domingo, 28 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O sintoma como problema e como solução
Sérgio Laia- EBP-AMP-MG
Por Maria de Lourdes Aragão
Por ocasião da vinda do colega Sergio Laia, da Seção Minas Gerais, ao nosso estado, para participar de bancas de mestrado na UFPB, a delegação Paraíba, fez um convite para que ele pudesse contribuir com os nossos Seminários Preparatórios do VII Colóquio da EBP – “Felicidade: uma política do sintoma?”, onde o mesmo nos apresentou uma brilhante conferência intitulada O Sintoma como Problema e como Solução. A conferência, aberta ao público, foi realizada no auditório do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da universidade.
Traçando um caminho de Freud a Lacan, Sérgio Laia inicia sua fala, dizendo que na conferência A terapia analítica, Freud diz que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida porque sua libido não é dirigida a nenhum objeto real e de ser eficiente porque precisa dispensar uma quantidade valiosa de energia para manter sua energia reprimida.
Nesse sentido, diz Sergio Laia, Freud nos lega o sintoma como uma satisfação inconsciente, e por ser uma satisfação torna-se difícil do neurótico se livrar dela, já que ela torna-se uma forma do neurótico solucionar um conflito.
Em outras palavras: a solução freudiana do problema-sintoma, a solução para a solução problemática que um sintoma acaba sendo para um sujeito é que esse sujeito possa se transformar, com o tratamento analítico, em um “senhor do sintoma”.
Em Lacan, Sergio destaca o que este diz sobre “identificação ao sintoma”, que não se trata de uma “identificação ao inconsciente”. Essa expressão nomeia muito bem o que Freud almejava quando concebia o tratamento analítico como um traço no qual o neurótico deveria se fazer senhor de seu sintoma. Apropriar-se de seu sintoma seria equivalente a se identificar ao inconsciente.
Sérgio Laia enfatizou que, identificar-se a seu sintoma implica colocar-se mais longe do inconsciente, estar mais além do inconsciente.
Nessa perspectiva, nos disse que, se no final de análise temos uma identificação do analisante ao seu sintoma, é porque o sintoma é aquilo que se conhece melhor, é o parceiro do sujeito em sua loida com o real impossível de suportar.
Dessa maneira a experiência de uma análise, afirma Sergio Laia, é a depuração do sintoma como parceiro do sujeito. Se Lacan nos fala acrescenta Sérgio Laia, de um savoir y faire no final de análise, não se trata de um fazer técnico, de um “saber fazer com”. Trata-se, sobretudo, segundo Xavier Esqué, de saber se desenrolar do rolo, tendo o sintoma à mão, como se fosse uma ferramenta. É uma depuração com a redução dos objetos a. É o sujeito demonstrar no que concerne ao gozo de sua vida, uma identificação a seu sintoma sem transformar-se em seu senhor e sem permanecer como seu escravo.
Além da conferência Sérgio Laia participou conosco do Seminário de Estudos Clínicos, atividade interna da Delegação onde contribuiu com um excelente trabalho clínico, trazendo aportes riquíssimos para todos os que praticam a psicanálise de orientação lacaniana.
Por Maria de Lourdes Aragão
Por ocasião da vinda do colega Sergio Laia, da Seção Minas Gerais, ao nosso estado, para participar de bancas de mestrado na UFPB, a delegação Paraíba, fez um convite para que ele pudesse contribuir com os nossos Seminários Preparatórios do VII Colóquio da EBP – “Felicidade: uma política do sintoma?”, onde o mesmo nos apresentou uma brilhante conferência intitulada O Sintoma como Problema e como Solução. A conferência, aberta ao público, foi realizada no auditório do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da universidade.
Traçando um caminho de Freud a Lacan, Sérgio Laia inicia sua fala, dizendo que na conferência A terapia analítica, Freud diz que um neurótico é incapaz de aproveitar a vida porque sua libido não é dirigida a nenhum objeto real e de ser eficiente porque precisa dispensar uma quantidade valiosa de energia para manter sua energia reprimida.
Nesse sentido, diz Sergio Laia, Freud nos lega o sintoma como uma satisfação inconsciente, e por ser uma satisfação torna-se difícil do neurótico se livrar dela, já que ela torna-se uma forma do neurótico solucionar um conflito.
Em outras palavras: a solução freudiana do problema-sintoma, a solução para a solução problemática que um sintoma acaba sendo para um sujeito é que esse sujeito possa se transformar, com o tratamento analítico, em um “senhor do sintoma”.
Em Lacan, Sergio destaca o que este diz sobre “identificação ao sintoma”, que não se trata de uma “identificação ao inconsciente”. Essa expressão nomeia muito bem o que Freud almejava quando concebia o tratamento analítico como um traço no qual o neurótico deveria se fazer senhor de seu sintoma. Apropriar-se de seu sintoma seria equivalente a se identificar ao inconsciente.
Sérgio Laia enfatizou que, identificar-se a seu sintoma implica colocar-se mais longe do inconsciente, estar mais além do inconsciente.
Nessa perspectiva, nos disse que, se no final de análise temos uma identificação do analisante ao seu sintoma, é porque o sintoma é aquilo que se conhece melhor, é o parceiro do sujeito em sua loida com o real impossível de suportar.
Dessa maneira a experiência de uma análise, afirma Sergio Laia, é a depuração do sintoma como parceiro do sujeito. Se Lacan nos fala acrescenta Sérgio Laia, de um savoir y faire no final de análise, não se trata de um fazer técnico, de um “saber fazer com”. Trata-se, sobretudo, segundo Xavier Esqué, de saber se desenrolar do rolo, tendo o sintoma à mão, como se fosse uma ferramenta. É uma depuração com a redução dos objetos a. É o sujeito demonstrar no que concerne ao gozo de sua vida, uma identificação a seu sintoma sem transformar-se em seu senhor e sem permanecer como seu escravo.
Além da conferência Sérgio Laia participou conosco do Seminário de Estudos Clínicos, atividade interna da Delegação onde contribuiu com um excelente trabalho clínico, trazendo aportes riquíssimos para todos os que praticam a psicanálise de orientação lacaniana.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Felicidade: uma política do sintoma?
Zaeth Aguiar do Nascimento – Correspondente da Delegação Paraíba da EBP
O SINTOMA E A CIVILIZAÇÃO
A articulação em torno do tema sintoma e civilização tomou como referência para dialogar, O Mal-estar na Civilização (Freud, 1930) e “A Sociedade do Sintoma” (Laurent, 2007).
O momento atual da civilização circunscrito com o termo contemporaneidade tem sido conceituado como um tempo de desencanto, mas ao mesmo tempo de promessas: na política, nos ideais, na ciência com suas promessas de felicidade e de garantia de jovialidade. Um tempo em que nos deparamos com o surgimento de novos sintomas que trazem desafios para a prática analítica: a violência desmedida, a toxicomania, a bulimia, a anorexia, a depressão, o empuxo ao consumo desenfreado, as psicoses não desencadeadas, etc.
Diante deste quadro nos questionamos em que lugar deve o analista se situar com seu ato diante dos novos sintomas e qual deve ser a ação analítica no mundo atual?
Em 1930 Freud nos brinda com suas reflexões no seu brilhante artigo O Mal-Estar na Civilização. Neste artigo ele enumera as três medidas que o homem elege para tentar suportar o desamparo diante da vida: 1) derivativos poderosos (e neste cita como exemplo a atividade científica); 2) as satisfações substitutivas (que reduzem ou amenizam o sofrimento – estas são ofertadas pela arte e 3) as substâncias tóxicas (que nos tornam insensíveis ao sofrimento ).
De acordo com Freud, o homem localiza a fonte deste desamparo ou sofrimento que o ameaça em três direções: 1) Na fragilidade do nosso corpo (“condenado à decadência e à dissolução” (p. 95). Neste sentido, constatamos que o homem contemporâneo busca garantias apoiado na ciência, através de diversos recursos para se contrapor a este inevitável; o que podemos chamar de a ditadura da beleza: botox, plásticas, etc; (p.107); 2) No mundo externo, ou seja, no poder da natureza e 3) Na relação com o outro (fonte social) – Freud destaca que esta terceira direção é a que o sofrimento é mais penoso.
Freud ao se interrogar por que é tão difícil o homem ser feliz, aponta que ao ser questionado a respeito de qual o propósito da vida, o homem indica como projeto a busca da felicidade e que esta se concretiza através de duas metas: uma na qual se busca a felicidade pela via da ausência de sofrimento e de desprazer, e outra (negativa) que se dá pela via da experiência de prazer intenso, pela satisfação pulsional sem renúncia.
O método que o homem elege para evitar o sofrimento considerado como o mais grosseiro embora o mais eficaz é a intoxicação o que Freud denomina de “amortecedor de preocupações” (p. 97).
O que Freud denomina de “mal-estar” na civilização ou o que Lacan indica como “sinthoma” na civilização, Miller estabelece sob a forma do matema a > I para definir a conjuntura atual da civilização que tem como predomínio a “ascensão ao Zênite social” (Lacan) do objeto a. Ainda com relação ao momento contemporâneo Lacan aponta o discurso capitalista como um efeito particular do discurso do mestre contemporâneo (Laurent, 2007). É este discurso que produz o objeto a.
A partir de Freud com sua 2ª teoria pulsional, e com Lacan com a proposição do conceito de gozo, podemos localizar no sujeito desta civilização um imperativo do gozo. Laurent localiza no termo overdose da qual o sujeito faz uso para ir de encontro à morte, termo este que não se restringe apenas ao campo das toxicomanias como conhecíamos o seu uso, mas se estende a outros campos: ao excesso de trabalho (advindo a expressão matar-se de trabalhar – o que conhecemos como os Workhaolics), a busca por esportes/radicais perigosos, o apetite pelo risco, o suicídio político (o homem-bomba), o gozar com sua morte, etc.
Laurent aponta-nos as características da subjetividade contemporânea e nesta “percebe-se claramente que o declínio do ideal se acompanha das exigências do gozo”. Permeando a subjetividade contemporânea apresentam-se o hedonismo de massa e o fetichismo da mercadoria generalizada.
Neste sentido, constatamos que o hedonismo de massa que caracteriza o momento atual da civilização é responsável pelo desaparecimento da particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo remete ao acesso ao gozo “para todos”. Laurent acrescenta os dois tipos de relação com o gozo: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma e indica-nos um outro aspecto da experiência de gozo que se diferencia da overdose, que é a experiência do todo e que seria a alloverdose implicando um gozo ilimitado, o todo. Se contrapondo a esta versão do gozo, “respondem os pequenos furos particulares de cada sujeito liberado da tirania de gozar de “tudo” (p. 173)”. Miller (Curso de Orientação Lacaniana, curso 20; ano 2003-2004 – inédito) indica-nos a que ponto a tirania do objeto a na atual civilização é uma tirania que não tem mais laço com a singularidade de cada sujeito, por isto se chama de tirania.
Diante deste quadro da civilização, voltamos a nos questionar qual a ação do analista? Laurent indica-nos que o analista “não pode pretender aliviar o sujeito contemporâneo de sua culpa em relação ao ideal”, pois o sujeito contemporâneo já está aliviado (ele é um sujeito light) e que “o importante não é o aparente alívio do sujeito, mas o peso de sua relação com o gozo” (p. 171). Neste sentido, cabe ao analista, no que diz respeito ao gozo, “reenviar o sujeito à sua particularidade” (p. 172) que diz respeito ao sintoma. O programa de ação do analista na civilização atual é fazer acreditar no sintoma que remete ao singular.
Outra ação do analista na civilização do lugar da psicanálise hoje, diz respeito ao que Laurent denomina de “analista-cidadão”. Desta forma, resta ao analista praticar a psicanálise na cidade, sair da posição de analista intelectual, “Há que se passar do analista reservado, (..) a um analista que participa, (...) sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora” (Laurent, 2007, p. 143).
O SINTOMA E A CIVILIZAÇÃO
A articulação em torno do tema sintoma e civilização tomou como referência para dialogar, O Mal-estar na Civilização (Freud, 1930) e “A Sociedade do Sintoma” (Laurent, 2007).
O momento atual da civilização circunscrito com o termo contemporaneidade tem sido conceituado como um tempo de desencanto, mas ao mesmo tempo de promessas: na política, nos ideais, na ciência com suas promessas de felicidade e de garantia de jovialidade. Um tempo em que nos deparamos com o surgimento de novos sintomas que trazem desafios para a prática analítica: a violência desmedida, a toxicomania, a bulimia, a anorexia, a depressão, o empuxo ao consumo desenfreado, as psicoses não desencadeadas, etc.
Diante deste quadro nos questionamos em que lugar deve o analista se situar com seu ato diante dos novos sintomas e qual deve ser a ação analítica no mundo atual?
Em 1930 Freud nos brinda com suas reflexões no seu brilhante artigo O Mal-Estar na Civilização. Neste artigo ele enumera as três medidas que o homem elege para tentar suportar o desamparo diante da vida: 1) derivativos poderosos (e neste cita como exemplo a atividade científica); 2) as satisfações substitutivas (que reduzem ou amenizam o sofrimento – estas são ofertadas pela arte e 3) as substâncias tóxicas (que nos tornam insensíveis ao sofrimento ).
De acordo com Freud, o homem localiza a fonte deste desamparo ou sofrimento que o ameaça em três direções: 1) Na fragilidade do nosso corpo (“condenado à decadência e à dissolução” (p. 95). Neste sentido, constatamos que o homem contemporâneo busca garantias apoiado na ciência, através de diversos recursos para se contrapor a este inevitável; o que podemos chamar de a ditadura da beleza: botox, plásticas, etc; (p.107); 2) No mundo externo, ou seja, no poder da natureza e 3) Na relação com o outro (fonte social) – Freud destaca que esta terceira direção é a que o sofrimento é mais penoso.
Freud ao se interrogar por que é tão difícil o homem ser feliz, aponta que ao ser questionado a respeito de qual o propósito da vida, o homem indica como projeto a busca da felicidade e que esta se concretiza através de duas metas: uma na qual se busca a felicidade pela via da ausência de sofrimento e de desprazer, e outra (negativa) que se dá pela via da experiência de prazer intenso, pela satisfação pulsional sem renúncia.
O método que o homem elege para evitar o sofrimento considerado como o mais grosseiro embora o mais eficaz é a intoxicação o que Freud denomina de “amortecedor de preocupações” (p. 97).
O que Freud denomina de “mal-estar” na civilização ou o que Lacan indica como “sinthoma” na civilização, Miller estabelece sob a forma do matema a > I para definir a conjuntura atual da civilização que tem como predomínio a “ascensão ao Zênite social” (Lacan) do objeto a. Ainda com relação ao momento contemporâneo Lacan aponta o discurso capitalista como um efeito particular do discurso do mestre contemporâneo (Laurent, 2007). É este discurso que produz o objeto a.
A partir de Freud com sua 2ª teoria pulsional, e com Lacan com a proposição do conceito de gozo, podemos localizar no sujeito desta civilização um imperativo do gozo. Laurent localiza no termo overdose da qual o sujeito faz uso para ir de encontro à morte, termo este que não se restringe apenas ao campo das toxicomanias como conhecíamos o seu uso, mas se estende a outros campos: ao excesso de trabalho (advindo a expressão matar-se de trabalhar – o que conhecemos como os Workhaolics), a busca por esportes/radicais perigosos, o apetite pelo risco, o suicídio político (o homem-bomba), o gozar com sua morte, etc.
Laurent aponta-nos as características da subjetividade contemporânea e nesta “percebe-se claramente que o declínio do ideal se acompanha das exigências do gozo”. Permeando a subjetividade contemporânea apresentam-se o hedonismo de massa e o fetichismo da mercadoria generalizada.
Neste sentido, constatamos que o hedonismo de massa que caracteriza o momento atual da civilização é responsável pelo desaparecimento da particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo remete ao acesso ao gozo “para todos”. Laurent acrescenta os dois tipos de relação com o gozo: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma e indica-nos um outro aspecto da experiência de gozo que se diferencia da overdose, que é a experiência do todo e que seria a alloverdose implicando um gozo ilimitado, o todo. Se contrapondo a esta versão do gozo, “respondem os pequenos furos particulares de cada sujeito liberado da tirania de gozar de “tudo” (p. 173)”. Miller (Curso de Orientação Lacaniana, curso 20; ano 2003-2004 – inédito) indica-nos a que ponto a tirania do objeto a na atual civilização é uma tirania que não tem mais laço com a singularidade de cada sujeito, por isto se chama de tirania.
Diante deste quadro da civilização, voltamos a nos questionar qual a ação do analista? Laurent indica-nos que o analista “não pode pretender aliviar o sujeito contemporâneo de sua culpa em relação ao ideal”, pois o sujeito contemporâneo já está aliviado (ele é um sujeito light) e que “o importante não é o aparente alívio do sujeito, mas o peso de sua relação com o gozo” (p. 171). Neste sentido, cabe ao analista, no que diz respeito ao gozo, “reenviar o sujeito à sua particularidade” (p. 172) que diz respeito ao sintoma. O programa de ação do analista na civilização atual é fazer acreditar no sintoma que remete ao singular.
Outra ação do analista na civilização do lugar da psicanálise hoje, diz respeito ao que Laurent denomina de “analista-cidadão”. Desta forma, resta ao analista praticar a psicanálise na cidade, sair da posição de analista intelectual, “Há que se passar do analista reservado, (..) a um analista que participa, (...) sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora” (Laurent, 2007, p. 143).
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Comunicado
A diretoria do Círculo de Estudo Psicanalítico do Piauí - CEPP comunica que estão abertas as inscrições para o cargo de ADERENTE a todos que queiram se vincular e estudar a psicanálise.
Os interessados devem redigir uma carta endereçados a diretoria do CEPP, sobre o seu desejo e percurso com a psicanálise para o endereço eletrônico: cepp.teresina@gmail.com ; até o dia 26 de fevereiro de 2010.
Maiores informações através do e-mail: cepp.teresina@gmail.com
Os interessados devem redigir uma carta endereçados a diretoria do CEPP, sobre o seu desejo e percurso com a psicanálise para o endereço eletrônico: cepp.teresina@gmail.com ; até o dia 26 de fevereiro de 2010.
Maiores informações através do e-mail: cepp.teresina@gmail.com
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

dEsEnrEdoS
ano II - número quatro
janeiro fevereiro março 2010
editorial
Então, continuamos. Os desafios são os mesmos de sempre, e cada vez maiores, mas estarmos sendo lidos neste momento continua sendo nossa maior recompensa. Entretanto, gostaríamos de destacar uma leve mudança: a partir desta edição, dEsEnrEdoS passa ter periodicidade trimestral (exceto a seção bloco de notas, que será atualizada mensalmente). Não nos afligem a urgência e o imediatismo típicos da mídia contemporânea, e por isso lutamos contra os textos efêmeros, e precisamos de mais tempo para esse combate. É que esperamos que nossa voz tenha mais relevância que a próxima postagem do twitter (e mais caracteres também). E, enfim, desejamos imensamente que 2010 seja um ano atípico: repleto de bons poemas, boa prosa e pensamento crítico bem elaborado. E que a dEsEnrEdos não seja um oásis, mas apenas mais uma revista que prima em ir além do senso comum. Que nos mais diversos setores, inclusive na política, possamos realimentar esperanças, mesmo que para perdê-las em tão pouco tempo. E desejamos também que sejamos todos capazes de fazer essa diferença.
www.desenredos.com.br
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
A PSICANÁLISE HOJE, SEGUNDO JUDITH MILLER

A filha de Jacques Lacan
fala das modas e dos modos de diagnosticar, da tendência a medicar as crianças e dos limites entre o público
e o privado. E de suas diferenças com Anna Freud.
Por Diego Rojas
Quem poderia suspeitar que a delgada mulher que sustenta um livro em seus braços e se nega a soltá-lo enquanto tomamos suas fotos que ilustram esta entrevista, é Judith Miller, a filha de Jacques Lacan? A presidenta da Fundación del Campo Freudiano se aferra ao livrinho, uma compilação de textos lacanianos escritos em português. “Só uma foto sem ele”, roga o fotógrafo, mas ela se nega. “É meu tesouro”, assegura, e toda a sessão transcorre enquanto Miller abraça o ditoso livro. Sabe-se, as neuroses não reconhecem fronteiras; por que a filha do homem que repensou Freud e a esposa de Jacques Alain Miller, seu discípulo dileto, seria imune a elas? Miller esteve em Buenos Aires para participar do XVI Encuentro Internacional del Campo Freudiano e o Encuentro Americano de Psicoanálisis Aplicado de Orientación Lacaniana. Durante um descanso, compartiu a seguinte conversação com Veintitrés.
Certos diagnósticos psicológicos parecem alcançar a categoria de modas. Os ataques de pânico, a bipolaridade. Inclusive, na Argentina, certas revistas assinalaram que a gestão de Cristina Fernández estava marcada por sua suposta bipolaridade.
Há uma diferença entre “moda” e “modo”. Diagnosticar os atos do governo ao diagnosticar a senhora Kirchner como bipolar é uma nova maneira de fazê-lo. É uma certa maneira de não ter respeito a sua pessoa. Essa falta de respeito socava uma diferença que me parece fundamental entre o privado e o público. Está na moda falar do privado como se a intimidade estivesse exposta diante dos olhos dos demais. E os responsáveis pela política e pelos governos costumam ser objetos destes diagnósticos. É uma desvalorização da singularidade e a subvalorização desta pessoa singular, que o é ainda que seja um chefe de Estado. A classificação é uma maneira de dizer que uma pessoa é similar a muitas outras. A psicanálise faz o contrário da moda.
Por que?
Porque compreende a divisão entre o privado e o público: não se poderia fazer associação livre de maneira efetiva sem resguardar o segredo. Buscar a singularidade, aquilo que faz com que cada um não se pareça com ninguém, é o final da análise. Esta singularidade absoluta é acessível. Por isso, a psicanálise não aceita nem o “modo” nem a “moda” atuais: são parte do que chamamos o mal estar da cultura. A psicanálise rechaça estas colocações e diz por que é perigoso mesclar a identidade de cada um com a identidade de outros. Os direitos humanos são universais e cada humano tem os mesmos direitos que os outros, mas isso também se traduz em que cada um tenha as mesmas debilidades que os outros e isso não é verdade. Cada um tem suas próprias debilidades, seus problemas, seus sintomas. Promover uma norma é errôneo porque sabemos que as normas são também uma forma da “moda”. Não há normas universais. Lacan disse que o discurso da psicanálise vai no sentido oposto ao discurso da moda.
Ir na contra mão não tem consequências para a psicanálise?
Este posicionamiento produz que a psicanálise, para existir, deva combater ataques muito agressivos do tipo político, epistêmico e administrativo, por exemplo, na França. Ganhamos a primeira batalha, mas a luta continua. O reverso não é o mesmo que o anverso da tela e a psicanálise assinala esta característica. O modelo universal responde às leis do mercado. Os laboratórios estão produzindo remédios e é preciso buscar as enfermidades para vender estes remédios, inventam-se categorias novas de classificação com fins de mercado. Estes manejos não podem assegurar a saúde mental da sociedade. Daí o incômodo da psicanálise.
Nos Estados Unidos, 10 por cento das crianças toma Ritalina.
É triste. As crianças são alimentadas com Ritalina para que tenham paz escolar e familiar, para colocá-los em frente da tela da TV, bem comportados. Isto produz efeitos que ainda não conhecemos bem. Quando estas crianças forem adultas terão atravessado uma drogadição. Mas não é tão fácil “normalizar” um ser falante. Freud disse que quando se expulsa o sintoma pela porta, ele volta pela janela. Se com Ritalina a criança dorme às oito da noite em lugar de duas da manhã, quando acordar continuará tendo os mesmos problemas.
Hoje existem crianças criadas em famílias distintas das que Lacan descreveu. Se Lacan outorga à figura do pai, uma importância vital, em uma família formada por duas mães, por exemplo, o desenvolvimento psíquico continua sendo o mesmo?
Não é uma dificuldade para a psicanálise porque desde seus primeiros escritos sobre o tema, Lacan explicou que cada família é um fato de cultura e que não tem nada a ver com uma natureza constituinte da família. O nome do Pai, precisamente, não está dado pelo pai biológico, mas é uma figura que funciona em cada caso, de maneira diferente. O nome do Pai é um semblante. Parece-me difícil entender que alguém possa dizer que há um laço natural entre a mãe e a criança ou entre o pai e a criança. Não tem sentido.
Zizek e Laclau reconhecem os aportes de Lacan na hora de repensar o marxismo. Inclusive, Badiou diz que Lacan é para o marxismo, o que Hegel era para os revolucionários de 1850.
Não li Laclau, mas meus colegas me falaram sobre sua obra. Lacan sempre ofereceu aportes ao marxismo, a partir das intervenções de Althusser e seus seguidores. Lacan leu a Marx e essa leitura lhe permitiu dar conta do plus de gozo. Sempre houve uma ida e volta entre a teoria marxista e a teoria psicanalítica. Lacan tem referências do início onde o peso da história e as organizações sociais são, sem dúvida, levadas em conta. O mestre antigo não é o mestre moderno e o mestre moderno tem diversas caras. Essas caras são históricas. Nossa tarefa hoje, e a dos marxistas também, é de dar conta da diferença entre o discurso do mestre capitalista que desenvolve a produção industrial e o capitalismo atual, que produz dinheiro a partir de dinheiro, um capitalismo financeiro. É diferente e é preciso ver as consequências dessas diferenças.
Zizek conjuga com Lacan com a troca social quando assinala que o desejo, que não tem lugar na realidade, pode ter uma tradução política quando se pensa em São Paulo e o fim da ressurreição, que não tem possibilidade real empírica, mas que se transforma em um impulso à ação.
Não sei se o desejo impulsiona ninguém a nada. Abrir um seminário de Lacan é como abrir um livro de Freud e o desejo do leitor está implicado em sua leitura. Penso que um analista lacaniano impulsiona a desejar. É verdade que para alcançar o desejo também é preciso atuar. Mas a psicanálise não é uma ideologia. A responsabilidade do próprio desejo de cada pessoa é o que a psicanálise permite, que se seja responsável pelos próprios sonhos.
Buenos Aires, além de ser uma cidade psicanalisada, é um centro de produção lacaniano. Na UBA, a Faculdade de Psicologia conta com uma maioria de programas que dão conta desta orientação. Como se vê, da França, este fenômeno?
Os psicanalistas franceses lacanianos sabem que há uma escola dessa orientação na Argentina. Trabalhamos com os colegas argentinos. Há uma interlocução entre os psicanalistas lacanianos e suas escolas, entre os psicanalistas franceses e os argentinos. Há um refrão em francês que se refere às carícias que se fazem a contrapelo, nos gatos. Não vou acariciar os colegas argentinos desse modo (“Não vá nos dourar a pílula”, assinala uma lacaniana argentina presente na entrevista). Os amigos argentinos sabem que a psicanálise neste país é muito mais acessível que na França e que eles o desenvolveram muito bem.
Anna Freud se considerava uma continuadora da obra de seu pai. A senhora contribui para o desenvolvimento do pensamento de seu pai. Pensou alguma vez neste paralelismo?
Quando pensei neste tema, que tem retornado muitas vezes na minha vida, pude chegar à conclusão de que foram duas experiências muito distintas. A obra de Anna Freud é uma das primeiras experiências da traição que conheci em minha vida. Traiu a obra de seu pai. Por isso, essa comparação não é tão desejável.
A senhora é a presidenta do Campo Freudiano. É a filha de Lacan e a esposa do discípulo mais relevante, Jacques Alain Miller. Como conjuga sua vida pessoal com o que seu pai e esposo e seu próprio trabalho significam no âmbito cultural e intelectual?
Começamos esta entrevista assinalando os limites entre o público e o privado e não creio que seja correto saltar essas barreiras.
Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes
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