Fazer uma análise. A condição para se tornar analista é fazer uma psicanálise. Para isso, é preciso encontrar um analista. Ora, O psicanalista não existe. O que existe é um ato do qual somente os efeitos de só depois poderão legitimar se houve uma análise. A pergunta “como se torna analista?” deriva-se então em diferentes questões, como esta do testemunho exposto, que permite verificar a pertinência da decisão de funcionar como analista. Lacan formalizou um fim lógico da experiência que passa pelo testemunho do passe diante de um júri fechado. O tema das Jornadas que vocês escolheram demanda um testemunho pouco distante do passe, posto que se trata de expor seu próprio percurso, e da decisão tomada de ocupar o lugar da variável na função de psicanalista. Há como relançar a experiência, se os testemunhos forem efetivamente ordenados em sua diversidade.
O fato. O momento da instalação precede freqüentemente o momento lógico do fim da experiência. É um fato que o analista só se autoriza de si mesmo, mas, também de alguns outros e é também um fato numa Escola de Lacan.
Nunca parar de pôr o paradoxo a trabalhar. É preciso um psicanalista para fazer existir o inconsciente. E não há psicanálise sem psicanalista. Fazer existir o inconsciente depende do ato analítico.
A regulação do desejo na análise. Alguém se torna analista porque assim o deseja. Esse desejo pode datar de antes da análise – na adolescência, sim, como foi meu caso, onde a leitura de Freud fez acontecimento. Mas, isto não basta. Esse desejo se decide por acaso no decurso da análise. Ele se impõe como alternativa de uma escolha forçada (as únicas que contam): “isso, ou nada mais”. Tornamo-nos analistas quando estamos habitados pelo desejo de que a psicanálise não desapareça conosco - quando se decide que a experiência subjetiva da análise é de tal forma insólita, que vale a pena ser transmitida a outros.
Tirar as conseqüências radicais da inexistência do Outro- mas não por meio de fazer uma análise sem a presença real daquele que se dedica a fazer o analista. A psicanálise e os psicanalistas, isso faz dois, mas não por meio de fazer existir o Discurso Analítico sem psicanalista.
O que faz alguém analista é, in fine, uma vicissitude do sintoma- se a decisão está tomada, basta decifrar o querer-dizer do sintoma, e o que resta do querer gozar é suficientemente esvaziado para alojar a queixa de um outro. Em outras palavras, decidir de se fazer o parceiro de um outro sinthoma que não o seu, para que se complete o trajeto que vai do Outro ao outro (l’(a)utre).
Tornar-se analista e permanecer analista: relançar a aposta ética. Isso depende do ato para cada paciente, e a cada sessão. Isso implica em reinventar a análise com cada um, a fim de que os efeitos de verdade desencadeados pelo ato possam se construir em um saber singular que toque o real do sintoma. Isso implica em supervisões, e a retomada da análise, quando os restos ativos do sintoma disto necessitem.
Não parar de acreditar no inconsciente, e de se fazer responsável pelo sintoma. É saber que o real do inconsciente não pára nunca de engendrar seu próprio desconhecimento. Isso é verdade antes, durante e depois da análise. Tornamo-nos analistas quando consentimos com a ascese prescrita pela causa analítica, que prescreve se desfazer deste desconhecimento engendrado pelo real, e, portanto, de nunca estar desobrigado. É dar seu lugar ao inconsciente pós-analítico, e não somente para retomar um período de análise, mas também interpretar outras formações do inconsciente, se for necessário, como o fato de analisar a lógica do ato falho.
A Escola de Lacan. Tornar-se analista numa Escola de Lacan é decidir fazer-se responsável com outros da transmissão do Discurso analítico. Isso comporta passar pelo ensino de Freud, de Lacan, sem fetichisar seus conceitos. Quando a Coisa analítica não lhes deixa mais em paz, e que decidiu de fazer dela sua causa, e que ela impulsiona a reinventar a psicanálise, mas sem uma série de outros que tomaram a mesma decisão, e por razões similares.
A questão é atual, pois isto é necessário para que o discurso analítico não desapareça. Ora, para que a questão possa continuar a se colocar, é preciso que a psicanálise não seja decretada fora da lei pelo mestre que nos governa. Tornamo-nos analista quando temos a idéia de que o psicanalista é responsável por fazer existir o discurso analítico. Isso implica em analisar o mal-estar contemporâneo.
As XXXVIII Jornadas acontecerão nos próximos dias 7 e 8 de novembro em Paris, no Palais de Congrés
ECF 1 Rue Huysmans Paris 6éme. Tel. + 33 (0) 1 45 49 02 68
Para se inscrever acessar www.causefreudienne.org
Tradução: Elizabete Siqueira
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Bonita aposta
Judith Miller,Psicanalista.
Ponhamo-nos, nestas Jornadas, na hora da surpresa, sabendo que a maioria das decisões são vividas como demasiado tardias. Não é uma razão para não tomá-las.
Esta me permite saber por que o título destas Jornadas faziam com que me coçasse sem as cócegas. Sem dúvida, sou demasiada heideggeriana: o “se” mata a surpresa que remete a um caminho já traçado.
Felizmente, Jacques Lacan encontrou o espírito freudiano: a noção de caminho obrigado, de cursos e a da análise chamada didática, com seus aparatos de bens necessários e outras enfatuações. Ver o texto mordaz dos Escritos. Extrair dali, suas conseqüências.
Uma análise não está pré-programada, reserva surpresas.
Não há prejuízos, não há ideal, tampouco. O passe não é um, não prejulga nada, nem sequer não voltar ao trabalho de analisante, por um pequeno lance, aqui, ali.
A pergunta seria ao menos dupla. Quem é analisante, quem entra em análise atualmente e o que pode produzir-se aí? À primeira, numerosas respostas, caso por caso. Declino algumas que posso ver (sem saber nada disso).
- Estão os que crêem fazer uma análise e não o fazem, porque aquele que pretende permiti-la, não o permite. Não há análise sem analista. A questão se torna: haveria que demonstrar que o “ato” verifica que alguém teve o lugar de analista. O caso é que nem todos aqueles que querem fazer uma análise têm a oportunidade de encontrar esse alguém.
- Estão os que sofrem e que têm a coragem de não contentar-se com isso, de se colocarem ao trabalho analítico, o aprendem. Saboreiam seguramente e vão saborear ainda mais de outro modo, esse trabalho tem efeitos e não vejo porque os analistas se envergonhariam dizendo que são de cura, dado que em medicina que tem a ver com curar, um enfermo não deixa de ser por isso, menos mortal; a melhora, a satisfação de que se trata, não equivalem nem à serenidade, nem a alguma “normalidade”, nem a uma saúde mental, ...nem...nem.
- Estão os que tomam gosto por esse trabalho, que se transforma indispensável, fizeram bem em decidir-se, às vezes por necessidade estrutural, às vezes por debilidade (quando?), às vezes por outras vias.
- Outros consideram, em determinado momento, que terminaram, pode ser algo provisório ou definitivo, o que não implica por a trabalho seu inconsciente - ensinando, por exemplo - porém há outras maneiras a explicitar também, entre elas, depois de tudo, analisar os demais.
Não existe os que fazem uma análise por pura curiosidade intelectual, nem para encontrar seu caminho profissional, volta à casinha do começo.
- Estão os que não se decidem por se colocarem a trabalho de analisante. Estão equivocados? O equívoco, como cada um sabe, mata. Sem dúvida, entre eles, muitos cedem sobre seu desejo. Não todos, alguns se arranjam sem saber como. Medem as contingências que os têm permitido, os encontros, as ocasiões falhadas e aquelas exitosas.
- Se a psicanálise é preciosa hoje, é por ser intempestiva, por preservar-se das receitas, dos programas, por apreciar o inesperado e o anódino e por acolhê-los sem causar danos, por ter tato frente ao mais secreto, dando conta disso com justeza e por meio do detalhe singular. Racionalista de outro modo, termina sendo poética.
Encontrar as surpresas, bonita aposta. Não consolam nem evitam a vaidade do que constitui o sal da vida, um pequeno nada, decisivo. Em que?
Ponhamo-nos, nestas Jornadas, na hora da surpresa, sabendo que a maioria das decisões são vividas como demasiado tardias. Não é uma razão para não tomá-las.
Esta me permite saber por que o título destas Jornadas faziam com que me coçasse sem as cócegas. Sem dúvida, sou demasiada heideggeriana: o “se” mata a surpresa que remete a um caminho já traçado.
Felizmente, Jacques Lacan encontrou o espírito freudiano: a noção de caminho obrigado, de cursos e a da análise chamada didática, com seus aparatos de bens necessários e outras enfatuações. Ver o texto mordaz dos Escritos. Extrair dali, suas conseqüências.
Uma análise não está pré-programada, reserva surpresas.
Não há prejuízos, não há ideal, tampouco. O passe não é um, não prejulga nada, nem sequer não voltar ao trabalho de analisante, por um pequeno lance, aqui, ali.
A pergunta seria ao menos dupla. Quem é analisante, quem entra em análise atualmente e o que pode produzir-se aí? À primeira, numerosas respostas, caso por caso. Declino algumas que posso ver (sem saber nada disso).
- Estão os que crêem fazer uma análise e não o fazem, porque aquele que pretende permiti-la, não o permite. Não há análise sem analista. A questão se torna: haveria que demonstrar que o “ato” verifica que alguém teve o lugar de analista. O caso é que nem todos aqueles que querem fazer uma análise têm a oportunidade de encontrar esse alguém.
- Estão os que sofrem e que têm a coragem de não contentar-se com isso, de se colocarem ao trabalho analítico, o aprendem. Saboreiam seguramente e vão saborear ainda mais de outro modo, esse trabalho tem efeitos e não vejo porque os analistas se envergonhariam dizendo que são de cura, dado que em medicina que tem a ver com curar, um enfermo não deixa de ser por isso, menos mortal; a melhora, a satisfação de que se trata, não equivalem nem à serenidade, nem a alguma “normalidade”, nem a uma saúde mental, ...nem...nem.
- Estão os que tomam gosto por esse trabalho, que se transforma indispensável, fizeram bem em decidir-se, às vezes por necessidade estrutural, às vezes por debilidade (quando?), às vezes por outras vias.
- Outros consideram, em determinado momento, que terminaram, pode ser algo provisório ou definitivo, o que não implica por a trabalho seu inconsciente - ensinando, por exemplo - porém há outras maneiras a explicitar também, entre elas, depois de tudo, analisar os demais.
Não existe os que fazem uma análise por pura curiosidade intelectual, nem para encontrar seu caminho profissional, volta à casinha do começo.
- Estão os que não se decidem por se colocarem a trabalho de analisante. Estão equivocados? O equívoco, como cada um sabe, mata. Sem dúvida, entre eles, muitos cedem sobre seu desejo. Não todos, alguns se arranjam sem saber como. Medem as contingências que os têm permitido, os encontros, as ocasiões falhadas e aquelas exitosas.
- Se a psicanálise é preciosa hoje, é por ser intempestiva, por preservar-se das receitas, dos programas, por apreciar o inesperado e o anódino e por acolhê-los sem causar danos, por ter tato frente ao mais secreto, dando conta disso com justeza e por meio do detalhe singular. Racionalista de outro modo, termina sendo poética.
Encontrar as surpresas, bonita aposta. Não consolam nem evitam a vaidade do que constitui o sal da vida, um pequeno nada, decisivo. Em que?
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Algumas considerações de Laurent
Zaeth Aguiar do Nascimento – Correspondente da Delegação Paraíba da EBP
Laurent aponta-nos as características da subjetividade contemporânea e nesta “percebe-se claramente que o declínio do ideal se acompanha das exigências do gozo”. Permeando a subjetividade contemporânea apresentam-se o hedonismo de massa e o fetichismo da mercadoria generalizada.
Neste sentido, constatamos que o hedonismo de massa que caracteriza o momento atual da civilização é responsável pelo desaparecimento da particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo remete ao acesso ao gozo “para todos”. Laurent acrescenta os dois tipos de relação com o gozo: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma e indica-nos um outro aspecto da experiência de gozo que se diferencia da overdose, que é a experiência do todo e que seria a alloverdose implicando um gozo ilimitado, o todo. Se contrapondo a esta versão do gozo, “respondem os pequenos furos particulares de cada sujeito liberado da tirania de gozar de “tudo” (p. 173)”. Miller (Curso de Orientação Lacaniana, curso 20; ano 2003-2004 – inédito) indica-nos a que ponto a tirania do objeto a na atual civilização é uma tirania que não tem mais laço com a singularidade de cada sujeito, por isto se chama de tirania.
Diante deste quadro da civilização, voltamos a nos questionar qual a ação do analista? Laurent indica-nos que o analista “não pode pretender aliviar o sujeito contemporâneo de sua culpa em relação ao ideal”, pois o sujeito contemporâneo já está aliviado (ele é um sujeito light) e que “o importante não é o aparente alívio do sujeito, mas o peso de sua relação com o gozo” (p. 171). Neste sentido, cabe ao analista, no que diz respeito ao gozo, “reenviar o sujeito à sua particularidade” (p. 172) que diz respeito ao sintoma. O programa de ação do analista na civilização atual é fazer acreditar no sintoma que remete ao singular.
Outra ação do analista na civilização do lugar da psicanálise hoje, diz respeito ao que Laurent denomina de “analista-cidadão”. Desta forma, resta ao analista praticar a psicanálise na cidade, sair da posição de analista intelectual, “Há que se passar do analista reservado, (..) a um analista que participa, (...) sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora” (Laurent, 2007, p. 143).
Laurent aponta-nos as características da subjetividade contemporânea e nesta “percebe-se claramente que o declínio do ideal se acompanha das exigências do gozo”. Permeando a subjetividade contemporânea apresentam-se o hedonismo de massa e o fetichismo da mercadoria generalizada.
Neste sentido, constatamos que o hedonismo de massa que caracteriza o momento atual da civilização é responsável pelo desaparecimento da particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo remete ao acesso ao gozo “para todos”. Laurent acrescenta os dois tipos de relação com o gozo: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma e indica-nos um outro aspecto da experiência de gozo que se diferencia da overdose, que é a experiência do todo e que seria a alloverdose implicando um gozo ilimitado, o todo. Se contrapondo a esta versão do gozo, “respondem os pequenos furos particulares de cada sujeito liberado da tirania de gozar de “tudo” (p. 173)”. Miller (Curso de Orientação Lacaniana, curso 20; ano 2003-2004 – inédito) indica-nos a que ponto a tirania do objeto a na atual civilização é uma tirania que não tem mais laço com a singularidade de cada sujeito, por isto se chama de tirania.
Diante deste quadro da civilização, voltamos a nos questionar qual a ação do analista? Laurent indica-nos que o analista “não pode pretender aliviar o sujeito contemporâneo de sua culpa em relação ao ideal”, pois o sujeito contemporâneo já está aliviado (ele é um sujeito light) e que “o importante não é o aparente alívio do sujeito, mas o peso de sua relação com o gozo” (p. 171). Neste sentido, cabe ao analista, no que diz respeito ao gozo, “reenviar o sujeito à sua particularidade” (p. 172) que diz respeito ao sintoma. O programa de ação do analista na civilização atual é fazer acreditar no sintoma que remete ao singular.
Outra ação do analista na civilização do lugar da psicanálise hoje, diz respeito ao que Laurent denomina de “analista-cidadão”. Desta forma, resta ao analista praticar a psicanálise na cidade, sair da posição de analista intelectual, “Há que se passar do analista reservado, (..) a um analista que participa, (...) sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora” (Laurent, 2007, p. 143).
terça-feira, 14 de julho de 2009
O sintoma – acontecimento de corpo
Iordan Gurgel, Psiquiatra; Analista Membro da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola Brasileira de Psicanálise
O corpo é inconveniente, é um conflito: inicialmente é desgarrado e só encontra unidade através da imagem validada pelo Outro. Ele não está constituído de entrada; é com a incorporação da linguagem que é concebido. A entrada do significante negativiza o gozo primeiro, original, real que reinava antes da linguagem (Lacan em Radiofonia, 1970). A ação do significante torna o corpo um deserto, um vazio de gozo. Impõe-se então a incorporação da libido que acontece nos orifícios (ditas zonas erógenas) e envolve o corpo, com a função de recuperar no exterior do corpo o gozo perdido no seu interior. Em conseqüência, esta disposição pulsional, determina os objetos libidinais separados do corpo: o seio, as fezes, o olhar, a voz (semblantes do objeto a).
O primeiro período do ensino de Lacan sobre o sintoma, é o de retorno a Freud, onde prevalece a sobredeterminação simbólica e é conseqüente à noção do inconsciente estruturado como uma linguagem. O sintoma é um significante; é uma metáfora – expressão subjetiva do poder da palavra sobre o corpo; é uma mensagem enigmática que o sujeito toma como vinda do real e não dele próprio. A condição de mensagem é graças ao artifício da experiência analítica que introduz seu operador, o Sujeito suposto Saber. Sem ele, o sintoma não diz nada a ninguém. Neste período, a relação ao corpo é dada pelo imaginário, depósito de gozo.
O segundo período, que começa em 1964 (Os quatros conceitos da psicanálise), corresponde à articulação realizada entre sintoma e fantasma; prevalece o objeto a e sua articulação com o Real – entre sintoma e gozo. Coloca em evidência a pulsão e a modulação do sintoma pela repetição e satisfação. A vinculação do sintoma ao corpo é através do fantasma, cujo complemento corporal, em sua fórmula, é dado pelo objeto a.
O último ensino de Lacan é marcado pela relação do sintoma à letra, como irredutível. O inconsciente como um saber cifrado, cujo exercício é o gozo. Se o fantasma é o que recobre a falta no Outro, encontra um limite no sintoma, que é índice do fracasso do fantasma e um modo de tratar a falta. O sintoma é tomado como signo (como uma versão significante), e com uma versão letra (produtora de gozo). Há um limite da psicanálise em articular o fora do sentido da letra com o significante que lhe dê sentido.
Nos três momentos distintos do ensino de Lacan, observamos que o sintoma sempre está articulado ao corpo e o que varia é o conceito de conexão: metáfora, gozo e letra.
Neste percurso, o sintoma passa do modelo de mensagem – versão freudiana do sintoma como mensagem a decifrar, compatível com a noção lacaniana do inconsciente estruturado como uma linguagem – à modalidade de gozo do sujeito – sintoma-letra que é imune a eficácia simbólica (é a passagem da lingüística para a topologia).
No seminário (XXIII, 1975/6) O sinthoma, a teoria do nó borromeu é reforçada – entendida como a estrutura essencial do sujeito – que tem no sinthoma o quarto nó que enlaça o RSI (e sempre ameaça desfazer-se). Esta concepção é o que permite ao sujeito viver, já que organiza um modo particular de gozar. Agora o sintoma é colocado no centro da clínica e já não se faz a diferença entre o sintoma e o fantasma – é a política da recusa do sentido , a política do real, correlativo ao conceito de falasser – termo que tão bem resolve a dicotomia corpo-significante.
Tomar o sintoma como acontecimento de corpo pressupõe os efeitos do discurso que afeta o corpo e deixa marcas indeléveis. O sujeito sintomatiza, não se reconhece aí; portanto, não se identifica ao sintoma. Esta característica é que faz o corpo falar – propriedade do homem, o falasser – e por outro lado, cria a disfunção, da qual o sujeito pode se queixar. Tratar então do corpo, implica a assunção da história do sujeito, marcada pela contingência.
Fragmento do texto "O SINTHOMA COCA COLA" apresentado na XVI Jornada Clínica da EBP-RJ , 2005
O corpo é inconveniente, é um conflito: inicialmente é desgarrado e só encontra unidade através da imagem validada pelo Outro. Ele não está constituído de entrada; é com a incorporação da linguagem que é concebido. A entrada do significante negativiza o gozo primeiro, original, real que reinava antes da linguagem (Lacan em Radiofonia, 1970). A ação do significante torna o corpo um deserto, um vazio de gozo. Impõe-se então a incorporação da libido que acontece nos orifícios (ditas zonas erógenas) e envolve o corpo, com a função de recuperar no exterior do corpo o gozo perdido no seu interior. Em conseqüência, esta disposição pulsional, determina os objetos libidinais separados do corpo: o seio, as fezes, o olhar, a voz (semblantes do objeto a).
O primeiro período do ensino de Lacan sobre o sintoma, é o de retorno a Freud, onde prevalece a sobredeterminação simbólica e é conseqüente à noção do inconsciente estruturado como uma linguagem. O sintoma é um significante; é uma metáfora – expressão subjetiva do poder da palavra sobre o corpo; é uma mensagem enigmática que o sujeito toma como vinda do real e não dele próprio. A condição de mensagem é graças ao artifício da experiência analítica que introduz seu operador, o Sujeito suposto Saber. Sem ele, o sintoma não diz nada a ninguém. Neste período, a relação ao corpo é dada pelo imaginário, depósito de gozo.
O segundo período, que começa em 1964 (Os quatros conceitos da psicanálise), corresponde à articulação realizada entre sintoma e fantasma; prevalece o objeto a e sua articulação com o Real – entre sintoma e gozo. Coloca em evidência a pulsão e a modulação do sintoma pela repetição e satisfação. A vinculação do sintoma ao corpo é através do fantasma, cujo complemento corporal, em sua fórmula, é dado pelo objeto a.
O último ensino de Lacan é marcado pela relação do sintoma à letra, como irredutível. O inconsciente como um saber cifrado, cujo exercício é o gozo. Se o fantasma é o que recobre a falta no Outro, encontra um limite no sintoma, que é índice do fracasso do fantasma e um modo de tratar a falta. O sintoma é tomado como signo (como uma versão significante), e com uma versão letra (produtora de gozo). Há um limite da psicanálise em articular o fora do sentido da letra com o significante que lhe dê sentido.
Nos três momentos distintos do ensino de Lacan, observamos que o sintoma sempre está articulado ao corpo e o que varia é o conceito de conexão: metáfora, gozo e letra.
Neste percurso, o sintoma passa do modelo de mensagem – versão freudiana do sintoma como mensagem a decifrar, compatível com a noção lacaniana do inconsciente estruturado como uma linguagem – à modalidade de gozo do sujeito – sintoma-letra que é imune a eficácia simbólica (é a passagem da lingüística para a topologia).
No seminário (XXIII, 1975/6) O sinthoma, a teoria do nó borromeu é reforçada – entendida como a estrutura essencial do sujeito – que tem no sinthoma o quarto nó que enlaça o RSI (e sempre ameaça desfazer-se). Esta concepção é o que permite ao sujeito viver, já que organiza um modo particular de gozar. Agora o sintoma é colocado no centro da clínica e já não se faz a diferença entre o sintoma e o fantasma – é a política da recusa do sentido , a política do real, correlativo ao conceito de falasser – termo que tão bem resolve a dicotomia corpo-significante.
Tomar o sintoma como acontecimento de corpo pressupõe os efeitos do discurso que afeta o corpo e deixa marcas indeléveis. O sujeito sintomatiza, não se reconhece aí; portanto, não se identifica ao sintoma. Esta característica é que faz o corpo falar – propriedade do homem, o falasser – e por outro lado, cria a disfunção, da qual o sujeito pode se queixar. Tratar então do corpo, implica a assunção da história do sujeito, marcada pela contingência.
Fragmento do texto "O SINTHOMA COCA COLA" apresentado na XVI Jornada Clínica da EBP-RJ , 2005
domingo, 28 de junho de 2009
“Traço de espírito”
Maria Cristina de Távora Sparano
ProfªDrªdo Departamento de Filosofia e profª do Mestrado em Ética e Epistemologia da Universidade Federal do Piauí-UFPI
A análise do filme “Um homem bom” (Good) teve como foco a conexão filosofia e psicanálise.
A ação do filme tem como cenário a Alemanha nazista e a ascensão nacionalista dos ideais de Hitler, principalmente em relação à raça ariana e à perseguição aos judeus. A personagem principal, John Halder tem como “traço de espírito” (a witz freudiana, no dizer de Lacan) - o engano – porém, com a particularidade de não causar o riso como no chiste, mas o espanto, pois a ação é dramática e não cômica.
Halder se enreda em situações inesperadas e inusitadas, é tomado por elas, deixando-se levar no limite do patético. Um exemplo disso, no filme, é o tema do romance que Halder escreveu como obra de ficção onde a personagem “por amor” a quem sofre recorre à eutanásia. O elogio a essa prática é aproveitado pela propaganda nazista e Halder ofuscado por ela, cede, ele mesmo é objeto do chiste.
Em filosofia, atitudes como as de Halder são analisadas à luz da razão e é por esse ponto de vista que podem ser criticadas. A racionalidade diz da impossibilidade de nossas ações serem incoerentes, i. é, as ações são o resultado de uma conduta racional e de acordo com princípios do conhecimento. Não posso agir contra aquilo que sei que é o melhor. Essa é uma postura ética e tem na ética aristotélica sua melhor dimensão. Na Ética a Nicômaco, texto de Aristóteles dedicado à Ética, temos os princípios de uma ética finalista que se convencionou chamar de “ética do bem”. No entanto, nesse mesmo texto, mais precisamente no cap. VII, Aristóteles fala de uma situação em que o homem é negligente com o fim de suas ações. Essa situação tem por nome “acrasia”. Ações acráticas são tidas como ações de incontinência moral ou concupiscência. Nos velhos termos de nossas avós são fruto de “fraqueza de vontade”, pois uma vontade forte, um caráter forte, não se deixa se levar pelas situações contingentes da vida, mesmo sendo convenientes ou inevitáveis. Essa conveniência é a isca que suborna um homem “fraco de vontade”. Halder é assim, sabe o que é bom e justo, mas é levado pela situação. Não resta dúvida que se atormenta um pouco, mas não acredita nas evidências, como a perseguição nazista aos judeus. Sua crença é verdadeira. O limite entre a verdade e o engano o leva ao auto-engano. No entanto, isso não o livra da angustia e se refugia, toda vez que é tomado por ela, na fantasia e então, ouve uma música, Mahler...
Freud na conferência 31 (1932) fala da “crise do eu” onde se evidencia a divisão da estrutura psíquica em: eu, super eu e isso. O centro da personalidade psíquica é o eu erguido como anteparo diante da morte e da finitude. O eu é aquela instância que tem como antítese o outro, que pode ser até ele mesmo. Assim, o eu pode ser o observador, mas também o observado quando tomado como objeto. A consciência moral tem essa função observadora e regula as ações do eu, vulgarmente chamado de super eu. Já os instintos do eu, a parte inacessível da personalidade, que não conhece nem o bem nem o mal, nem o justo nem o injusto estão presentes no conflito e na divisão da personalidade, são as forças do isso.
Freud diz que o eu obedece a três senhores: o mundo externo, o super eu ou consciência moral e ao isso. Assim também é Halder, submetido às circunstâncias da história (nazismo), às circunstâncias de sua própria história pessoal, a seus ideais e a seus impulsos mais básicos. Ao tentar agradar aos três senhores, só tem uma saída, a angústia e a fantasia.
A abertura ao inconsciente é o que Lacan chama de “traço de espírito” e que se revela nas ações da personagem quando este se engana diante das situações incontroláveis de sua vida. É uma possibilidade para a assunção do sujeito, do sujeito do inconsciente. Como ensina Freud, na mesma conferência: Wo es war soll ich werden*
* onde o isso era o eu pode advir
ProfªDrªdo Departamento de Filosofia e profª do Mestrado em Ética e Epistemologia da Universidade Federal do Piauí-UFPI
A análise do filme “Um homem bom” (Good) teve como foco a conexão filosofia e psicanálise.
A ação do filme tem como cenário a Alemanha nazista e a ascensão nacionalista dos ideais de Hitler, principalmente em relação à raça ariana e à perseguição aos judeus. A personagem principal, John Halder tem como “traço de espírito” (a witz freudiana, no dizer de Lacan) - o engano – porém, com a particularidade de não causar o riso como no chiste, mas o espanto, pois a ação é dramática e não cômica.
Halder se enreda em situações inesperadas e inusitadas, é tomado por elas, deixando-se levar no limite do patético. Um exemplo disso, no filme, é o tema do romance que Halder escreveu como obra de ficção onde a personagem “por amor” a quem sofre recorre à eutanásia. O elogio a essa prática é aproveitado pela propaganda nazista e Halder ofuscado por ela, cede, ele mesmo é objeto do chiste.
Em filosofia, atitudes como as de Halder são analisadas à luz da razão e é por esse ponto de vista que podem ser criticadas. A racionalidade diz da impossibilidade de nossas ações serem incoerentes, i. é, as ações são o resultado de uma conduta racional e de acordo com princípios do conhecimento. Não posso agir contra aquilo que sei que é o melhor. Essa é uma postura ética e tem na ética aristotélica sua melhor dimensão. Na Ética a Nicômaco, texto de Aristóteles dedicado à Ética, temos os princípios de uma ética finalista que se convencionou chamar de “ética do bem”. No entanto, nesse mesmo texto, mais precisamente no cap. VII, Aristóteles fala de uma situação em que o homem é negligente com o fim de suas ações. Essa situação tem por nome “acrasia”. Ações acráticas são tidas como ações de incontinência moral ou concupiscência. Nos velhos termos de nossas avós são fruto de “fraqueza de vontade”, pois uma vontade forte, um caráter forte, não se deixa se levar pelas situações contingentes da vida, mesmo sendo convenientes ou inevitáveis. Essa conveniência é a isca que suborna um homem “fraco de vontade”. Halder é assim, sabe o que é bom e justo, mas é levado pela situação. Não resta dúvida que se atormenta um pouco, mas não acredita nas evidências, como a perseguição nazista aos judeus. Sua crença é verdadeira. O limite entre a verdade e o engano o leva ao auto-engano. No entanto, isso não o livra da angustia e se refugia, toda vez que é tomado por ela, na fantasia e então, ouve uma música, Mahler...
Freud na conferência 31 (1932) fala da “crise do eu” onde se evidencia a divisão da estrutura psíquica em: eu, super eu e isso. O centro da personalidade psíquica é o eu erguido como anteparo diante da morte e da finitude. O eu é aquela instância que tem como antítese o outro, que pode ser até ele mesmo. Assim, o eu pode ser o observador, mas também o observado quando tomado como objeto. A consciência moral tem essa função observadora e regula as ações do eu, vulgarmente chamado de super eu. Já os instintos do eu, a parte inacessível da personalidade, que não conhece nem o bem nem o mal, nem o justo nem o injusto estão presentes no conflito e na divisão da personalidade, são as forças do isso.
Freud diz que o eu obedece a três senhores: o mundo externo, o super eu ou consciência moral e ao isso. Assim também é Halder, submetido às circunstâncias da história (nazismo), às circunstâncias de sua própria história pessoal, a seus ideais e a seus impulsos mais básicos. Ao tentar agradar aos três senhores, só tem uma saída, a angústia e a fantasia.
A abertura ao inconsciente é o que Lacan chama de “traço de espírito” e que se revela nas ações da personagem quando este se engana diante das situações incontroláveis de sua vida. É uma possibilidade para a assunção do sujeito, do sujeito do inconsciente. Como ensina Freud, na mesma conferência: Wo es war soll ich werden*
* onde o isso era o eu pode advir
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Obama: Mestiço e hermafrodita, tem melhor?
por Jacques-Alain Miller
Como o senhor explica a Obamania ?
Pelo fato de Bush ter se tornado um objeto fóbico. Depois do diabólico Nixon do Watergate, a América já havia se entregado a um bom menino que plantava amendoins, Jimmy Carter. Bush fez muito pior que Nixon, instalou-se, com grande prazer, no papel de "inimigo do gênero humano": recusa do protocolo de Kyoto, desprezo pelas instituições internacionais, política de guerra preventiva, direito de torturar, culto da força, chauvinismo, etc. Cheney, seu vice-presidente, foi apelidado de "Darth Vader". O duo conseguiu fazer dos USA o novo “Império do Mal”. Obama é para os americanos a redenção. A bondade em cartaz. Escuta, consenso, respeito ao outro, às diferenças, aos pobres, aos fracos, “todo mundo: ele é bonito, ele é gentil”.
Sim, mas a fascinação por Obama vai além dos Estados-Unidos, é um fenômeno planetário.
Porque os Estados Unidos é a única potência planetária que resta. A Bushfobia era mundial e inverteu-se logicamente em Obamania universal. Obama é o homem-espelho do Universo, "o homem-microcosmo", como se dizia no Renascimento, aquele que representa o mundo em sua diversidade, que reconcilia, em sua pessoa, as raças e os sexos: ele é africano, é americano, é negro, é branco, é homem, mas, ao mesmo tempo bem na moda, muito manequim, feminino, esguio, fluido, "um gato", o contrário de um McCain, deficiente, confuso, remendado, cabeça quente, uma cara mutilada, ostentando uma virilidade agressiva que já estava pura e simplesmente desgastada. Mestiço e hermafrodita, tem melhor?
Com a Obamania não se está mais na rubrica política: fala-se de “esperança”, evoca-se “milagres”, comparam seu “Yes we can” com o “Não tenham medo” de João-Paulo II.
Com efeito, Obama sabiamente cultivou uma imagem de salvador e de redentor do mundo que ele prometeu – vejam bem – “curar” e “mudar”. Sua genialidade foi não recuar diante da maluquice e ir buscar, sem vergonha nem hesitação, no estoque dos mais antigos mitos, as mais antigas crenças da humanidade. E isso funciona, mesmo na idade da ciência, mesmo quando se crê não mais acreditar nisso. Ao mesmo tempo, sua campanha usava com mestria as mais recentes tecnologias. Representou cientemente o Messias, modernizando o papel com a ajuda de uma retórica completamente hollywoodiana: ele fala como num filme.
Obama é atualmente o homem mais amado do planeta. Mas já se diz que a decepção é inevitável e será à altura desse amor.
Isso é política água com açúcar. Obama fez carreira em Chicago, onde os melosos não duram muito tempo. Tudo indica que ele, pelo menos, não se toma por Obama. Seu primeiro recruta?, seu chapa, um outro de Chicago, Rahm Emanuel, que será seu verdadeiro número 2: um celerado hiper-eficaz, que não livra a cara de ninguém. Ele irá se agitar nos bastidores enquanto, em cena, nosso São João Boca de Ouro nos cantará cantigas de ninar.
Tradução: Vera A. Ribeiro
Revisão: Sérgio Laia.
Como o senhor explica a Obamania ?
Pelo fato de Bush ter se tornado um objeto fóbico. Depois do diabólico Nixon do Watergate, a América já havia se entregado a um bom menino que plantava amendoins, Jimmy Carter. Bush fez muito pior que Nixon, instalou-se, com grande prazer, no papel de "inimigo do gênero humano": recusa do protocolo de Kyoto, desprezo pelas instituições internacionais, política de guerra preventiva, direito de torturar, culto da força, chauvinismo, etc. Cheney, seu vice-presidente, foi apelidado de "Darth Vader". O duo conseguiu fazer dos USA o novo “Império do Mal”. Obama é para os americanos a redenção. A bondade em cartaz. Escuta, consenso, respeito ao outro, às diferenças, aos pobres, aos fracos, “todo mundo: ele é bonito, ele é gentil”.
Sim, mas a fascinação por Obama vai além dos Estados-Unidos, é um fenômeno planetário.
Porque os Estados Unidos é a única potência planetária que resta. A Bushfobia era mundial e inverteu-se logicamente em Obamania universal. Obama é o homem-espelho do Universo, "o homem-microcosmo", como se dizia no Renascimento, aquele que representa o mundo em sua diversidade, que reconcilia, em sua pessoa, as raças e os sexos: ele é africano, é americano, é negro, é branco, é homem, mas, ao mesmo tempo bem na moda, muito manequim, feminino, esguio, fluido, "um gato", o contrário de um McCain, deficiente, confuso, remendado, cabeça quente, uma cara mutilada, ostentando uma virilidade agressiva que já estava pura e simplesmente desgastada. Mestiço e hermafrodita, tem melhor?
Com a Obamania não se está mais na rubrica política: fala-se de “esperança”, evoca-se “milagres”, comparam seu “Yes we can” com o “Não tenham medo” de João-Paulo II.
Com efeito, Obama sabiamente cultivou uma imagem de salvador e de redentor do mundo que ele prometeu – vejam bem – “curar” e “mudar”. Sua genialidade foi não recuar diante da maluquice e ir buscar, sem vergonha nem hesitação, no estoque dos mais antigos mitos, as mais antigas crenças da humanidade. E isso funciona, mesmo na idade da ciência, mesmo quando se crê não mais acreditar nisso. Ao mesmo tempo, sua campanha usava com mestria as mais recentes tecnologias. Representou cientemente o Messias, modernizando o papel com a ajuda de uma retórica completamente hollywoodiana: ele fala como num filme.
Obama é atualmente o homem mais amado do planeta. Mas já se diz que a decepção é inevitável e será à altura desse amor.
Isso é política água com açúcar. Obama fez carreira em Chicago, onde os melosos não duram muito tempo. Tudo indica que ele, pelo menos, não se toma por Obama. Seu primeiro recruta?, seu chapa, um outro de Chicago, Rahm Emanuel, que será seu verdadeiro número 2: um celerado hiper-eficaz, que não livra a cara de ninguém. Ele irá se agitar nos bastidores enquanto, em cena, nosso São João Boca de Ouro nos cantará cantigas de ninar.
Tradução: Vera A. Ribeiro
Revisão: Sérgio Laia.
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