dela sua causa, e que ela impulsiona a reinventar a psicanálise, mas sem uma série de outros que tomaram a mesma decisão, e por razões similares.
A questão é atual, pois isto é necessário para que o discurso analítico não desapareça. Ora, para que a questão possa continuar a se colocar, é preciso que a psicanálise não seja decretada fora da lei pelo mestre que nos governa. Tornamo-nos analista quando temos a idéia de que o psicanalista é responsável por fazer existir o discurso analítico. Isso implica em analisar o mal-estar contemporâneo.
As XXXVIII Jornadas acontecerão nos próximos dias 7 e 8 de novembro em Paris, no Palais de Congrés
ECF 1 Rue Huysmans Paris 6éme. Tel. + 33 (0) 1 45 49 02 68
Para se inscrever acessar www.causefreudienne.org
Tradução: Elizabete Siqueira
O fato. O momento da instalação precede freqüentemente o momento lógico do fim da experiência. É um fato que o analista só se autoriza de si mesmo, mas, também de alguns outros e é também um fato numa Escola de Lacan.
Nunca parar de pôr o paradoxo a trabalhar. É preciso um psicanalista para fazer existir o inconsciente. E não há psicanálise sem psicanalista. Fazer existir o inconsciente depende do ato analítico.
A regulação do desejo na análise. Alguém se torna analista porque assim o deseja. Esse desejo pode datar de antes da análise – na adolescência, sim, como foi meu caso, onde a leitura de Freud fez acontecimento. Mas, isto não basta. Esse desejo se decide por acaso no decurso da análise. Ele se impõe como alternativa de uma escolha forçada (as únicas que contam): “isso, ou nada mais”. Tornamo-nos analistas quando estamos habitados pelo desejo de que a psicanálise não desapareça conosco - quando se decide que a experiência subjetiva da análise é de tal forma insólita, que vale a pena ser transmitida a outros.
Tirar as conseqüências radicais da inexistência do Outro- mas não por meio de fazer uma análise sem a presença real daquele que se dedica a fazer o analista. A psicanálise e os psicanalistas, isso faz dois, mas não por meio de fazer existir o Discurso Analítico sem psicanalista.
O que faz alguém analista é, in fine, uma vicissitude do sintoma- se a decisão está tomada, basta decifrar o querer-dizer do sintoma, e o que resta do querer gozar é suficientemente esvaziado para alojar a queixa de um outro. Em outras palavras, decidir de se fazer o parceiro de um outro sinthoma que não o seu, para que se complete o trajeto que vai do Outro ao outro (l’(a)utre).
Tornar-se analista e permanecer analista: relançar a aposta ética. Isso depende do ato para cada paciente, e a cada sessão. Isso implica em reinventar a análise com cada um, a fim de que os efeitos de verdade desencadeados pelo ato possam se construir em um saber singular que toque o real do sintoma. Isso implica em supervisões, e a retomada da análise, quando os restos ativos do sintoma disto necessitem.
Não parar de acreditar no inconsciente, e de se fazer responsável pelo sintoma. É saber que o real do inconsciente não pára nunca de engendrar seu próprio desconhecimento. Isso é verdade antes, durante e depois da análise. Tornamo-nos analistas quando consentimos com a ascese prescrita pela causa analítica, que prescreve se desfazer deste desconhecimento engendrado pelo real, e, portanto, de nunca estar desobrigado. É dar seu lugar ao inconsciente pós-analítico, e não somente para retomar um período de análise, mas também interpretar outras formações do inconsciente, se for necessário, como o fato de analisar a lógica do ato falho.
A Escola de Lacan. Tornar-se analista numa Escola de Lacan é decidir fazer-se responsável com outros da transmissão do Discurso analítico. Isso comporta passar pelo ensino de Freud, de Lacan, sem fetichisar seus conceitos. Quando a Coisa analítica não lhes deixa mais em paz, e que decidiu de fazer dela sua causa, e que ela impulsiona a reinventar a psicanálise, mas sem uma série de outros que tomaram a mesma decisão, e por razões similares.
A questão é atual, pois isto é necessário para que o discurso analítico não desapareça. Ora, para que a questão possa continuar a se colocar, é preciso que a psicanálise não seja decretada fora da lei pelo mestre que nos governa. Tornamo-nos analista quando temos a idéia de que o psicanalista é responsável por fazer existir o discurso analítico. Isso implica em analisar o mal-estar contemporâneo.
As XXXVIII Jornadas acontecerão nos próximos dias 7 e 8 de novembro em Paris, no Palais de Congrés
ECF 1 Rue Huysmans Paris 6éme. Tel. + 33 (0) 1 45 49 02 68
Para se inscrever acessar www.causefreudienne.org
Tradução: Elizabete Siqueira
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Bonita aposta
Judith Miller,Psicanalista.
Ponhamo-nos, nestas Jornadas, na hora da surpresa, sabendo que a maioria das decisões são vividas como demasiado tardias. Não é uma razão para não tomá-las.
Esta me permite saber por que o título destas Jornadas faziam com que me coçasse sem as cócegas. Sem dúvida, sou demasiada heideggeriana: o “se” mata a surpresa que remete a um caminho já traçado.
Felizmente, Jacques Lacan encontrou o espírito freudiano: a noção de caminho obrigado, de cursos e a da análise chamada didática, com seus aparatos de bens necessários e outras enfatuações. Ver o texto mordaz dos Escritos. Extrair dali, suas conseqüências.
Uma análise não está pré-programada, reserva surpresas.
Não há prejuízos, não há ideal, tampouco. O passe não é um, não prejulga nada, nem sequer não voltar ao trabalho de analisante, por um pequeno lance, aqui, ali.
A pergunta seria ao menos dupla. Quem é analisante, quem entra em análise atualmente e o que pode produzir-se aí? À primeira, numerosas respostas, caso por caso. Declino algumas que posso ver (sem saber nada disso).
- Estão os que crêem fazer uma análise e não o fazem, porque aquele que pretende permiti-la, não o permite. Não há análise sem analista. A questão se torna: haveria que demonstrar que o “ato” verifica que alguém teve o lugar de analista. O caso é que nem todos aqueles que querem fazer uma análise têm a oportunidade de encontrar esse alguém.
- Estão os que sofrem e que têm a coragem de não contentar-se com isso, de se colocarem ao trabalho analítico, o aprendem. Saboreiam seguramente e vão saborear ainda mais de outro modo, esse trabalho tem efeitos e não vejo porque os analistas se envergonhariam dizendo que são de cura, dado que em medicina que tem a ver com curar, um enfermo não deixa de ser por isso, menos mortal; a melhora, a satisfação de que se trata, não equivalem nem à serenidade, nem a alguma “normalidade”, nem a uma saúde mental, ...nem...nem.
- Estão os que tomam gosto por esse trabalho, que se transforma indispensável, fizeram bem em decidir-se, às vezes por necessidade estrutural, às vezes por debilidade (quando?), às vezes por outras vias.
- Outros consideram, em determinado momento, que terminaram, pode ser algo provisório ou definitivo, o que não implica por a trabalho seu inconsciente - ensinando, por exemplo - porém há outras maneiras a explicitar também, entre elas, depois de tudo, analisar os demais.
Não existe os que fazem uma análise por pura curiosidade intelectual, nem para encontrar seu caminho profissional, volta à casinha do começo.
- Estão os que não se decidem por se colocarem a trabalho de analisante. Estão equivocados? O equívoco, como cada um sabe, mata. Sem dúvida, entre eles, muitos cedem sobre seu desejo. Não todos, alguns se arranjam sem saber como. Medem as contingências que os têm permitido, os encontros, as ocasiões falhadas e aquelas exitosas.
- Se a psicanálise é preciosa hoje, é por ser intempestiva, por preservar-se das receitas, dos programas, por apreciar o inesperado e o anódino e por acolhê-los sem causar danos, por ter tato frente ao mais secreto, dando conta disso com justeza e por meio do detalhe singular. Racionalista de outro modo, termina sendo poética.
Encontrar as surpresas, bonita aposta. Não consolam nem evitam a vaidade do que constitui o sal da vida, um pequeno nada, decisivo. Em que?
Ponhamo-nos, nestas Jornadas, na hora da surpresa, sabendo que a maioria das decisões são vividas como demasiado tardias. Não é uma razão para não tomá-las.
Esta me permite saber por que o título destas Jornadas faziam com que me coçasse sem as cócegas. Sem dúvida, sou demasiada heideggeriana: o “se” mata a surpresa que remete a um caminho já traçado.
Felizmente, Jacques Lacan encontrou o espírito freudiano: a noção de caminho obrigado, de cursos e a da análise chamada didática, com seus aparatos de bens necessários e outras enfatuações. Ver o texto mordaz dos Escritos. Extrair dali, suas conseqüências.
Uma análise não está pré-programada, reserva surpresas.
Não há prejuízos, não há ideal, tampouco. O passe não é um, não prejulga nada, nem sequer não voltar ao trabalho de analisante, por um pequeno lance, aqui, ali.
A pergunta seria ao menos dupla. Quem é analisante, quem entra em análise atualmente e o que pode produzir-se aí? À primeira, numerosas respostas, caso por caso. Declino algumas que posso ver (sem saber nada disso).
- Estão os que crêem fazer uma análise e não o fazem, porque aquele que pretende permiti-la, não o permite. Não há análise sem analista. A questão se torna: haveria que demonstrar que o “ato” verifica que alguém teve o lugar de analista. O caso é que nem todos aqueles que querem fazer uma análise têm a oportunidade de encontrar esse alguém.
- Estão os que sofrem e que têm a coragem de não contentar-se com isso, de se colocarem ao trabalho analítico, o aprendem. Saboreiam seguramente e vão saborear ainda mais de outro modo, esse trabalho tem efeitos e não vejo porque os analistas se envergonhariam dizendo que são de cura, dado que em medicina que tem a ver com curar, um enfermo não deixa de ser por isso, menos mortal; a melhora, a satisfação de que se trata, não equivalem nem à serenidade, nem a alguma “normalidade”, nem a uma saúde mental, ...nem...nem.
- Estão os que tomam gosto por esse trabalho, que se transforma indispensável, fizeram bem em decidir-se, às vezes por necessidade estrutural, às vezes por debilidade (quando?), às vezes por outras vias.
- Outros consideram, em determinado momento, que terminaram, pode ser algo provisório ou definitivo, o que não implica por a trabalho seu inconsciente - ensinando, por exemplo - porém há outras maneiras a explicitar também, entre elas, depois de tudo, analisar os demais.
Não existe os que fazem uma análise por pura curiosidade intelectual, nem para encontrar seu caminho profissional, volta à casinha do começo.
- Estão os que não se decidem por se colocarem a trabalho de analisante. Estão equivocados? O equívoco, como cada um sabe, mata. Sem dúvida, entre eles, muitos cedem sobre seu desejo. Não todos, alguns se arranjam sem saber como. Medem as contingências que os têm permitido, os encontros, as ocasiões falhadas e aquelas exitosas.
- Se a psicanálise é preciosa hoje, é por ser intempestiva, por preservar-se das receitas, dos programas, por apreciar o inesperado e o anódino e por acolhê-los sem causar danos, por ter tato frente ao mais secreto, dando conta disso com justeza e por meio do detalhe singular. Racionalista de outro modo, termina sendo poética.
Encontrar as surpresas, bonita aposta. Não consolam nem evitam a vaidade do que constitui o sal da vida, um pequeno nada, decisivo. Em que?
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
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