sexta-feira, 18 de março de 2016

O discreto charme das massas

 O discreto charme das massas
por Marcelo Veras

Pensando nos dias turbulentos que atravessamos, lembrei-me dessa citação de Lacan em uma entrevista para o Magazine Litéraire:
“Quando eu escuto falar do homem da rua, [...] de fenômenos de massa e de coisas deste gênero, eu penso em todos os pacientes que eu vi passar sobre o divã em quarenta anos de escuta. Nenhum deles, em qualquer medida, era semelhante ao outro, nenhum tinha as mesmas fobias, angustias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não ser compreendido. O homem mediano, o que é isto? Eu, você, minha porteira, o presidente da República.”
     Parto dessa pergunta de Lacan para pensar o modo mesmo como Freud pensou os fenômenos de massa. Como se estrutura o laço social, se levarmos em conta os fenômenos de identificação e desidentificação? Duas referências clássicas nos auxiliam na resposta, o texto freudiano “A psicologia das massas” e o clássico de Ortega y Gasset “A revolução das massas.”
      A noção de territorialidade, utilizada com frequência nos textos de Saúde Mental, foi tomada da biologia e da geografia (onde se encontra a geopolítica, como estudo da distribuição do poder em um território). O laço social é sempre um problema de território, ele é o espaço onde se efetuam as trocas sociais. Contudo, é preciso abrir um espaço para outra vertente, onde a vida individual como independência do sujeito possa ser preservada.
      Na primeira vertente podemos dizer que o sujeito, ao ter acesso às atividades da cidadania e aos ideais aspirados pelo coletivo, está enlaçado na trama social. Esse laço é guiado por ideais que encontram sua plenitude no “bem estar biopsicossocial”, ideal maior do relatório da OMS sobre a Saúde Mental no mundo de 2001.
      Porém, ao tomarmos a perspectiva de uma clínica que contemple a singularidade do gozo e da solução sintomática, percebemos que o laço social não é tecido pelos ideais.

A fragilidade do laço e o homem de massa
      De que modo podemos interrogar a coletividade no mundo contemporâneo? Essa interrogação parte do fato de que os discursos vigentes não garantem necessariamente a adesão do sujeito ao laço social. Como resultado, temos cada vez mais a formação de comunidades de identificações débeis, que se mantém apenas por identificações imaginárias. Trata-se de uma debilidade em tomar a palavra a partir de um discurso estabelecido, permanecendo, desse modo, fragilmente conectado ao Outro.
      Com os movimentos de rua atuais, percebemos que as novas formas de constituição do laço social não seguem o modelo de identificação ao líder, proposto no famoso capítulo VII do texto Psicologia das massas. Freud, quando pensou sua teoria da identificação, o fez em torno da figura do líder, que é inspirado na própria imago paterna. O problema atual é que a identificação ao líder implica em uma renúncia de gozo. Nesse sentido, a ascensão do hedonismo, impulsionada pela miragem capitalista do consumo, faz com que o sujeito dispense os grandes significantes que possam representá-lo para o Outro social.
     Ou seja, o sujeito contemporâneo não busca os ideais, goza diretamente do objeto. Passamos dos grandes símbolos às grandes marcas das vitrines. Ao colocar o sujeito diretamente conectado com seu modo de gozar, o discurso capitalista se torna um obstáculo ao laço social
      O momento em que vivemos não implica, contudo, uma anulação do modelo freudiano de associação em grupos. É possível constatar que a multiplicação de estilos de vida e o empobrecimento dos valores universais continuam sendo coerentes com a teoria freudiana da identificação. A diferença é que a falência das grandes instituições modelizadas por Freud - a saber, a igreja e o exército, tradicionais bastiões da ordem pública - abriu espaço, na deserção dos referenciais simbólicos que se seguiu, para a identificação ao semelhante e não mais ao líder (1). Trata-se de uma massa ainda mais amorfa do que a massa configurada pela identificação ao líder.
        A partir dessa constatação, podemos cotejar a teoria da identificação freudiana com a crítica que faz o Ortega y Gasset sobre o homem de massa. Para ele, a questão da psicologia das massas é pensada sob a ótica da segregação. Sua obra mais importante, A rebelião das massas, prenunciou que o mundo, tomado pela técnica, forjaria as bases para a criação do homem mediano, no qual cresceria o horror ao anormal e à exceção. No pensamento de Ortega y Gasset, a massa é passiva, sem vontade nem critérios, o que leva à negação de duas das principais condições da democracia: a autonomia intelectual e a participação. Psicologicamente, o homem de massa é satisfeito e em plena sintonia com a homogeneidade e a indistinção social. Ele não tem nenhum projeto que lhe seja próprio e não faz nenhum esforço para uma realização pessoal, consumindo e gozando das mesmas coisas que os outros. Tudo que se afasta desse platô monótono da normalidade é percebido com desconfiança e facilmente se converte em alvo de segregação.
     A massa conduz, inexoravelmente, ao apagamento da inquietude criativa. A rebelião das massas, sobretudo quando pensamos que ela foi escrita antes dos extermínios da segunda guerra, traz um importante alerta para os riscos da segregação e eliminação da anormalidade: “aquele que não é como todo mundo, que não pensa como todo mundo corre o risco de ser eliminado”.
      Na obra de Ortega Y Gasset o protótipo do homem de massa seria, precisamente, o homem que só acredita no que é cientificamente normal, aquele que é definido e instituído pelas normas e cifras, distante de tudo que é exceção e extravagância. Homem “transformado em novo bárbaro (ironicamente) pela ciência", diz ele em seu texto. Esse homem é construído através de cifras e medidas que são ligadas fundamentalmente, as suas características e evidências. O que se perde nessa manobra é precisamente o pequeno detalhe que faz a singularidade onde se aloja o sintoma. Avesso da evidência, o inconsciente é justamente o que engana. Ele é verdade mentirosa ou mentira verdadeira. Somente podemos falar em psicanálise quando nos separamos desse homem esquartejado em números.
     É por isso que o momento é mais do que oportuno para revisitar o texto sobre a Psicologia das massas. Quando Freud o escreveu, já com os ventos do nazismo que dizimaria sua família remanescente na Áustria, ele o fez não como um profeta dos eventos futuros, mas a partir dos elementos lógicos que pode extrair de sua clínica e, sem dúvidas, das marcas deixadas em sua própria história pela segregação.
      A lição 1 que aprendemos com o texto psicologia das massas é que para se odiar, segregar e mesmo matar em grande escala é preciso reduzir o outro a um traço. Daí os riscos que toda polarização descambe para o ódio insensato. O traço distintivo, qualquer que seja ele, é o modo como a massa apaga a complexa subjetividade de seu interlocutor, calando nele os labirintos e equívocos da trama de sentidos, para reduzi-lo à algo sem sentido, um simples portador de uma marca indelével a- dialético, para evocar o objeto lacaniano.
      A lição 2 é que mais nos aproximamos da certeza absoluta, ou seja, aquela que não vacila com os argumentos, mais nos aproximamos de uma experiência de gozo. Ao colocar a trama do pensamento entre parênteses, Lacan separa o que é da ordem da certeza das chicanas da linguagem. Ou seja, tudo é provisório, a única certeza que me garante é que gozo. É uma boa direção para a clínica das psicoses, se há certeza irrefutável é porque aquela ideia não desliza na cadeia significante, ela está congelada como parte delirante do ser do sujeito.
E que lições nos falta aprender?
      O mundo de Freud não era o mundo das mídias sociais ou da mídia televisa funcionando como outro absoluto. Meu interesse é tentar entender como esse novos instrumentos afetaram o modo como cada um se relaciona com o gozo e com o supereu. Rapidamente percebemos que o Facebook não é mais um instrumento de comunicação, ele é um instrumento de adição. O que faz com que pessoas fiquem conectadas 24 horas por dia não é a sede de saber e se manter informado, é o trabalho acéfalo e incansável da pulsão transformando os internautas em uma sociedade de adictos. É por aí que entra a vertente obscena do Supereu. Os psicanalistas já estão bastante cientes de que o Supereu freudiano não é como o Supereu de nossos dias. Em Freud ele torturava o sujeito privando-o do gozo, enquanto o sujeito contemporâneo é torturado por um Supereu que diz sempre que ele não gozou o suficiente.
     O que antes parecia uma possibilidade de expressão tornou-se paulatinamente, e os últimos dias demonstram isso exemplarmente, um local onde o Facebooker se culpa por não ter gozado suficiente, ou da maneira correta. Ele não precisa mais das exigências da massa, se não postar algo ou reagir imediatamente ele mesmo se sente culpado por não participar do banquete identificatório.
      Não creio que a função da psicanálise seja separar o homem de suas causas, mas sem dúvidas devemos trabalhar pela desidentificação. O charme das massas vem justamente dessa possibilidade que ela fornece ao sujeito de liberar seus pensamentos os mais ferozes com relação ao outro sem passar pela experiência da culpabilidade. Estar na massa alivia todo sujeito do peso do supereu, não é por acaso que toda manifestação de massa, por mais severa e dramática que seja o motivo, sempre acaba em uma celebração com aspectos dionisíacos. O que a festa não mostra é que o banquete em questão é sempre um desencontro, tal como os protagonistas que nunca conseguem se reunir para o jantar no filme de Buñuel que inspirou o título desse texto.
1 - Laurent, E., Politique de l´unaire

quinta-feira, 10 de março de 2016


Olá, leitores!

      O CEPP tem imenso orgulho em lhes apresentar nossa programação para o primeiro semestre de 2016! 
      Sintam-se convidados e transferidos para continuarmos a trabalhar com a psicanálise em nosso estado!

Pra quem não nos conhece, convém nos apresentar. Somos...


CÍRCULO de ESTUDO PSICANALÍTICO do PIAUÍ - CEPP
O Círculo de Estudo Psicanalítico do Piauí - CEPP é uma associação psicanalítica que trabalha a psicanálise no Estado do Piauí.

 CEPP vem se movimentando em Teresina, propondo um trabalho que gire em torno do um a um; colocando em movimento transferências, desejos, sujeitos, percorrendo um caminho que possa garantir um lugar à psicanálise, apostando num diálogo da mesma como transmissão e prática a todos que se sentirem transferidos com ela, inscrevendo sua marca de responsabilização por um movimento psicanalítico cujo objetivo é a psicanálise e sua finalidade a transmissão de seu saber.



PROGRAMAÇÃO 2016
Primeiro semestre

ESTRANHAMENTO NO CORPO


SEMINÁRIOS ABERTOS AO PÚBLICO


SEMINÁRIO
PALESTRANTE
DATAS/horários
OS DESATINOS DO GOZO FEMININO
Carlange de Castro
27/04; 25/05; 22/06 (quarta-feira às 19 h)
O CORPO DO ADOLESCENTE
Deusamar Mendes
29/06 (quarta-feira às 19 h)
AS MARCAS NO CORPO: o fenômeno das tatuagens na atualidade.
Juliana Soares
20/04; 18/05; 15/06 (quarta-feira às 19 h 30 min)
ES-CULTURAS DE CORPOS FEMININOS, qual a minha estranha modelagem?
Lídia Pessoa
06/04 ;04/05; 01;06 (quarta-feira às 19 h)
A VIRILIDADE EM QUESTÃO NA SEXUALIDADE MASCULINA NA CONTEMPORANEIDADE
Luciana Rebelo
13/04; 11/05; 08/06 (quarta-feira às 19 h)
O OLHAR DA PSICANALISE SOBRE A TOXICOMANIA
Thádia Eulálio
19/03; 16/04; 25/05; 04/06 (sábado às 10 h)


Formação permanente

1. Atividade restrita aos membros e aderentes

Tema: O corpo falante
Periodicidade: As quartas feiras e sábados
Início: as quartas feiras 16/03 e 30/03 às 19H
Aos sábados ( 09/04, 23/04, 07/05, 21/05, 04/06, 18/06)

2. Círculo de leitura (aberto ao publico/ gratuito)

Tema: Conceitos fundamentais em Freud
Coordenação – Luciano Alemonte
Quinzenal as terças feiras às 19H
Início – 15/março (29/03, 12/04, 26/04, 10/05, 24/05, 07/06, 21/06)

CEPP e interlocuções.

1.Universidade federal do Piauí/Programa de Pós-graduação em Antropologia

MESA:  Corpos em debate: a pluralidade de experiências  no século XXI
Eulaliany Kelly Paiva de Moraes (Mestranda em Antropologia-PPGANT-UFPI/Psicóloga da Prefeitura de Teresina)
(coordenadora)
Augusto Dantas Júnior (Mestre em Antropologia - PPGANT-UFPI/Prefeitura Municipal de Teresina)
(participante)
Joana Campos Rocha (Mestre em Antropologia pelo PPGANT-UFPI/Universidade Estadual do Piauí-S.R.Nonato)
(participante)
John Wedson (Mestre em Antropologia pelo PPGANT-UFPI/ Conselho de Psicologia)
(participante)
Poliana Maton (Mestre em Antropologia pelo PPGANT-UFPI/
Maria Lídia M. de N. Pessoa (Universidade Federal do Piauí – PPGANT)
(participante)

 O objetivo central da mesa Corpos em debate: a pluralidade de experiências no século XXI, é propor uma reflexão sobre o corpo, a partir de estudos realizados por pesquisadores no PPGANT. Pretendemos pensar o corpo na desconstrução de concepções essencialistas e naturalizadas, focando a sua dimensão simbólica e social. Na sociedade contemporânea os corpos são múltiplos a partir de diferentes experiências dos sujeitos: as novas vivências religiosas de curas, o body modification, o body building, a exposição nas redes sociais, as práticas esportivas, as manifestações urbanas, os transgêneros, o consumo da moda, a violência, dentre outros. São acontecimentos que produzem inscrições nos corpos e experiências que fazem deste um amplo objeto de análise. Qual a contribuição da antropologia e da psicanálise na abordagem dos corpos?  O diálogo entre as diversas perspectivas tem como objetivo aprofundar as concepções e as pesquisas sobre a temática.

2. Escola Municipal Parque Piauí

Palestra: TDH e Hiperatividade na visão da psicanálise –  Deusamar Mendes Leal 


DESEJO A TODOS UM BOM TRABALHO! 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015




Comunicamos que o CEPP entra em recesso e volta suas atividades em janeiro, internas; e em fevereiro, externas. Em breve a programação 2016. Desejamos a todos um natal harmonioso!  


  








sábado, 3 de outubro de 2015

O que é o corpo para a psicanálise?



PALESTRA:O QUE É O CORPO PARA A PSICANÁLISE?
PALESTRANTE: ONDINA MACHADO, Psicanalista, Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção RIO de JANEIRO.
DATA: 06.11.2015
HORÁRIO:18:30 h
LOCAL: Auditório da faculdade Facid-Devry
Entrada Gratuita

CURSO: OS MAUS-ENTENDIDOS DO CORPO
PALESTRANTE: ONDINA MACHADO, Psicanalista, Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção RIO de JANEIRO.
DATA:07.11.2015.
HORÁRIOS: Manhã: 08:00 às 12:00h Tarde: 15:00 às 18:00h
Local: CEPP - Av. Dom Severino,  1024, sala 06, Bairro de Fátima.

Vagas limitadas.

 Até o dia 16/10/2015                              
Membros e Aderentes: r$170,00           
Profissionais e Estudantes: r$120,00 

 Após o dia 16/10/2015
Membros e Aderentes: r$ 220,00
Profissionais e Estudantes: r$ 170,00 

FORMAS DE PAGAMENTOS: Depósito bancário direto no caixa
Banco do Brasil
Agência:
4708-2      Conta Corrente: 7.671-6
Em nome de:
Maria Lídia M. Noronha Pessoa
ATENÇÃO: Enviar ficha de inscrição junto com fotocópia do comprovante de depósito para o e-mail: cepp.teresina@gmail.com
Serão aceitas somente inscrições com depósito bancário direto no caixa e concluída com o envio para o e-mail do CEPP, constando ficha de inscrição e comprovante de pagamento.
 

FICHA DE INSCRIÇÃO: 

OS MAUS-ENTENDIDOS DO CORPO

Nome completo: _______________________________
Endereço:____________________________________
CEP: ___________Cidade: _____________UF_____ 
Telefones:_______________celular:______________
E-mail:_________________________________________
Profissão:_____________________________________
Categoria:
( ) Membros e Aderentes 
( ) Profissionais e Estudantes
 






sábado, 26 de setembro de 2015

A face odiosa do bullying escolar

Uma família para todos…, a crônica de Hélène Bonnaud
 
O lançamento do livro de Nora Fraisse (1) que conta, num texto emocionante, a maneira pela qual sua filha Marion de 13 anos resolveu suicidar-se depois de ter sofrido perseguições dos colegas de escola, interpelou de novo a mídia e os políticos a respeito do bullying escolar. O que esse fenômeno do bullying evoca para nós?
 
Ser vítima da maldade
 
Sempre houve bodes expiatórios, crianças vítimas da maldade de alguns alunos e que sofriam em silêncio por repetidas humilhações. Essas condutas sempre existiram no mundo escolar onde, mais que em outro lugar, se verifica a violência entre pares, fundamentada no gozo de humilhar, de insultar, espezinhar aquele que se toma como vítima. E quem é psicanalista sabe qual o impacto que isso tem para o futuro desses sujeitos que, no decorrer da sua análise, testemunham os momentos em que se tornaram vítima de uns, alvo de troça de outros, o corpo sendo frequentemente o objetivo destes escárnios, destas humilhações. De fato, qualquer diferença, qualquer sinal de particularidade no corpo pode assumir um valor negativo e, de repente, se transformar num insulto ou numa humilhação (o gordo, o ruivo, o baixinho, o crespo, etc.)
 
Perseguição
 
Hoje, parece que esse fenômeno tomou uma outra extensão, atingindo não somente os atributos do corpo, mas também a degradação do sujeito. Os insultos não querem somente rebaixar o sujeito pelo corpo que ele tem, mas buscam aniquilar o sujeito enquanto ser. Eles não atingem mais um defeito do corpo, mas o capturam pelo que constitui o real de cada um, o sexo, a origem, a morte.
 
Nesse contexto, o significante vítima só pode se ligar ao significante perseguição. De fato, quando num grupo surgem esses comportamentos que consistem em tocar o ser de um sujeito, rebaixando-o, insultando-o, degradando-o, temos aqui o que chamamos de perseguição. Wikipédia dá esta definição: “Uma perseguição é um tipo de opressão que consiste em aplicar a uma pessoa ou a um grupo de pessoas medidas ou tratamentos injustos, violentos ou cruéis, por razões de ordem ideológicas, políticas, religiosas ou ainda raciais”. É preciso acrescentar razões da ordem do ódio. Realmente, o ódio puro não precisa se apoiar sobre uma diferença estabelecida. Ela tem o seu fundamento no desejo de morte.

O ódio toca o ser. Ele quer destruir. Ele quer matar. É a terrível mensagem que deixa Marion em sua carta. Ela diz isso claramente e sua mãe retoma: “as palavras matam”.
 
A psicanálise diz a mesma coisa. Ela tem um saber sobre o poder das palavras, o poder de destruição das palavras. Ela ensina que tudo o que se diz que toca o ser de um sujeito – criança ou adulto – que busca aniquilá-lo, pode levar a graves danos e até mesmo levá-lo ao pior.
 
Lacan falava do “ódio sólido” (2). Há no assédio alguma coisa que coloca em jogo esse ódio sólido, que se dirige ao ser. Resta saber como prevenir esse fluxo de gozo que busca atingir o objeto a daquele que sofre o assédio. Atingir o objeto a de um sujeito, este é o objetivo do ódio, reduzi-lo a um dejeto, a um puro objeto de rejeição.
 
O ciberassédio não tem hora
 
         Hoje o assédio escolar não se limita mais ao pátio do recreio, ele acontece igualmente nas redes sociais. O assédio consiste em fazer circular imagens da vítima, em comentá-las e também a insultá-la, a humilhá-la, fazer chacota dela compartilhando com outros via facebook ou outras redes. Isso faz aumentar os rumores, provocando uma onda de riso que, como um eco, se dilata no pequeno mundo dos adolescentes. Isso amplifica também o impacto psicológico para aquele que o sofre. Não há então corte entre a casa e a escola, não há mais proteção relacionada aos lugares, não há mais descanso. O assédio está em toda parte, passa através de todos as proteções de antigamente. É a razão pela qual a palavra assédio é a mais apropriada para significar esse fenômeno. Ele constitui assim uma espécie de armadilha que funciona sozinha, verdadeiro flagelo de um ódio ordinário, de uma mensagem idiota que Marion, como podemos ler no livro de sua mãe, recebeu na véspera da sua morte, por SMS: “Vai te enforcar, será uma pessoa a menos amanhã!”
 
Responsabilidades
 
Podemos portanto nos preocupar com a fragilidade de alguns adolescentes que “não entram no jogo” da vítima e do carrasco. O trote dos calouros, outra fórmula que coloca em cena o carrasco e sua vítima, como modo de acolher nesses lugares fechados que são as universidades, é proibido desde 1998 e sua função de “rito de passagem” é muito diferente daquilo que encontramos no assédio escolar. Preocupar-se com uma certa fragilidade na adolescência seria uma denegação do que é ser um adolescente!
 
Existem hoje leis que protegem os adultos do assédio no trabalho ou na esfera privada do casal, reconhecendo seu poder de destruição. Porque não nos espaços escolares? A resposta a essa pergunta está no jornal Le Monde: “O problema do ciberassédio é que ele não depende realmente do Ministério da Educação. É uma problemática que se situa entre as aéreas privada e pública. Os alunos não deveriam ter smartfones dentro da escola” (3), destaca Justine Atlan, diretora da Associação e-Enfance. CQD.
 
         Infelizmente, o livro de Nora Fraisse mostra a que ponto a responsabilidade e o apoio do Ministério da Educação não se fizeram presentes no caso de sua família que queria saber porque Marion tinha chegado a atuar o empuxo-à-morte do qual ele era vítima. Trata-se aqui, no entanto, de um traço de ódio no cotidiano, ódio que ficou em silêncio por aqueles que conviviam com ela, como se, de fato, aquele que sofre esse ódio deveria conhecer a sua causa e se virar com ele.
 
         O que matou Marion, foi esse silêncio dos adultos sobre o assédio, silencio que hoje sua mãe denuncia.
 
1 : Fraisse N., Marion, 13 ans pour toujours, Paris, Calmann-Lévy, 2015.
2 : Lacan J., Le Séminaire, livre XX, Encore, Paris, Seuil, 1975, p. 91.