quarta-feira, 4 de março de 2009

Considerações sobre a Anorexia

Thaïs Moraes Correia
Psicanalista, Aderente da Delegação Geral do Maranhão e Escola Brasileira de Psicanálise-EBP

A primeira questão que os médicos costumam se fazer diante da anorexia é a ausência de “sintomas”. Há uma perda de peso auto-induzida por restrição alimentar que acontece de forma insidiosa sem a presença de febre, dor ou qualquer fraqueza.

Esses casos servem bem para pensarmos a diferença ente sintoma médico (que faz alarde, anuncia que algo não vai bem) do sintoma para a Psicanálise — insidioso e cifrado por entre as palavras: serve como ponto de significação.

Na medicina não há até o momento uma teoria etiológica da anorexia nervosa. Na teoria psicanalítica, especialmente nos idos 40 e 50 tinha-se uma visão de que a anorexia enquanto histeria de conversão simbolizava o repúdio à sexualidade. Alguns psicanalistas falavam em fantasias de gravidez oral.

Com Lacan podemos compreender a anorexia de outra forma. Nesses casos há uma demanda muda, silenciosa que deve ser acolhida. A paciente mantém uma relação anormal com a comida, sabe que arrisca sua vida, mas mantém esse saber fora da dimensão discursiva. Isto porque na anorexia há uma recusa dos deslizamentos significantes como se o desejo estivesse fragmentado pela fala — daí a deslibidinização que geralmente surge na adolescência quando emerge o enigma da sexualidade.

No caso da anorexia, o que se passa no corpo, não passa pelo discurso. O fato da pessoa ser escravo do não-comer também a leva a outra escravidão: do não-dizer. Há então uma fixação auto-erótica, o refúgio do sujeito num gozo suplementar.

É necessário uma intervenção — para que o sujeito pare de gozar. Cuspir significantes faz o sujeito trocar um gozo mudo por palavras. E de que a anoréxica goza? Exatamente de não comer nada, do (re)encontro com o nada.

Tanto nas toxicomanias como no FPS e nos transtornos alimentares há um gozo suplementar equivalente à pulsão da morte como se a dimensão do desejo estivesse esvaziada.

Numa análise, na vertente do amor de transferência, o sujeito pode encontrar o desejo que vai lhe permitir recusar o gozo excessivo.

“A anoréxica insiste no seu gozo comendo nada. O sintoma anoréxico, mais do que todo sintoma, contém um gozo que denuncia um apetite de inércia e morte. Assim, a demanda da anoréxica é muda, pois o Outro materno a esmagou pela engorda, empanturrando-a. De boca cheia, não se fala”.

Há uma fixação oral pela via do sujeito anoréxico? Fixação é um sujeito agarrado a um modo de gozo, quando ele deveria ultrapassa-lo, substituir por um outro modo de gozo. Uma análise vai provocar mudança inclusive na complexidade das pulsões: de mais de gozar a objeto causa de desejo.

Na anorexia há um horror desse corpo magérrimo que é provocado no outro.

As mães das anoréxicas são totalizantes e o que a anoréxica faz é “esburacar” a mãe nas palavras de Sara Fux.

Qual é a possibilidade de análise ai no caso dos sujeitos anoréxicos?

Uma paciente me procurou — estava com 36 quilos e só se alimentava de caldo de peixe e farelos de pão. Mostrava-se sem interesse inclusive de retornar ao consultório. Não se queixava, nem demandava nada a mim que como terapeuta lhe dava conforto e conselhos. Eu lhe dava alimento, enquanto o que ela queria era “nada”.Caberia mais ai uma psicanálise, pois é “o vazio da boca de um analista que a anoréxica, mais que ninguém, sabe que melhor satisfaz do que qualquer alimento”, nos diz Eliane Schermann.

A anorexia denuncia a questão da feminidade nos dias atuais. Se por um lado, as mulheres têm direitos ampliados por todas as esferas do social, há um massacre que aponta para um ideal de eu encarnado por esqueléticas top models.

Esse então é um drama moderno?

Nem tanto assim.

Vejamos o que acontece na Bulimia. Esse termo foi usado pela primeira vez em 1482 — como “aspiração de devorar” — e que como a anorexia, tornou-se um sintoma da moda. Preferimos chamá-las de sintoma social. Mosel, assim define :

«Por sintoma social se designa um problema comum a uma série de indivíduos em um dado momento da história, identificável como tal, mas enigmático quanto às suas causas e que represente um perigo ou um custo importante para a sociedade».

A bulimia se torna nos ano 70 um sintoma da moda, considerando inicialmente, como epidêmico, de início associado à anorexia, depois distinguido desta.

Pensando nesses sintomas é necessário falarmos do gozo aí implicado.



Na psicanálise, entende-se gozo, aquilo que não serve para nada. “Trata-se do nada que o anoréxico come, que o obsessivo coleciona e o histérico demanda — nos diz Christian Dunker.

É o nada que inclusive orienta a ação do analista: “pois se o amor é dar o que não se tem é bem certo que o sujeito possa esperar que se lhe dê, posto que um psicanalista não tem outra coisa que dar-lhe. Mas inclusive esse nada, ele não o dá, e mais vale assim: e por esse nada se lhe pagam”.

— Podemos então dizer que a forma como o sujeito lida com o nada, é a forma como ele produz seu sintoma.

O falo aponta para a falta enquanto que o objeto-mais-de-gozar nos aponta para o nada. Apesar de ambos abordarem a negatividade estão em oposição.

— Como uma análise caminha no sentido de fortalecer o recalque, haverá um esvaziamento de gozo que condicionará uma dessubjetivação — falta-a-ser — oposta então a nadificação que anoréxica usa como emblema de sua vida.

domingo, 1 de março de 2009

O QUE É UM CARTEL?

O cartel é uma invenção de Lacan que visa manter na Escola um trabalho permanente de investigação em relação à psicanálise. Esse dispositivo adota como princípio a elaboração apoiada em um pequeno grupo, cria, porém, por sua estrutura e funcionamento, mecanismos que possam conter os efeitos grupais.

- Leia o texto completo no site EBP

Cartel On-line: Uma experiência virtual

Texto escrito por:
Sandra Conrado (+1) – PB
Carlange de Castro – PI
Marlos Ribeiro – PI
Yara Valione - SP


Nosso Cartel foi formado para discutir o seminário “Relação de Objeto” de Jacques Lacan e teve seu inicio em meados de julho deste ano.

Fazem parte desse Cartel: Carlange de Castro e Marlos Ribeiro de Teresina-PI, Yara Valione de São Paulo-SP e Sandra Conrado (+1) de João Pessoa-PB. No primeiro encontro tivemos conosco Rodolfo Melo de João Pessoa-PB, que deixou o cartel logo em seguida.

O que temos a dizer hoje nessa III Jornada de Cartéis da delegação Paraíba não está ainda dirigido a uma produção teórica de nosso estudo, visto o pouco tempo de discussões do tema, mas dizer da importância de dividir com vocês, uma experiência muito incomum: a de não estamos diante do corpo do colega para discutir os textos, mas diante de uma tela de computador. Os colegas estão cada um em suas casas, frente a seus computadores, com seus livros e anotações de lado.

Esta situação, de inicio pareceu incomodar. Falamos sem muita reflexão dessa estranheza, riamos, parecia a nós muito esquisito essa forma de trabalhar. Onde estaria a expressão facial, o olhar, os movimentos e os trejeitos dos corpos dos colegas?. Como imaginar as feições de Marlos, Carlange, Yara e Sandra? Como trabalhar sem a presentificação do corpo? O que iria nos garantir como imagem? Essas reflexões ficaram a principio nas entrelinhas. Ao que parecia, surgia o receio de tocar no assunto e de repente a coisa desandar, já que estávamos diante não da estranheza do que se vê pelo semblante do outro, mas do que não se olha, daquilo que nos é tão essencial no campo do imaginário. A expressão que mais manifestava-se no inicio dessa proeza, era:: “não estamos no corpo-a-corpo”, numa conotação que traduzia, seria possível fazer essa ausência funcionar? Garantimos a vocês que realmente foi necessário inventar uma forma de acontecer.

Agora, depois de quatro meses, paramos para falar disso e aqui estamos para relatar a nossa experiência particular de se estar num Cartel que funciona de forma virtual, tomando aqui, virtual em seu significado, ou seja, como o que está pré-determinado e contém todas as condições essenciais à sua realização, segundo o dicionário do Aurélio.

O cartel, assim como toda prática da psicanálise, é algo que foge ao que se chama de comum, seu funcionamento não tem nada de ordinário à prática de um grupo e o seu laço não é constituído em torno de um líder, mas de um tema que interessa aos que se juntam. Pensar e experimentar um cartel on-line são muito mais complexos que tudo isso. Embora a vida internauta seja uma prática do cotidiano globalizado, tivemos no inicio desse cartel uma dificuldade a mais. O que teríamos que fazer frente a um exercício que pede o corpo, ali onde ele não aparece? O universo da psicanálise circula através da fala e, se aproveitando da tecnologia moderna que isola e distancia o encontro do corpo do outros, estamos paradoxalmente no caminho de vencer o desafio de reunir pessoas de diferentes estados, em tempo real, em prol da causa analítica e, mais particularmente, da causa em que, cada um, nela se insere.
Penso ter sido por esse motivo, o fato de termos dado nosso primeiro passo, sem deixar de levar em conta a nossa estranheza.

Houve uma proposta de skape, mas ela foi logo abortada e só agora podemos entender o por quê. Com o skape havia a possibilidade da fala, mas a imagem continuaria ausente. O que adiantaria para nós uma fala sem corpo?

À medida que fomos nos encontrando no msn, foi-se estabelecendo um trabalho de transferência ao tema na tentativa de sair da dificuldade de querer dizer sem a expressão facial e o tom da voz. Dizer sem o tom exigia e exige ainda de nós algo a mais. Estamos assim, cada um no seu ritmo, mas sempre articulando as nossas questões ao que se extrai do texto. Nossa mudez, ganha um lugar especial e nos demos conta de que a escrita poderia fazer em nós o laço, o nó que amarra o furo da ausência do corpo.

Fizemos dessa escrita o nosso corpo, tudo que se diz nesse cartel tem que passar pelo punho, e se podermos enfatizar aqui para vocês, haja punho!!!

Pois bem, na ausência do corpo, inventamos outro corpo: a escrita.

O corpo parecia ir tomando outra forma, fazendo assim, dessa ausência, um lugar de transferência ao trabalho que não esbarra só no tema, mas ao esforço de dizer com a escrita. Parecia que ler os textos, escrever suas observações na tela, se interrogar, ia ganhando algo que se cede para além do corpo, algo que se cede para o Outro. Aquela transferência, tão conhecida nossa, que faz passagem para outra cena, onde se constitui um suposto saber, parecia na tela ilustrar, na escrita, o desejo de saber.

Ora, sabemos a partir de Lacan, no seminário 20, que o corpo é o lugar do Outro e no seminário 23 que a escrita assume um caráter estrutural, naquilo que marca o surgimento do sujeito que, pela diferença, pode, na sua singularidade, se contar, inventando o significante do que está ali para ser lido.

Penso que a partir disso podemos saber que o corpo poderia ir além do imaginário, ou seja, a partir disso podemos perder nossas imagens e buscar a cada letra escrita o encontro com o real de se está num cartel virtual, num cartel on-line, num tempo real onde também acontece o inesperado: “Marlos saiu da conversa” –”Marlos esta na conversa” e de repente, escreve: “gente perdi o que a gente tava dizendo, dá para voltar ai?”, “faltou energia”, “ O PC travou”, etc, etc, etc.

Quando Lacan aborda o nó borromeano no seminário 23, nos fala que nesse nó há um lapso, uma falha, mostrando que diante disso é possível a construção de um quarto elemento que funcionaria como ponto de amarração. A esse ponto de amarração Lacan nomeia de Sinthome. Se a Joyce foi possível uma escrita como ponto de amarração frente à falha do Nome-do-Pai, a nós a escrita nos serve como amarração da presença do Outro que tira de cada um a propriedade do corpo, mas introduz o laço que faz em nós a amarração no desejo de saber. Essa tem sido a nossa invenção, a nossa metáfora, o nosso “esforço de poesia”.

Lacan, ao tomar Joyce teve a cautela de fazer ver que não se tratava da aplicação da psicanálise à arte, função que Lacan sempre se desobrigou, mas o contrário, da aplicação da arte à psicanálise, uma vez que o artista sempre precede o psicanalista e lhe abre os caminhos.(1)

A cada encontro nossa colega de São Paulo, a mais distante de todas, nos envia um relatório. Essa iniciativa foi por sua própria conta! Quando menos esperamos, um belo dia estava lá, nas nossas caixas de e-mails, já desde a nossa primeira discussão teórica, surpreendentemente, um relato do que tinha acontecido no nosso primeiro encontro. Esse relatório, até hoje mantido, é elaborado em forma de conversa, como uma ata, como um ato que presentifica ali um corpo, um trabalho, um efeito, um desejo de fazer algo acontecer. Aquele que foi nomeado de + 1, naquele momento, não pode deixar de perceber a todos o quanto isso anima um cartel e discutimos, na perspectiva lacaniana, quanto o + 1 pode girar, ou seja, que esta função não está colada numa das pessoas que se junta a outras, mas na função que qualquer um ocupa dentro do cartel, quando zela pelo trabalho, não importando em que condições materiais e ideais este cartel esteja funcionando.

Uma das maiores provas desse funcionamento é o desfio de levar a cada letra escrita o desejo de diminuir a distância geográfica a aproximar o trabalho que temos pela frente, sem perder de vista “o vivo do sujeito”, nem se limitar, simplesmente, aos dogmas da tecnologia.
Segundo Cláudio Cardoso Paiva, professor do departamento de comunicação da UFPB, se referindo ao virtual, nos diz: “Estas contribuições têm instigado trabalhos férteis que procuram se orientar metodologicamente nos domínios de uma ”antropologia” da informação e da comunicacão´. Contudo, é o entusiasmo das gerações mais recentes, que utilizam os computadores e a Internet de modo criativo, realizando pesquisas conseqüentes, que nos estimulam a considerarmos pertinente a recepção destas novas tecnologias”.

É no entusiasmo de nossa geração e no espírito do tempo, no qual o psicanalista não arreda seu desejo de sustentar a psicanálise no mundo, que estamos frente ao novo e à disponibilidade de inventar e manejjar o que não cessa de não se inscrever.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

III COLÓQUIO: PSICANÁLISE e SINTOMA




Palestrante: Iordan Gurgel
(psiquiatra; analista membro da Escola Brasileira de Psicanálise e Associação Mundial de Psicanálise - AMP; presidente da Escola Brasileira de Psicanálise)

Data:
20/03/09 19h
Palestra: Psicanálise e Universidade
(atividade isenta de pagamento)

21/03/09 9h às 12h e 15h às 18h
Seminário: Psicanálise e Sintoma
(Profissional R$: 60,00 / Estudante R$:30,00)

Local: Auditório CCHL / UFPI
Inscrições: Coordenação de Ciência Sociais (CCHL / UFPI)
Contato: (86) 9987-5009 / 9921-3857

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O sintoma e o objeto real da libido

Sérgio Laia
Psicanalista; Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor titular da Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura); Mestre em Filosofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
laia.bhe@terra.com.br


Em “A terapia analítica”, a última das Conferências introdutórias sobre a psicanálise, Freud afirma:

Um neurótico é incapaz de aproveitar a vida e de ser eficiente – incapaz de aproveitar a vida porque sua libido não é dirigida a nenhum objeto real, e incapaz de ser eficiente porque é obrigado a dispensar uma grande quantidade de sua valiosa energia para manter sua libido reprimida e para repelir seus sobressaltos (Freud, 1917, p. 529).

Segundo Freud, a libido do neurótico não está relacionada com nenhum objeto real devido a seu conflito com o eu desse sujeito, porque o eu não tem mais essa energia sexual a sua disposição. Sabemos que alguns analistas pós-freudianos preferiram transformar o tratamento analítico em uma reeducação para a realidade, em um fortalecimento do eu, quando suas experiências clínicas os fizeram se confrontar com o distanciamento e o conflito entre a libido e o eu, com esse distanciamento do objeto real na economia libidinal do neurótico. De minha parte, e graças ao ensino de Lacan, me pergunto se não poderíamos ler, nessa menção freudiana ao “objeto real da libido”, um vestígio antecipado do “objeto a” e, nesse viés, o tratamento analítico não poderá ser confundido com uma adaptação educativa à realidade. Ele é, como nos formulou Jacques-Alain Miller (1998), um trabalho de redução que permitirá ao sujeito localizar seus envolvimentos com o “objeto real da libido” que – também de um modo muito lacaniano – Freud diferencia dos “objetos irreais da libido” (1917, p. 530) investidos pelo neurótico ao longo de sua vida e do “objeto imaginário” (expressão freudiana também!) encontrado no analista. Também me pergunto se deixar a libido de novo disponível ao eu – proposta por Freud como um resultado do tratamento analítico – não pode ser considerada de uma maneira diferente de um fortalecimento do eu ou, inclusive, de uma inflação narcisista e, nessa direção, aproximaria essa nova disposição da libido ao eu e o que Lacan, na última aula do Seminário 23, tematiza, a partir de James Joyce, como o ego em sua função de amarrar, num mesmo nó, os registros do real, do simbólico e do imaginário (Lacan, 1975-76, p. 143-155) - voltarei a esse ponto ao final, a partir de um comentário sobre um testemunho de passe.

Se a energia sexual do neurótico não está relacionada com nenhum objeto real, se o investimento neurótico é sempre em outra coisa diferente daquela que ele supõe investir, a pergunta de Freud é: Onde se encontra, então, a libido do neurótico? Sua resposta é que essa libido “está ligada aos sintomas”, pois eles proporcionam ao neurótico “uma satisfação substitutiva” (Freud, 1917, p. 529-530). Dessa maneira, e se considerarmos a incapacidade do neurótico de extrair gozo de sua própria vida, a economia libidinal do neurótico pode ser escrita como:

Sintomas (satisfação substitutiva) < gozo da vida

Satisfação real

Freud nos legou uma concepção do sintoma envolvido com uma satisfação inconsciente: se há uma tal satisfação, é verdadeiramente difícil para o neurótico livrar-se de seu próprio sintoma, a relação do neurótico com seu sintoma é sempre aquela de uma tensão, e de uma tensão paradoxal, porque o sintoma é uma intenção de solucionar-lhe um conflito. Assim, o sintoma é uma solução porque é a resposta a um problema, a um obstáculo que a satisfação do neurótico encontrou. Trata-se da famosa concepção freudiana do sintoma como “solução de compromisso”. Uma vez que sabemos que Freud foi um leitor de Goethe, não me parece improvável definir sua concepção de sintoma como uma “solução fáustica”, ou seja, o sintoma é um pacto de um sujeito com uma força “demoníaca” e, como é comum nesse tipo de situação, no começo, não há grandes sofrimentos, a vida é mais tranqüila com a ajuda do demônio... até que ele venha exigir sua parte no pacto, até que ele cobre do sujeito neurótico seu próprio ser, sua alma – neste ponto, da cobrança desse demônio descoberto por Freud como supereu, a vida do neurótico se torna realmente um inferno.

Ainda que o sintoma seja, portanto, “solução de compromisso”, “satisfação substitutiva”, ele não deixa de ser potencialmente um problema: o termo “substituto” nos indica uma nostalgia do original, uma sensação de que há outra coisa melhor que a satisfação promovida pelo sintoma e o termo “compromisso” – em sua significação de “pacto” – não deixa de implicar a possibilidade de um arrependimento pela obrigação contraída. Então, há uma incapacidade do neurótico de aproveitar sua vida, porque a energia libidinal gasta para manter em movimento a satisfação substitutiva do sintoma torna-se maior que a satisfação extraída dessa manutenção. Assim, o início de um tratamento analítico é, muitas vezes, marcado pelo encontro de um sujeito com o que, a partir de Freud, chamaria de “desgaste libidinal do sintoma”: a máquina-sintoma não funciona mais tão bem como o que lhe havia sido prometido, pactuado, o demônio irrompe para cobrar do sujeito o próprio objeto de sua satisfação.

Diferente de uma perspectiva médica ou inclusive de uma série de orientações no campo da psicologia e no campo da psiquiatria, o sintoma em psicanálise, embora nos seja apresentado como um problema, não é tratado como algo que deva ser extirpado, silenciado. Nesse sentido, mesmo em Freud me parece já se poder encontrar uma concepção – a que Lacan nos formalizou e aperfeiçoou muito mais – do sintoma como uma solução diferente da “solução de compromisso”, do sintoma como uma solução da qual o sujeito não consegue propriamente se livrar. E será no tratamento analítico que o sujeito poderá, segundo Freud, encontrar uma solução para a solução de compromisso em jogo em seu próprio sintoma.

Sintoma e dominação

Na obra de Freud, eu diria que a solução da solução sintomática tem todo um traço das Luzes, quer dizer, do movimento iluminista. Assim, da conferência sobre a terapia analítica, extraio a seguinte citação: “devemos nos tornar senhores dos sintomas e solucioná-los” (1917, p. 530). Em outras palavras: a solução freudiana do problema-sintoma, a solução para a solução problemática que um sintoma acaba sendo para um sujeito é que esse sujeito possa se transformar, com o tratamento analítico, em um “senhor do sintoma”. Se a finalidade freudiana do tratamento analítico é o sujeito se assenhorear do próprio sintoma, então poderemos conceber que, antes e inclusive ao longo da sua análise, o neurótico é um escravo do sintoma e sua economia libidinal é desgastada, porque ele acaba perdendo muita satisfação quando investe os objetos “irreais ou imaginários” da libido como se fossem o “objeto real”. O percurso desse tratamento então seria:

O sujeito como escravo do sintoma O sujeito como senhor do sintoma

Objetos irreais ou imaginários da libido (a’) Objeto real da libido (a)

É interessante sublinhar que, segundo Freud, a solução terapêutica para o sintoma não é sua eliminação, mas uma troca, se assim posso dizer, utilizando uma terminologia lacaniana, da posição do sujeito com relação ao seu sintoma. Assim, para Freud, trata-se de tornar-se senhor do sintoma, saber separar o objeto real dos imaginários ou irreais que atraem sua libido.

Como Freud teoriza essa passagem? Extraio uma nova citação da mesma Conferência introdutória sobre a terapia analítica: para modificar a dominação do sintoma sobre o neurótico, devemos “voltar às origens” dos sintomas,

reconstituir o conflito de onde eles surgiram e, com a ajuda das forças motrizes que, no passado, não estavam disponíveis ao paciente, deveremos conduzir o conflito [corporificado pelo próprio sintoma] rumo a um estado diferente, em que a libido será de novo colocada a serviço do eu e não mais a serviço da satisfação substitutiva inconsciente corporificada também pelo sintoma (Freud, 1917, p. 530).

Entre essas “forças motrizes” não disponíveis ao analisante em seu passado, Freud nos autoriza a localizar o próprio analista, porque a neurose de transferência (doença artificial que surgiu no tratamento analítico) faz com que, já como um primeiro trabalho de redução, “no lugar dos vários objetos irreais da libido”, apareça um único objeto [...], um objeto imaginário” – o analista – que incitará o analisante, com suas intervenções, “a chegar a uma nova decisão”, quando a tendência neurótica era a de “se comportar do mesmo modo como o havia feito no passado” (Freud, 1917, p. 530).

Eu aproximaria a redução sublinhada por Freud do analista como o único objeto imaginário que passa a atrair a libido do neurótico na neurose de transferência e o ato do analista, ressaltado por Lacan, de “fazer reinar [...] o objeto a” localizando-o “no lugar do semblante” para estar “na posição mais conveniente de fazer o que é justo fazer, quer dizer, interrogar como saber o que é próprio da verdade” (Lacan, 1972-1973, p. 88). Assim, trata-se de extrair, da verdade corporificada no sintoma, um saber. Ou seja: no sintoma, está em jogo também um saber que, alguns anos mais tarde, Lacan vai chamar de savoir y faire – saber lidar com o real da satisfação libidinal, com o real do gozo.

Há, no entanto, uma diferença crucial entre Freud e Lacan, no que concerne ao destino do sintoma no tratamento analítico. Já demonstrei que Freud o concebia como uma apropriação do neurótico com relação ao seu sintoma. Por mais que a solução freudiana para o problema-sintoma seja interessante porque não o elimina, já que implica uma mudança da posição do sujeito com seu sintoma, essa mudança que leva alguém a se apropriar de seu próprio sintoma é como as transformações almejadas por um personagem do El Gatopardo, a novela de Lampedusa: que tudo se mude para que tudo permaneça como é3. Nessa transformação almejada por Freud – da escravidão ao sintoma em uma dominação sobre o sintoma –, há algo que não muda na economia libidinal do sujeito neurótico e que nos leva, com Lacan, a assinalar o próprio real da satisfação sintomática como o que não é modificável e como o que um psicanalista deve se confrontar em um tratamento.

Nesse contexto, para concluir por que fazer-se senhor do próprio sintoma não é exatamente uma solução na prática dos Membros da Associação Mundial de Psicanálise e dos envolvidos nas varias atividades do Campo Freudiano, eu citaria um chiste recontado por Lacan em “Kant com Sade”: se, como sabemos, o capitalismo é definido pela “exploração do homem pelo homem”, então “o socialismo [...] é o contrário” (Lacan, 1966, p. 777). Portanto, se retorno à solução freudiana do problema-sintoma, ainda que ser senhor do sintoma pareça diferente de ser seu escravo, o que permanece imutável nessa mudança é a dimensão da dominação, seja ela exercida pelo sintoma, seja ela exercida pelo neurótico. Para confrontar-se de outra maneira com o que não se muda, Lacan inventou essa solução chamada “identificação ao sintoma”: nem senhor, nem escravo, trata-se muito mais de tomar o sintoma como um parceiro do sujeito em sua lida com o real impossível de suportar.

Depuração de um savoir y faire a propósito do sintoma

Xavier Esqué, em seu texto “Mais longe que o inconsciente”4, oferece-nos uma clara abordagem do que Lacan chamou de “identificação ao sintoma”. Não se trata de uma “identificação ao inconsciente”, e essa expressão me parece nomear muito bem o que Freud almejava quando concebia o tratamento analítico como um trajeto no qual o neurótico deveria se fazer senhor de seu sintoma. Apropriar-se de seu sintoma seria, então, equivalente a se identificar ao inconsciente, esse Grande Senhor do Sintoma.

Identificar-se a seu sintoma, no entanto, implica colocar-se mais longe do inconsciente sem que esse distanciamento seja confundido com uma transformação, algumas vezes pretendida pelo próprio Freud e, sobretudo, por vários pós-freudianos, do inconsciente em consciente, isto é, com um processo de “conscientização”. Na identificação ao sintoma, trata-se de estar mais além do inconsciente e Xavier Esqué nos lembra, então, a seguinte passagem de Lacan no Seminário 24: “o inconsciente é que [...] alguém fala sozinho [...] porque não diz nada mais do que uma única e mesma coisa”, mas, se alguém “decide dialogar com um psicanalista” (Lacan, 11/01/1977, p. 7), não está mais tão só com o gozo inconsciente e acaba dizendo alguma coisa diferente, surpreendente. Nessa diferença, nessa surpresa, a libido poderá fazer-se disponível ao ego que, na última aula do Seminário 23, Lacan nos ensina a conceber não mais somente como o outro imaginário com quem um sujeito se identifica, mas como um corpo vivo, surpreendentemente próximo e tomado pela substância-gozo (Lacan, 1975-76, p. 143-155). Nessa perspectiva, se, no final da análise, temos uma identificação do analisante a seu sintoma é porque, segundo nos esclarece Xavier Esqué, o sintoma “é aquilo que se conhece melhor” (Esqué, 2004) ou, como eu disse antes, é o parceiro do sujeito em sua lida com o real impossível de suportar, é aquilo que é o mais próximo inclusive quando lhe parece muito longe, muito desconhecido.

Dessa maneira, uma análise, em seu percurso, é a depuração do sintoma como parceiro do sujeito e, por isso, exige um longo tempo para que essa depuração se decante e se mostre efetivamente praticável, ainda que a localização de tal parceria possa produzir, como também o constatamos, efeitos terapêuticos rápidos na psicanálise (Miller, 2005).

Se Lacan nos fala, a propósito do sintoma no final de uma análise, de um savoir y faire, não se trata, como sublinha muito bem Esqué (2004), de “um fazer técnico”, de um “saber fazer com” porque, nesse contexto, não estaríamos longe do apropriar-se freudiano do sintoma. Trata-se, sobretudo, segundo Esqué, de “saber se desenrolar partindo não do conceito, mas do rolo”. Esse saber se desenrolar tendo o sintoma à mão, como se fosse uma ferramenta, é depurado com a redução dos objetos da economia libidinal do neurótico ao que Lacan chamou de “objeto a” e nos mostra como o sujeito, no que concerne ao gozo de sua vida, identifica-se a seu sintoma sem transformar-se em seu senhor e sem permanecer como seu escravo.

No final de seu testemunho pronunciado no IV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), Xavier Esqué assinala-nos não somente o olhar como o objeto em torno do que sua economia libidinal girava, mas também como ele passa, com o final do seu tratamento analítico, a lidar com esse objeto de uma maneira muito diferente e que não deixa de surpreendê-lo. Ele sustenta que sua “análise não terminou com o olhar” e que “há olhares que, felizmente, ainda, lhe importam” (Esqué, 2005, p. 56). Assim, por exemplo, em sua relação com a psicanálise e com a Escola, “sempre existirá um olhar”, que vai dividi-lo, mas agora é um olhar que o causa, que não o ameaça, nem o persegue porque é “como o farol para o navegante na escuridão da noite”, servindo-lhe de “orientação” (Esqué, 2005, p. 56).

Essa comparação promovida por um final de análise me parece muito instigante: o olhar como um farol. Pode-se dizer que há, então, uma modulação do objeto a como olhar que, antes, era importante para Esqué a ponto de atraí-lo, mas também de ameaçá-lo e persegui-lo e, com o final do tratamento analítico, o olhar se apresenta como uma orientação. Nesse sentido, o olhar-farol é o que orienta não somente quanto aos pontos que devem ser seguidos, mas também quanto aos que devem ser evitados. A economia libidinal permanece girando em torno do olhar, mas não da mesma maneira, inclusive porque o final da análise permitiu a Esqué apreender a dimensão pulsional do olhar, uma vez que o compara a um farol que, como é próprio aos faróis, pisca, oscila, vacila e, neste mesmo movimento de hesitação (e por que não dizer, de “enrolação”, de “rolo”?), como no apólogo dos três prisioneiros (Lacan, 1945, p. 197-213) orienta o sujeito rumo a uma solução.

Dessa maneira, o inconsciente pode ser captado como equivocação, tropeço e, nesse contexto, Xavier Esqué nos oferece um exemplo excelente de como a identificação ao sintoma lhe permite surpreender-se com as armadilhas de seu inconsciente sem permanecer como seu escravo e sem se transformar em seu senhor. Após nos ter mostrado como, na sua vida, ele se fazia reduzir a um “melequento” (mocozo), um “menino grudado” (mocozo) no pai, vai evidenciar também um dos efeitos terapêuticos de sua análise: a cura da sua rinite e da sua sinusite. Uma vez que, nessa liberação de seus sofrimentos nasais, ele não se torna senhor de seu sintoma, ele nos diz o quanto se surpreendia, durante muito tempo, colocando ainda a mão no bolso onde, por um longo tempo da sua vida, encontrava essa espécie de “objeto transicional”5 no qual um lenço se havia convertido para ele. Aliás, identificado ao sintoma, ele passa a comprovar, não sem surpreender-se, que “sua vida era possível sem estar apegado a um lenço” (Esqué, 2005, p. 56), acrescentaria eu, extraído desse tecido que o inconsciente é como discurso pronunciado de modo afônico pelo Outro e repetido pelo sujeito à maneira de um ventríloquo.

Nessa lida que eu qualificaria de divertida com o vazio deixado pelo lenço ao qual não necessita mais recorrer, com o furo corporificado no seu bolso, eu localizaria, por fim, outro modo de Xavier Esqué ajudar-nos, com seu passe, a apreender o que Lacan assinalou como identificação ao sintoma e a evidenciar como, para nós – analistas da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) e do Campo Freudiano – a terapêutica não é afastada do mais puro que uma análise consegue alcançar.

Notas:

*Conferência apresentada originalmente em espanhol, na Escola de Orientação Lacaniana (Seção Córdoba), no dia 08 de novembro de 2007, proveniente de uma pesquisa, realizada com o apoio do Programa de Pesquisa e Iniciação Científica da Universidade FUMEC (ProPIC-FUMEC). Tradução: Maria Luiza Caldas. Revisão: Sérgio Laia.

1. Essa expressão foi utilizada por Lacan na aula de 16 de novembro de 1976, no Seminário inédito chamado L`insu que sait de l´une-bévue s´aile à moure. Essa aula encontra-se publicada em: Ornicar? Bulletin périodique du Champ freudien. Paris, n. 12/13 (spécial), p. 6.

2. “Peças soltas” é o próprio título do Curso de Jacques-Alain Miller de 2004-2005, anunciado numa intervenção na Biblioteca da École de la Cause Freudienne em 15/11/2004 e começado em 17 de novembro desse mesmo ano. Essa intervenção e algumas aulas desse curso foram publicadas na Revue de La Cause freudienne (2005, 2006).

3. A frase literal dessa novela, pronunciada por Falconeri é a seguinte: “si vogliamo che tutto rimanga como è, bisogna che tutto cambi” (“se queremos que tudo permaneça como está, é necessário que tudo se mude”) (LAMPEDUSA, 1955).

4. Publicado em Ornicar? digital, n. 277, e divulgado em 04/03/2004 pela lista eletrônica AMP-UQBAR. Disponível na Internet, para os inscritos na lista AMP-UQBAR:

5. Como sabemos, o “objeto transicional” é uma criação de Winnicott, mas aqui eu utilizei essa expressão a partir de um comentário de Eric Laurent ao testemunho de Xavier Esqué (LAURENT, 2005, p. 58; WINNICOTT, 1951, p. 316-331).

Referências Bibliográficas

Esqué, X. Mais longe que o inconsciente. In: Ornicar? Digital, n. 277, de 04/03/2004. Disponível na Internet, para os inscritos na lista AMP-UQBAR:

_______. O êxtimo empurra. Opção Lacaniana. São Paulo, n. 42, p. 56, fev. 2005.

FREUD, S. (1917). Terapia analítica. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

LACAN, J. (1945) Le temps logique et l´assertion de certitude anticipée. In: Écrits. Paris: Seuil. 1966. p. 197-213.

_______. (1962). Kant avec Sade. In: Ecrits. Paris: Seuil, 1966.

_______. (1972-73). Le seminaire. Livre XX: encore. Paris: Seuil, 1975.

_______. (11/01/1977). L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à moure. In: Ornicar? Bulletin périodique du Champ freudien. Paris, n. 14.

_______. (1964). Acte de fondation. In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001.

_______. (1975-76). Le seminaire. Livre XXIII: le sinthome. Paris: Seuil, 2005.

LAMPEDUSA, G.T. Di (1955). O gattopardo. Rio de Janeiro: Record, 2000.

LAURENT, É. Da linguagem pública à linguagem privada, topologia da passagem. Opção Lacaniana. São Paulo: Eólia, n. 42, fev. 2005.

MILLER, J.-A. (1998) O osso de uma análise. Escola Brasileira de Psicanálise (Seção Bahia): Salvador.

_______. (2004-05) Peças Soltas. In: La Cause freudienne. Paris: Navarín Editeur, n.59, 60, 61, 62 e 63.,fev. 2005 e jun. 2006.

_______. (direção). Effets thérapeutiques rapides en psychanalyse. La Conversation de Barcelona. Paris: Navarin, 2005.

WINNICOTT, Donald Woods. Objetos transicionais e fenômenos transicionais (1951). In: Da pediatria à psicanálise. Obras escolhidas: Rio de Janeiro: Imago, 2000.

sábado, 7 de fevereiro de 2009



“O pensamento é o ensaio da ação”.
Sigmund Freud

sábado, 31 de janeiro de 2009

A filha de Jacques Lacan reflete sobre o campo psi neste século

O futuro da psicanálise

Para la autora, los cambios del mundo, y los de la clínica, exigen cuestionarse. Para a autora, as mudanças do mundo, e as da clínica, exigem questionamento. Y considera que no le compete a esta disciplina alimentar la nostalgia de los ideales antiguos ni la queja sobre el mundo, pero sí poner su reloj en hora. Ela considera que não compete a esta disciplina alimentar a nostalgia dos antigos ideais nem as queixas sobre o mundo, mas sim acertar os ponteiros de seu relógio.
Por Judith Miller*

“É que face a uma verdade nova, não é possível contentar-se apenas em dar-lhe seu lugar, pois o de que se trata é de tomarmos nosso lugar nela. Ela exige que nos mexamos” Jacques Lacan, “A instância da letra no inconsciente”, Escritos , p.525

“Há que adentrar-se no campo social, no campo institucional, e preparar-se para a mutação da forma da psicanálise. Sua verdade eterna, seu real trans-histórico não serão modificados por esta mutação. Pelo contrario, se salvarão, se captarmos a lógica dos tempos modernos.” Jacques-Alain Miller, Le neveu de Lacan, p.124.

A passagem ao século XXI, o 150º aniversário do nascimento de Freud e o centenário de Lacan, conduziram aqueles que inscrevem seu trabalho no Campo Freudiano a interrogar, cada vez mais, o lugar da psicanálise no mundo, assim como a função que cabe a um analista. O mundo muda e este lugar é, com efeito, questionado, mesmo no país em que Lacan exerceu e ensinou. Isto é, no país onde não só o fio da invenção freudiana foi salvaguardado por Lacan, senão também, onde a doutrina analítica conheceu avanços tão notórios que ainda hoje apenas começamos a ter uma medida das conseqüências do último ensino de Lacan, tanto no que diz respeito ao Édipo como aos sintomas, para tomar só dois exemplos entre muitos outros.

Seguramente as mudanças do mundo, e com elas as da clínica, exigem que se interrogue o lugar que tem ali a psicanálise e a função que cabe a um analista, sabendo que desde o nascimento da psicanálise este lugar deve ser defendido e esta função delicada, sustentada. Hoje, o são, sem dúvida, mais que nunca. Através dessas mudanças, poucas coisas da era vitoriana resistiram. Coisas que possamos encontrar no mundo globalizado, cuja característica própria é a ruptura que opera com os ideais e os valores tradicionais, da família especialmente, além de uma pletora correlativa de mais-de-gozar descartáveis, falsos objetos a, que são oferecidos ao consumo público no lugar dos ideais que se tornaram obsoletos. A esse respeito, não posso senão remetê-los ao site da ELP que publica os trabalhos de nossos colegas elucidando o "estado da civilização" de maneira metódica e rigorosa e suas repercussões sobre a "questão psi".

Entretanto, Lacan não deixou de afirmar em uma "conferência à imprensa" de 1974, no momento de “A Terceira" (intervenção sua em Roma), que a seus olhos a religião (a verdadeira, ou seja, a romana) tinha tudo o necessário para triunfar além das convulsões que o planeta conheceria e dos avatares da civilização. (Um parêntese: para quando o ensaio de um psicanalista dedicado ao movimento ecológico que se inquieta pela devastação que ameaça a Terra e os equilíbrios naturais de sua fauna e de seus climas?) Em 1974, Lacan ainda não convida a psicanálise a propor outro sentido diferente daquele que a religião encontra sempre para torná-lo abundante e para melhor mascarar o real: todo sentido é religioso. Ele indica a bússola que especifica a psicanálise: orientar-se pelo real que se desprende, com efeito, da psicanálise: o que fracassa o insuportável que insiste. Tal é sua singularidade sua razão de ser, na falta da qual estaria destinada a deteriorar-se. Tratar-se-ia de condená-lo a uma triste alternativa: ou o fracasso ou a traição?

Como a psicanálise pode encontrar seu lugar no século XXI sem trair-se e sem se auto-segregar? É, seguramente, estreita a via que supõe que se alcance circunscrever sempre o real e obter, no mesmo movimento, um saber-fazer em seu lugar. O impossível não é a impotência. É a ética da psicanálise o que supera qualquer traição e franqueia todos os obstáculos se nos sustentamos firmes no princípio enunciado por Lacan "não ceder sobre seu desejo". Se a posta em marcha por cada um de tal princípio supõe que o tratamento do sujeito tenha sido conduzido a seu término, "ele habita todo analisante que se aferra à ocasião de servir à causa da psicanálise, autorizando-se a ser um praticante devidamente formado".

O porvir da psicanálise se sustenta, seguramente, na formação dos analistas. Nada surpreendente nem novo em dizê-lo, o que é surpreendente e novo é a conjuntura na qual este dizer encontra sua efetividade. Neste século XXI, a conferência institucional da ECF de 13 de setembro de 2008 se dá o encargo de encarar esta tarefa, para desbastar o terreno, e inclusive extrair as minas.

Não cabe à psicanálise passar por compromissos para existir no mundo, especialmente do tipo promoção ou aceitação de diplomas: está em sua essência mesma o não ser passível de diplomas. Seu exercício implica que permaneça confidencial, o inconsciente freudiano se constitui em uma relação de palavra de ordem privada.

Pelo contrário, cabe à psicanálise salvaguardar o espaço desta ordem quando tudo (a ideologia de segurança, a tecnologia, internete, a política da transparência,tecno-psi) trabalha para sua diminuição e para fazer com que cada um se esqueça de sua solidão, sua responsabilidade, inclusive de suas cogitação de ser falante. Na França, um projeto governamental mobiliza os cidadãos lúcidos. Tal projeto põe em cheque as liberdades individuais, em nome da segurança. Esses decretos estão no ar de nossos tempos em nome da "transparência" e da previsibilidade que a lei do mercado promoveu e que a globalização tenta aplicar às pessoas, com a condição de não ver nelas mais que consumidores - produtores.

É por isso que iniciativas tais como os Fóruns psi e Le nouvel Âne se inscrevem na trama do ensino de Lacan no momento particular da civilização que vivemos. Depois do Seminário XVII, fomos esclarecidos sobre o "avesso" da psicanálise: este termo indica que o discurso de mestre e o discurso do analista são feitos do mesmo estofo, do mesmo tecido. Certamente se opõe, um massifica enquanto o outro permite a cada sujeito, um a um, ler o inconsciente do qual é o produto. E esta oposição diz da estreita relação, desde sua invenção por Freud, entre a prática da psicanálise e sua época. Diferente do discurso da histérica que, perseguindo a verdade, desnuda o semblante sem poder fazer outra coisa que reforçá-lo; o discurso analítico não denuncia os semblantes, mas sabe servir-se deles sem enredar-se ali.

Corresponde à psicanálise, não obstante, determinar o que é transmissível da experiência analítica, e prosseguir a elaboração inaugurada por Freud e cristalizada em seus matemas, por Lacan. Daí o tato requerido na exposição pública desta experiência privada. O testemunho do passe não sai do círculo restrito ao qual se dirige, a publicação oral ou escrita de um caso e sua discussão respondem a exigências com as quais se medem as apostas da inscrição da psicanálise no mundo tal como esta caminha. A esta inscrição contribui um amplo leque que vai desde os ensinos dos AEs às intervenções públicas.

Se não compete à psicanálise alimentar nem a nostalgia dos ideais antigos nem a queixa sobre a dureza do mundo tal como é, lhe cabe, porém, acertar os ponteiros de seu relógio. Primeiramente examinando se não haveria contribuído, por acaso, para “ascensão ao zênite do objeto a”, para a queda dos ideais; se seus êxitos mesmos não teriam dado pretexto aos ataques daqueles que desejavam assassiná-la. Ou ainda, desinflando os argumentos inconsistentes em nome dos quais o cientismo pretende que esteja morta e enterrada. Finalmente, explicitando as condições nas quais um analista pode sustentar sua função, sem renunciar a seu laicismo. Como sabemos, não há psicanálise sem psicanalistas e não há psicanalistas sem formação analítica e verificação desta formação, que só uma Escola de psicanálise pode assegurar.

*Judith Miller é filha de Jacques Lacan casada com Jacques-Alain Miller. Fragmento extraído da publicação Mediodicho, do Campo Freudiano. Tradução: Silvia Baudini. Gentileza EOL Rosario.



Tradução: Marcia Zucchi