quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Algumas considerações de Laurent

Zaeth Aguiar do Nascimento – Correspondente da Delegação Paraíba da EBP

Laurent aponta-nos as características da subjetividade contemporânea e nesta “percebe-se claramente que o declínio do ideal se acompanha das exigências do gozo”. Permeando a subjetividade contemporânea apresentam-se o hedonismo de massa e o fetichismo da mercadoria generalizada.

Neste sentido, constatamos que o hedonismo de massa que caracteriza o momento atual da civilização é responsável pelo desaparecimento da particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo remete ao acesso ao gozo “para todos”. Laurent acrescenta os dois tipos de relação com o gozo: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma e indica-nos um outro aspecto da experiência de gozo que se diferencia da overdose, que é a experiência do todo e que seria a alloverdose implicando um gozo ilimitado, o todo. Se contrapondo a esta versão do gozo, “respondem os pequenos furos particulares de cada sujeito liberado da tirania de gozar de “tudo” (p. 173)”. Miller (Curso de Orientação Lacaniana, curso 20; ano 2003-2004 – inédito) indica-nos a que ponto a tirania do objeto a na atual civilização é uma tirania que não tem mais laço com a singularidade de cada sujeito, por isto se chama de tirania.

Diante deste quadro da civilização, voltamos a nos questionar qual a ação do analista? Laurent indica-nos que o analista “não pode pretender aliviar o sujeito contemporâneo de sua culpa em relação ao ideal”, pois o sujeito contemporâneo já está aliviado (ele é um sujeito light) e que “o importante não é o aparente alívio do sujeito, mas o peso de sua relação com o gozo” (p. 171). Neste sentido, cabe ao analista, no que diz respeito ao gozo, “reenviar o sujeito à sua particularidade” (p. 172) que diz respeito ao sintoma. O programa de ação do analista na civilização atual é fazer acreditar no sintoma que remete ao singular.

Outra ação do analista na civilização do lugar da psicanálise hoje, diz respeito ao que Laurent denomina de “analista-cidadão”. Desta forma, resta ao analista praticar a psicanálise na cidade, sair da posição de analista intelectual, “Há que se passar do analista reservado, (..) a um analista que participa, (...) sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora” (Laurent, 2007, p. 143).

terça-feira, 14 de julho de 2009

O sintoma – acontecimento de corpo

Iordan Gurgel, Psiquiatra; Analista Membro da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola Brasileira de Psicanálise

O corpo é inconveniente, é um conflito: inicialmente é desgarrado e só encontra unidade através da imagem validada pelo Outro. Ele não está constituído de entrada; é com a incorporação da linguagem que é concebido. A entrada do significante negativiza o gozo primeiro, original, real que reinava antes da linguagem (Lacan em Radiofonia, 1970). A ação do significante torna o corpo um deserto, um vazio de gozo. Impõe-se então a incorporação da libido que acontece nos orifícios (ditas zonas erógenas) e envolve o corpo, com a função de recuperar no exterior do corpo o gozo perdido no seu interior. Em conseqüência, esta disposição pulsional, determina os objetos libidinais separados do corpo: o seio, as fezes, o olhar, a voz (semblantes do objeto a).

O primeiro período do ensino de Lacan sobre o sintoma, é o de retorno a Freud, onde prevalece a sobredeterminação simbólica e é conseqüente à noção do inconsciente estruturado como uma linguagem. O sintoma é um significante; é uma metáfora – expressão subjetiva do poder da palavra sobre o corpo; é uma mensagem enigmática que o sujeito toma como vinda do real e não dele próprio. A condição de mensagem é graças ao artifício da experiência analítica que introduz seu operador, o Sujeito suposto Saber. Sem ele, o sintoma não diz nada a ninguém. Neste período, a relação ao corpo é dada pelo imaginário, depósito de gozo.
O segundo período, que começa em 1964 (Os quatros conceitos da psicanálise), corresponde à articulação realizada entre sintoma e fantasma; prevalece o objeto a e sua articulação com o Real – entre sintoma e gozo. Coloca em evidência a pulsão e a modulação do sintoma pela repetição e satisfação. A vinculação do sintoma ao corpo é através do fantasma, cujo complemento corporal, em sua fórmula, é dado pelo objeto a.

O último ensino de Lacan é marcado pela relação do sintoma à letra, como irredutível. O inconsciente como um saber cifrado, cujo exercício é o gozo. Se o fantasma é o que recobre a falta no Outro, encontra um limite no sintoma, que é índice do fracasso do fantasma e um modo de tratar a falta. O sintoma é tomado como signo (como uma versão significante), e com uma versão letra (produtora de gozo). Há um limite da psicanálise em articular o fora do sentido da letra com o significante que lhe dê sentido.
Nos três momentos distintos do ensino de Lacan, observamos que o sintoma sempre está articulado ao corpo e o que varia é o conceito de conexão: metáfora, gozo e letra.
Neste percurso, o sintoma passa do modelo de mensagem – versão freudiana do sintoma como mensagem a decifrar, compatível com a noção lacaniana do inconsciente estruturado como uma linguagem – à modalidade de gozo do sujeito – sintoma-letra que é imune a eficácia simbólica (é a passagem da lingüística para a topologia).

No seminário (XXIII, 1975/6) O sinthoma, a teoria do nó borromeu é reforçada – entendida como a estrutura essencial do sujeito – que tem no sinthoma o quarto nó que enlaça o RSI (e sempre ameaça desfazer-se). Esta concepção é o que permite ao sujeito viver, já que organiza um modo particular de gozar. Agora o sintoma é colocado no centro da clínica e já não se faz a diferença entre o sintoma e o fantasma – é a política da recusa do sentido , a política do real, correlativo ao conceito de falasser – termo que tão bem resolve a dicotomia corpo-significante.
Tomar o sintoma como acontecimento de corpo pressupõe os efeitos do discurso que afeta o corpo e deixa marcas indeléveis. O sujeito sintomatiza, não se reconhece aí; portanto, não se identifica ao sintoma. Esta característica é que faz o corpo falar – propriedade do homem, o falasser – e por outro lado, cria a disfunção, da qual o sujeito pode se queixar. Tratar então do corpo, implica a assunção da história do sujeito, marcada pela contingência.

Fragmento do texto "O SINTHOMA COCA COLA" apresentado na XVI Jornada Clínica da EBP-RJ , 2005

domingo, 28 de junho de 2009

“Traço de espírito”

Maria Cristina de Távora Sparano
ProfªDrªdo Departamento de Filosofia e profª do Mestrado em Ética e Epistemologia da Universidade Federal do Piauí-UFPI


A análise do filme “Um homem bom” (Good) teve como foco a conexão filosofia e psicanálise.
A ação do filme tem como cenário a Alemanha nazista e a ascensão nacionalista dos ideais de Hitler, principalmente em relação à raça ariana e à perseguição aos judeus. A personagem principal, John Halder tem como “traço de espírito” (a witz freudiana, no dizer de Lacan) - o engano – porém, com a particularidade de não causar o riso como no chiste, mas o espanto, pois a ação é dramática e não cômica.
Halder se enreda em situações inesperadas e inusitadas, é tomado por elas, deixando-se levar no limite do patético. Um exemplo disso, no filme, é o tema do romance que Halder escreveu como obra de ficção onde a personagem “por amor” a quem sofre recorre à eutanásia. O elogio a essa prática é aproveitado pela propaganda nazista e Halder ofuscado por ela, cede, ele mesmo é objeto do chiste.
Em filosofia, atitudes como as de Halder são analisadas à luz da razão e é por esse ponto de vista que podem ser criticadas. A racionalidade diz da impossibilidade de nossas ações serem incoerentes, i. é, as ações são o resultado de uma conduta racional e de acordo com princípios do conhecimento. Não posso agir contra aquilo que sei que é o melhor. Essa é uma postura ética e tem na ética aristotélica sua melhor dimensão. Na Ética a Nicômaco, texto de Aristóteles dedicado à Ética, temos os princípios de uma ética finalista que se convencionou chamar de “ética do bem”. No entanto, nesse mesmo texto, mais precisamente no cap. VII, Aristóteles fala de uma situação em que o homem é negligente com o fim de suas ações. Essa situação tem por nome “acrasia”. Ações acráticas são tidas como ações de incontinência moral ou concupiscência. Nos velhos termos de nossas avós são fruto de “fraqueza de vontade”, pois uma vontade forte, um caráter forte, não se deixa se levar pelas situações contingentes da vida, mesmo sendo convenientes ou inevitáveis. Essa conveniência é a isca que suborna um homem “fraco de vontade”. Halder é assim, sabe o que é bom e justo, mas é levado pela situação. Não resta dúvida que se atormenta um pouco, mas não acredita nas evidências, como a perseguição nazista aos judeus. Sua crença é verdadeira. O limite entre a verdade e o engano o leva ao auto-engano. No entanto, isso não o livra da angustia e se refugia, toda vez que é tomado por ela, na fantasia e então, ouve uma música, Mahler...
Freud na conferência 31 (1932) fala da “crise do eu” onde se evidencia a divisão da estrutura psíquica em: eu, super eu e isso. O centro da personalidade psíquica é o eu erguido como anteparo diante da morte e da finitude. O eu é aquela instância que tem como antítese o outro, que pode ser até ele mesmo. Assim, o eu pode ser o observador, mas também o observado quando tomado como objeto. A consciência moral tem essa função observadora e regula as ações do eu, vulgarmente chamado de super eu. Já os instintos do eu, a parte inacessível da personalidade, que não conhece nem o bem nem o mal, nem o justo nem o injusto estão presentes no conflito e na divisão da personalidade, são as forças do isso.
Freud diz que o eu obedece a três senhores: o mundo externo, o super eu ou consciência moral e ao isso. Assim também é Halder, submetido às circunstâncias da história (nazismo), às circunstâncias de sua própria história pessoal, a seus ideais e a seus impulsos mais básicos. Ao tentar agradar aos três senhores, só tem uma saída, a angústia e a fantasia.
A abertura ao inconsciente é o que Lacan chama de “traço de espírito” e que se revela nas ações da personagem quando este se engana diante das situações incontroláveis de sua vida. É uma possibilidade para a assunção do sujeito, do sujeito do inconsciente. Como ensina Freud, na mesma conferência: Wo es war soll ich werden*

* onde o isso era o eu pode advir

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Obama: Mestiço e hermafrodita, tem melhor?

por Jacques-Alain Miller

Como o senhor explica a Obamania ?

Pelo fato de Bush ter se tornado um objeto fóbico. Depois do diabólico Nixon do Watergate, a América já havia se entregado a um bom menino que plantava amendoins, Jimmy Carter. Bush fez muito pior que Nixon, instalou-se, com grande prazer, no papel de "inimigo do gênero humano": recusa do protocolo de Kyoto, desprezo pelas instituições internacionais, política de guerra preventiva, direito de torturar, culto da força, chauvinismo, etc. Cheney, seu vice-presidente, foi apelidado de "Darth Vader". O duo conseguiu fazer dos USA o novo “Império do Mal”. Obama é para os americanos a redenção. A bondade em cartaz. Escuta, consenso, respeito ao outro, às diferenças, aos pobres, aos fracos, “todo mundo: ele é bonito, ele é gentil”.

Sim, mas a fascinação por Obama vai além dos Estados-Unidos, é um fenômeno planetário.

Porque os Estados Unidos é a única potência planetária que resta. A Bushfobia era mundial e inverteu-se logicamente em Obamania universal. Obama é o homem-espelho do Universo, "o homem-microcosmo", como se dizia no Renascimento, aquele que representa o mundo em sua diversidade, que reconcilia, em sua pessoa, as raças e os sexos: ele é africano, é americano, é negro, é branco, é homem, mas, ao mesmo tempo bem na moda, muito manequim, feminino, esguio, fluido, "um gato", o contrário de um McCain, deficiente, confuso, remendado, cabeça quente, uma cara mutilada, ostentando uma virilidade agressiva que já estava pura e simplesmente desgastada. Mestiço e hermafrodita, tem melhor?

Com a Obamania não se está mais na rubrica política: fala-se de “esperança”, evoca-se “milagres”, comparam seu “Yes we can” com o “Não tenham medo” de João-Paulo II.

Com efeito, Obama sabiamente cultivou uma imagem de salvador e de redentor do mundo que ele prometeu – vejam bem – “curar” e “mudar”. Sua genialidade foi não recuar diante da maluquice e ir buscar, sem vergonha nem hesitação, no estoque dos mais antigos mitos, as mais antigas crenças da humanidade. E isso funciona, mesmo na idade da ciência, mesmo quando se crê não mais acreditar nisso. Ao mesmo tempo, sua campanha usava com mestria as mais recentes tecnologias. Representou cientemente o Messias, modernizando o papel com a ajuda de uma retórica completamente hollywoodiana: ele fala como num filme.

Obama é atualmente o homem mais amado do planeta. Mas já se diz que a decepção é inevitável e será à altura desse amor.

Isso é política água com açúcar. Obama fez carreira em Chicago, onde os melosos não duram muito tempo. Tudo indica que ele, pelo menos, não se toma por Obama. Seu primeiro recruta?, seu chapa, um outro de Chicago, Rahm Emanuel, que será seu verdadeiro número 2: um celerado hiper-eficaz, que não livra a cara de ninguém. Ele irá se agitar nos bastidores enquanto, em cena, nosso São João Boca de Ouro nos cantará cantigas de ninar.

Tradução: Vera A. Ribeiro
Revisão: Sérgio Laia.

sábado, 13 de junho de 2009

Comunicado

Comunicamos que a atividade do curso de Introdução à Teoria Lacaniana do dia 27.06.09, será transferida para o dia 04.07.09 às 9h no mesmo local.
Atenciosamente,

Direção

quinta-feira, 28 de maio de 2009


"Amar é dá o que não se tem".
J.Lacan

domingo, 17 de maio de 2009

FRACASSO ESCOLAR: UM GOZO DE NÃO QUERER SABER

Sandra Conrado
Psicanalista,Membro da Escola Brasileira de Psicanálise.

Do ponto de vista da psicanálise, o fracasso escolar, entre as bulimias, anorexias e depressões, está inserido no que chamamos “novos sintomas”. Embora, diferentemente desses sintomas, o fracasso escolar existem há tempos, sua novidade é que hoje ele surge também como uma resposta a esse modelo atual de denunciar o declínio dos ideais na cultura. Para que se estuda hoje? Não é raro se ouvir dos pais: “para concorrer, para ser o melhor, para ter melhor lugar no mercado, etc”.
Se o fracasso escolar está inscrito na ordem de um sintoma é porque ele se coloca, por outro lado, na via de um gozo que incomoda e, por isso, também apela ao analista como aquele que pode produzir uma resposta para seu mal-estar.
É em busca dessa resposta que produzi esse trabalho
Um dia, numa sala de aula de professores de criança, fiz a afirmação de que o fracasso escolar, do ponto de vista psicanalítico, era visto como um gozo de não querer saber. Depois de uma discussão acirrada, cuja polêmica se deu por causa do termo gozo, um professor, muito entusiasmado diz: “acho que não se trata de um gozo, mas de uma tortura. Discordo de você!”. Ora, dizendo a esse professor que estávamos discutindo a mesma coisa, trouxe apenas que, entre os termos gozo e tortura faltava apenas a noção de inconsciente. O gozo é inconsciente, embora, a tortura sobre como mal-estar para a criança, pais, professores, escola e os que encontram-se ao seu redor.
Para falar sobre essa questão vou me subsidiar do campo freudiano e de seu conhecimento do sintoma, do gozo, do saber e da transferência, os quais, sendo lido por Lacan, nos trazem uma imensa contribuição.
Na situação clínica ele aparece muito claramente e não sei se é tão diferente do que temos nas escolas, onde a criança parece ficar um tanto quanto alheia ao referencial do Outro, que na última etapa de seu ensino, Lacan nos mostrou como inexistente.
Ao justificar o conceito de inconsciente na metapsicologia, Freud nos diz que na vida mental do indivíduo há sempre um outro alguém envolvido, Outro que lhe confere o estatuto de uma inferência. Ele diz:
“todos os atos e manifestações que noto em mim mesmo e que não sei ligar ao resto de minha vida mental, devem ser como se pertencessem a outrem” [1]
Lacan, ao longo do seu ensino, nos fala do Outro de três maneiras: primeiro como absoluto - o Outro concreto. Depois como Outro do desejo – inconsistente; e, na última fase de seu ensino, o Outro inexistente e, por isso, impossível de dar a resposta ao sujeito.
Trago esse três momentos do Outro em Lacan na tentativa de especular a condição da escola. Em que acredita a educação? Entre outros aspectos que os professores ensinem os conteúdos. No ideal da educação o professor precisar ser bem concreto, um Outro absoluto que dê conta de um saber.
Na minha experiência com professores de ensino fundamental, por ocasião da disciplina Psicologia da Aprendizagem num curso de Pedagogia, ouvi várias vezes essa pergunta: “como faço para os meus alunos gostarem de estudar?”. Uma pergunta que não deixa de carregar uma cota de angústia, pois, como poder, do lado do professor que não tem a consistência do saber, resgatar o desejo da ignorância, se a educação não admite em seu meio, sujeitos barrados?
Pelos ensinamentos de Freud e Lacan pude, nessa experiência, tirar muito proveito dela, situando-me dentro da dificuldade do que é o modelo pedagógico, mas, sobretudo do que é a angústia de um professor diante do fracasso escolar, que na visão de muitos deles, é do aluno.
É nesse sentido, de como fazer, que apontamos a inexistência do Outro. Nossa sociedade tem sofrido por isso e a escola como instrumento dela não está isenta desse processo. Há hoje em dia uma descrença. “Se o Outro não existe, em quem vamos acreditar?”
Na verdade o Outro nunca existiu, o que fizemos foi dar uma entidade a ele através de um supereu que almejava ideais em torno de um nome, o Nome-do-Pai como nos ensinou Lacan. Só que hoje, esses ideais mudaram de configuração.
Retomando a questão do professor e a sua angústia diante do fracasso escolar, diria: não é por causa da inconsistência do Outro que o professor não tenha uma resposta. A falta de resposta cria um complicador sério, dando muitas vezes margem ao espontaneismo. A escola é uma estrada, ela tem um fim, um lugar a se chegar e todo processo deve seguir uma direção. O professor pode dar uma resposta, o que é muito diferente de dar o “saber como fazer” ou o “saber como verdade”.
O filme “Sociedade dos Poetas Mortos” nos mostra um exemplo disso. Um professor que exerce certa função para os alunos, no sentido de provocar não só a transferência ao saber particular e o valor do subjetivo, mas que não sustentou as conseqüências dos seus atos. Ele foi expulso da escola, os alunos punidos e, entre tudo isso, uma passagem ao ato: o suicídio.
Na análise, por exemplo, não é porque um sujeito possa se servir da associação livre que seu tratamento deixe de ter uma direção. Se estamos nesse ponto de que o Outro não existe, a psicanálise se posiciona diferente desses encaminhamentos onde se visa modelos espontaneistas. A posição ética da psicanálise é a de que sejamos responsáveis pelo que fazemos. Se frente ao Outro que não existe não temos resposta, insisto: isso é um complicador, na medida em que cada um vá poder se autorizar de si mesmo ao que bem entende. O que a psicanálise diferencia nisso, e ai vai a minha questão, é que a resposta não tenha que ser dita nem com o saber ponto, nem com o espontaneismo, mas, como diz Lacan, com uma suposição.
Se esse “Outro que não existe” não puder ser questionado como lugar de saber suposto, corre-se o risco de um cinismo e isso traz um imenso perigo para qualquer processo. Um sujeito, principalmente uma criança, na posição de construção de saber, não suporta ficar à toa, à deriva. O lugar do professor é fundamental. A questão, nos diz Lacan:
“consiste em saber em que lugar é preciso está para fazer o sujeito sustentar esse saber•””. [2]
Penso que ao longo dos tempos a Pedagogia sempre trabalhou no sentido de encontrar uma saída com a intenção de oferecer formas de um melhor ensino e uma melhor aprendizagem. Ampliam-se conceitos, mudam-se outros. O alvo das tentativas de mudança tem sido geralmente o professor. Nos fins dos anos 60 tiram ele e o seu bureau de cima das plataformas, depois trocam seu nome para o de educador, na tentativa de tirar-lhe a pompa do saber todo. A medicina é chamada para criar as patologias escolares, assim ficaria mais fácil para a escola, pois o problema da insuficiência fica sob a responsabilidade da criança. As Universidades continuam fazendo pesquisas, mais formação, mais informação, mais estudo. Vira e mexe e a dificuldade continua. Hoje, o problema do fracasso escolar bate a porta dos consultórios dos psicanalistas. E há quem diga que bom seria se voltar ao modelo clássico. Outros criticam Vygostky por ter defendido a intervenção pedagógica.
Freud nos diz que há três missões impossíveis: governar, analisar e educar, impossível por que ele tinha a clareza do real do educar. Então, nessa perspectiva, o que a psicanálise pode oferecer como contribuição à Educação, sobretudo quando ela aparece como um fracasso para sustentar o desejo de saber, é um novo posicionamento diante do real do gozo de não querer saber, mas de não querer saber da ignorância.
A questão, dentro do meu ponto de vista, é a desconsideração que a educação tem com relação à ignorância. Para a ignorância a escola faz vista grossa, quando na verdade ela é um elemento real. Cito Lacan
“A ignorância, acabo de dizer, é uma paixão, não é para mim como uma menos valia, tampouco um déficit. É outra coisa, a ignorância está ligada ao saber”[3]
Podemos perguntar até que ponto um professor pode suportar essa condição de ignorância se o Outro da educação vocifera “saiba!” O gozo é isso, é o logotipo de um sujeito alienado, que sem desejo de saber, ignora a ignorância como arma contra o impossível do educar.
Talvez, antes de questionar porque o aluno não aprende, a saída do professor seja a de produzir um saber sobre o seu ato de educar. Ninguém tem a resposta de como fazer, o Outro não existe e é inútil pensar que os programas de qualificação bastam para inserir o professor no cerne da dificuldade da aprendizagem.
Outro aspecto que podemos destacar, como operador da aprendizagem, diz da possibilidade de uma virada nessa transferência que se estabelece entre professsor-aluno, pois ao invés dessa relação imaginária de um que ensina e outro que aprende, a transferência pode ser estabelecida como um ato de criação, onde a palavra não tenha um único sentido, que ela possa ir além, sustentar muitas funções e envolver muitos sentidos.
Na escola, em função da transferência, o professor pode dispor de um manejo onde o aluno possa sair de uma ação não pensada, para outra onde ele possa expressar melhor o seu pensamento. Como diz Vygotsky:
“tornar-se consciente de uma operação mental significa transformá-la do plano da ação para o pano da linguagem, isto é, recriá-la na imaginação de modo que possa ser expressa em palavras” [4]
A ação impulsiva de uma criança na escola não é sem intenções. O que ela deseja nessa intenção é saber de uma forma melhor o que está fazendo, só que num espaço mais elaborado (Mrech, 1980). Fracassar na escola pode ser uma forma de manifestar a falta de compreensão da ação dos outros sobre ela e nisso produzir um sofrimento, uma dificuldade, um sintoma especificamente escolar.
O fracasso não é da criança, nem do professor, ou do diretor em si, mas da estrutura escolar. A sua causa é da ordem de uma conjuntura onde todos nós estamos inseridos – a escola na civilização atual – naquilo que se tem de mais real: o gozo de não querer saber do desejo, o gozo de não querer saber da ignorância, da douta ignorância, lembrando aqui, mais uma vez, Lacan. Será que o fracasso não é uma denúncia de que diante da inexistência do Outro, há que haver uma nova invenção para barrar o gozo imaginário do mestre, que sem desejo, comanda o devoramento ao saber tudo para ser feliz e realizado? A ansiedade, a angústia, a preocupação de aprender, sintoma do estudante, cedeu lugar às depressões e ao inominável - o aprender parece sem sentido e sem lugar. O efeito disso é um gozo superegóico, devorador, que na falta de um referencial, produz atualmente um alheiamento, quero dizer, produz a falta de algo com valor significante que não esteja pronto, que não seja dado, para que simbolizações ou como nos diz Freud, para que sublimações sejam feitas.
Freud nos diz:
“Quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais fácil se reconciliarem com certos fatos do desenvolvimento infantil e, entre outras coisas, não correrão o risco de superestimar a importância das ulsões socialmente imprestáveis ou perversas que surgem nas crianças”[5]
É óbvio que um professor não vai poder dar conta de alguns predicados dos psicanalistas, mas por outro lado ele pode se dá ao privilégio de ensinar com perdas e nisso proporcionar um resto, um lugar vazio apto ao desejo, para que aí possa se operar uma transferência ao saber e consequentemente à aprendizagem.
O psicanalista em meio a toda essa estrutura deve apostar no professor como:
Primeiro: agente de sustentação e de criação para garantir, no sujeito infantil, a clareza de que o que fracassa não é ele, mas o que dele se pretenda atender aos ideais devoradores dessa cultura que exige a perfeição;
Segundo: agente do desejo de saber para que o aluno possa dizer: “você é aquele que me transmite, mas que ao fazer isso, me surpreende e me conduz ao novo”.

Referências Bibliográfica:

Barros, R. Conferência “O Inconsciente Hoje” , João Pessoa, março/2000
Freud, S – Artigos sobre a Metapsicologia, vol. XIV, Imago, Rio de Janeiro,, 1980
_____- O interesse Cientifico da Psicanálise, vol. XII, Imago, Rio de Janeiro, 1980
Lacan, J. - “O Saber Psicanalítico”, Seminário Mimeografado
_____ - ”Radiuofonia” (CEF do Recife), Seminário Mimeografado
Teixeira Lopes, E.M (org) –“A Psicanálise Escuta a Educação”, Autêntica, Belo Horizonte, 1998
Mrech, L. M – “Psicanálise Educação – Novos Operadores de Leitura”, Pioneira, São Paulo, 1999
1- Freud, S – Artigos sobre a Metapsicologia, vol. VIX, p. 195
2 – Lacan, J – O Saber Psicanalítico, seminário inédito, p. 26
[3] Idem, p. 10
[4] APUD Leny Magalhães Mrech. Psicanálise e Educação. Novos Operadores de leitura p. 65
[5] Freud, S – O Interesse da Psicanálise para as Ciências Não-Psicológicas, vol. XIII, p. 225