quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Luta contra a regulamentação da Psicanálise
Aqueles que se interessam sobre a luta contra a regulamentação da psicanálise, encontrarão no site da EBP, no link http://www.ebp.org.br/contra_regulamentacao.html , um texto de Samyra Assad e outros links referentes ao assunto.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Curso: Experiência Psicanalítica e Saúde Mental

Datas:27-28/08; 24-25/09; 22-23/10; 05-06/11
Periodicidade: mensal
Duração: 4 meses
Local: Sede do CEPP
Valor do curso: inscrição + 4 parcelas de R$ 150,00
Inscrições R$ 150,00
Aderentes terão 50% de desconto
Vagas limitadas
FICHA DE INSCRIÇÃO:

Curso: Experiência Psicanalítica e Saúde Mental
Nome completo: _____________________________________
Endereço:__________________________________________
CEP: _______________Cidade: _______________UF_____
Telefones:_______________celular:__________________
E-mail:___________________________________________
Profissão:_______________________________________
Categoria:
( ) Membros e Aderentes
( ) Não Aderentes
Banco do Brasil
Agência: 4708-2
Conta Corrente: 7.671-6
Em nome de: Maria Lídia M. Noronha Pessoa
Enviar ficha de inscrição junto com fotocópia do comprovante de depósito para o e-mail: cepp.teresina@gmail.com
Observações: Serão aceitas somente inscrições com depósito bancário direto no caixa e concluída com o envio para o e-mail do CEPP, constando ficha de inscrição e comprovante de pagamento.
Valor do curso: inscrição + 4 parcelas de R$ 150,00
Vagas limitadas
segunda-feira, 7 de junho de 2010
"A invenção do delírio", in El saber delirante. Buenos Aires: Paidós, 2009. [Colección del Instituto Clínico de Buenos Aires]
Miller, Jacques-Alain.
Trata-se de uma conferência sobre o tema “Delírio e fenômeno elementar”, desenvolvida no Seminario-Coloquio de la Sección Clínica de Buenos Aires em 1995. Esta resenha recorta as principais articulações do autor que contemplam o tema do XVIII Encontro Brasileiro.
O delírio é um discurso articulado – esta fórmula pode ser depreendida do ensino de Lacan, segundo Miller. Por ser uma combinação de elementos, é possível destacar no conjunto do discurso delirante os elementos mínimos e primeiros que serviram de base para a construção, desenvolvimento e elaboração do delírio. Assim, o fenômeno elementar e o delírio são considerados como "elementos comuns a todo ser falante", e é uma maneira de generalizar o conceito de delírio. Como todo "eu" é delirante, "um delírio pode ser considerado como um realce do que cada um traz em si" (p.81), propondo a escrita deliryo, no idioma espanhol.
O binômio fenômeno elementar-delírio é aqui explorado, desde a lógica matemática, ao considerar os fenômenos elementares funcionando como axiomas de partida para o discurso demonstrativo, e desde a psiquiatria, quando Miller recupera De Clérambault e as articulações de Lacan sobre este binômio em vários momentos de seu ensino.
O delírio tem a mesma estrutura que o fenômeno elementar, como acontece com a folha em relação à planta: ela tem os mesmos traços de estrutura da planta a que ela pertence. Esta metáfora é utilizada por Lacan no texto "A direção do tratamento e os princípios de seu poder" (Escritos). Ao analisar o sonho da "Bela Açougueira", ele demonstra que este sonho, de uma histérica, é capaz de indicar "toda a planta da histeria", ou seja, o conjunto da neurose está presente numa formação do inconsciente, num único elemento. Então, a formação do inconsciente está para a neurose como o fenômeno elementar está para a psicose. É possível apropriar-se da estrutura mediante uma boa extração de um fragmento.
"O fenômeno elementar está estruturado e sua estrutura é a da linguagem, tal como a do delírio. Em geral, se pode dizer que o delírio é um fenômeno elementar e que o fenômeno elementar é um delírio, já que ambos estão estruturados como uma linguagem." (p.88)
Seguindo Lacan, Miller aproxima mais um binômio: alucinação-interpretação. Apesar das diferenças fenomenológicas, pelo viés da estrutura da linguagem, uma alucinação verbal responde a esta mesma estrutura; por isso, nesse nível, a diferença pouco importaria, uma vez que a estrutura de linguagem está presente tanto na alucinação como na interpretação. No texto “Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a ‘Verneinung’ de Freud” (Escritos), Lacan sustenta, num outro nível, a distinção entre elas com os exemplos do Homem dos Lobos e do Homem dos Miolos Frescos: no primeiro, a falta de um significante na estrutura do sujeito faz com que o foracluído retorne no real, enquanto que, no segundo, um exemplo de acting out, a falta de um significante na interpretação do analista faz com que surja na conduta do sujeito aquilo que ele não pode entender, “a recusa de uma relação oral não simbolizada que retorna como se fosse uma alucinação” (p.89). Miller, cuidadosamente, conclui: “quase podemos supor que há uma foraclusão”.
Penso que estes exemplos generalizam a foraclusão, que em cada caso, em princípio, seria possível identificar o foracluído, porque em algum nível ele retorna. A título de observação, remeto ao próprio Miller em seu Seminário Los signos del goce (1986-1987), pois lá ele também trabalha estes dois exemplos, junto com Schreber, depois de propor a foraclusão generalizada, nome do capítulo XXII, localizando em cada caso o que está foracluído e de que maneira acontece este retorno.
Para concluir, a formulação de que todo saber é delírio e que todo delírio é um saber, é baseada na concepção do significante. S1 é sempre elementar, ou seja, “não sabe o que significa”, sua significação somente pode surgir com S2, interpretando-o. “Escutando repetir o que afirma Lacan sobre o interessante da invenção de saber, o psicótico se apresentaria como o delirante que não retrocede diante da elaboração de saber, com o elemento de delírio que sempre há nesta invenção” (p.94). O neurótico tem em si o S2 de que necessita, ele sabe o que dizer. “Por que não traduzir desta forma a foraclusão do Nome do Pai, a foraclusão deste S2 que permite ao neurótico decifrar tudo sem perplexidade?” (p.96)
Carmen Silvia Cervelatti
AMP-EBP (SP)
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
Trata-se de uma conferência sobre o tema “Delírio e fenômeno elementar”, desenvolvida no Seminario-Coloquio de la Sección Clínica de Buenos Aires em 1995. Esta resenha recorta as principais articulações do autor que contemplam o tema do XVIII Encontro Brasileiro.
O delírio é um discurso articulado – esta fórmula pode ser depreendida do ensino de Lacan, segundo Miller. Por ser uma combinação de elementos, é possível destacar no conjunto do discurso delirante os elementos mínimos e primeiros que serviram de base para a construção, desenvolvimento e elaboração do delírio. Assim, o fenômeno elementar e o delírio são considerados como "elementos comuns a todo ser falante", e é uma maneira de generalizar o conceito de delírio. Como todo "eu" é delirante, "um delírio pode ser considerado como um realce do que cada um traz em si" (p.81), propondo a escrita deliryo, no idioma espanhol.
O binômio fenômeno elementar-delírio é aqui explorado, desde a lógica matemática, ao considerar os fenômenos elementares funcionando como axiomas de partida para o discurso demonstrativo, e desde a psiquiatria, quando Miller recupera De Clérambault e as articulações de Lacan sobre este binômio em vários momentos de seu ensino.
O delírio tem a mesma estrutura que o fenômeno elementar, como acontece com a folha em relação à planta: ela tem os mesmos traços de estrutura da planta a que ela pertence. Esta metáfora é utilizada por Lacan no texto "A direção do tratamento e os princípios de seu poder" (Escritos). Ao analisar o sonho da "Bela Açougueira", ele demonstra que este sonho, de uma histérica, é capaz de indicar "toda a planta da histeria", ou seja, o conjunto da neurose está presente numa formação do inconsciente, num único elemento. Então, a formação do inconsciente está para a neurose como o fenômeno elementar está para a psicose. É possível apropriar-se da estrutura mediante uma boa extração de um fragmento.
"O fenômeno elementar está estruturado e sua estrutura é a da linguagem, tal como a do delírio. Em geral, se pode dizer que o delírio é um fenômeno elementar e que o fenômeno elementar é um delírio, já que ambos estão estruturados como uma linguagem." (p.88)
Seguindo Lacan, Miller aproxima mais um binômio: alucinação-interpretação. Apesar das diferenças fenomenológicas, pelo viés da estrutura da linguagem, uma alucinação verbal responde a esta mesma estrutura; por isso, nesse nível, a diferença pouco importaria, uma vez que a estrutura de linguagem está presente tanto na alucinação como na interpretação. No texto “Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a ‘Verneinung’ de Freud” (Escritos), Lacan sustenta, num outro nível, a distinção entre elas com os exemplos do Homem dos Lobos e do Homem dos Miolos Frescos: no primeiro, a falta de um significante na estrutura do sujeito faz com que o foracluído retorne no real, enquanto que, no segundo, um exemplo de acting out, a falta de um significante na interpretação do analista faz com que surja na conduta do sujeito aquilo que ele não pode entender, “a recusa de uma relação oral não simbolizada que retorna como se fosse uma alucinação” (p.89). Miller, cuidadosamente, conclui: “quase podemos supor que há uma foraclusão”.
Penso que estes exemplos generalizam a foraclusão, que em cada caso, em princípio, seria possível identificar o foracluído, porque em algum nível ele retorna. A título de observação, remeto ao próprio Miller em seu Seminário Los signos del goce (1986-1987), pois lá ele também trabalha estes dois exemplos, junto com Schreber, depois de propor a foraclusão generalizada, nome do capítulo XXII, localizando em cada caso o que está foracluído e de que maneira acontece este retorno.
Para concluir, a formulação de que todo saber é delírio e que todo delírio é um saber, é baseada na concepção do significante. S1 é sempre elementar, ou seja, “não sabe o que significa”, sua significação somente pode surgir com S2, interpretando-o. “Escutando repetir o que afirma Lacan sobre o interessante da invenção de saber, o psicótico se apresentaria como o delirante que não retrocede diante da elaboração de saber, com o elemento de delírio que sempre há nesta invenção” (p.94). O neurótico tem em si o S2 de que necessita, ele sabe o que dizer. “Por que não traduzir desta forma a foraclusão do Nome do Pai, a foraclusão deste S2 que permite ao neurótico decifrar tudo sem perplexidade?” (p.96)
Carmen Silvia Cervelatti
AMP-EBP (SP)
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
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terça-feira, 1 de junho de 2010
Loucura ou Perversão?
Claudia Figaro-Garcia, Correspondente da EBP-SP
Biagi-Chai, ao relatar a história de Henri-Desirée Landru, que assassinou dez mulheres e um jovem e incinerou seus corpos em uma fornalha de sua casa de campo, na França, no final do século XIX, provoca uma discussão: seria essa uma psicose ou uma perversão? De acordo com o livro, Landru não sabia qual era seu lugar na família, e este teria sido o gatilho para o desencadeamento dos atos criminosos. Biagi-Chai comenta que em sua megalomania havia separação entre ação e ambição. Tem-se início a sua máscara social. Sempre foi visto como responsável e bom pai. Mas é justamente a confusão que Landru faz entre o que é ser Patriarca e não Pai que inicia os sintomas, os quais caracterizam mais uma psicose do que uma perversão. Ao se colocar como Patriarca, posiciona-se como alguém que não vacila, que não apresenta furos ou imperfeições — assim, com a função paterna excedida, o sujeito se torna ele próprio a lei. A concepção delirante de família produz uma missão psicótica — sustento da família — de extrema responsabilidade, cuja lógica conduzirá Landru ao ato criminoso. A megalomania aumenta, assim como a indiferença pelo a’.
Para a autora, a família é como um trabalho para Landru, um significante privado de sua função de ideal, privado de realidade. Família define um dever, um dever com significação privada. A lei pessoal de Dever é seu delírio. Apresentava-se como “comerciante de móveis”, para viúvas, solteiras, mulheres sem família e com dote. Na opinião de Lacan, no filme Monsieur Verdoux, estrelado por Charles Chaplin em 1947, e que se baseou na história de Landru, o personagem selecionava as vítimas. Sua esposa e a amante Fernande pertenciam ao grupo vital. Esta, única a não ser assassinada por ele, além de não querer um marido provedor, mantinha uma relação muito forte com a mãe. As mulheres assassinadas integravam o grupo funcional, as mulheres de que necessitava. O dinheiro que estas deixaram garantirá o sustento da família de Landru.
A mãe de Landru parecia seu único ponto de apoio, estabelecendo-se assim a matriz da identificação imaginária de sua psicose: mãe sem falhas, como a amante. No julgamento, Landru nega tudo e seu discurso frio não demonstrava arrependimento. Foi avaliado por psiquiatras que não diagnosticaram psicose, atribuindo-lhe responsabilidade pelos crimes. Todavia, a certeza delirante, a necessidade de não ter falhas levaram Landru ao ato criminoso. Para a autora, ele avança em um Real sem véu, encarnando a lei. Seus significantes mestres não se articulavam a um saber, não passavam pelo desejo. Respondiam a um postulado delirante: sustentar a família. Na perversão, os criminosos sexuais gozam com o sofrimento do outro, pois driblam o Nome-do-Pai. O que impera é a Lei pessoal. Talvez isso, ter uma lei pessoal, seja algo que aproxime a psicose e a perversão, provocando uma confusão que dificulta um diagnóstico diferencial.
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
Biagi-Chai, ao relatar a história de Henri-Desirée Landru, que assassinou dez mulheres e um jovem e incinerou seus corpos em uma fornalha de sua casa de campo, na França, no final do século XIX, provoca uma discussão: seria essa uma psicose ou uma perversão? De acordo com o livro, Landru não sabia qual era seu lugar na família, e este teria sido o gatilho para o desencadeamento dos atos criminosos. Biagi-Chai comenta que em sua megalomania havia separação entre ação e ambição. Tem-se início a sua máscara social. Sempre foi visto como responsável e bom pai. Mas é justamente a confusão que Landru faz entre o que é ser Patriarca e não Pai que inicia os sintomas, os quais caracterizam mais uma psicose do que uma perversão. Ao se colocar como Patriarca, posiciona-se como alguém que não vacila, que não apresenta furos ou imperfeições — assim, com a função paterna excedida, o sujeito se torna ele próprio a lei. A concepção delirante de família produz uma missão psicótica — sustento da família — de extrema responsabilidade, cuja lógica conduzirá Landru ao ato criminoso. A megalomania aumenta, assim como a indiferença pelo a’.
Para a autora, a família é como um trabalho para Landru, um significante privado de sua função de ideal, privado de realidade. Família define um dever, um dever com significação privada. A lei pessoal de Dever é seu delírio. Apresentava-se como “comerciante de móveis”, para viúvas, solteiras, mulheres sem família e com dote. Na opinião de Lacan, no filme Monsieur Verdoux, estrelado por Charles Chaplin em 1947, e que se baseou na história de Landru, o personagem selecionava as vítimas. Sua esposa e a amante Fernande pertenciam ao grupo vital. Esta, única a não ser assassinada por ele, além de não querer um marido provedor, mantinha uma relação muito forte com a mãe. As mulheres assassinadas integravam o grupo funcional, as mulheres de que necessitava. O dinheiro que estas deixaram garantirá o sustento da família de Landru.
A mãe de Landru parecia seu único ponto de apoio, estabelecendo-se assim a matriz da identificação imaginária de sua psicose: mãe sem falhas, como a amante. No julgamento, Landru nega tudo e seu discurso frio não demonstrava arrependimento. Foi avaliado por psiquiatras que não diagnosticaram psicose, atribuindo-lhe responsabilidade pelos crimes. Todavia, a certeza delirante, a necessidade de não ter falhas levaram Landru ao ato criminoso. Para a autora, ele avança em um Real sem véu, encarnando a lei. Seus significantes mestres não se articulavam a um saber, não passavam pelo desejo. Respondiam a um postulado delirante: sustentar a família. Na perversão, os criminosos sexuais gozam com o sofrimento do outro, pois driblam o Nome-do-Pai. O que impera é a Lei pessoal. Talvez isso, ter uma lei pessoal, seja algo que aproxime a psicose e a perversão, provocando uma confusão que dificulta um diagnóstico diferencial.
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
Um hospital sem sinthoma (ou a casa dos objetos a)
Marcelo Veras
Psicanalista, Membro da EBP (BA)
A Saúde Mental é barrada, pois a soma de seus discursos não aponta para a promessa do Um holístico do ser biopsicossocial. Isolados, cada um em seu canto, esses discursos chegam a fazer semblante de promover o enlace do falasser em sofrimento com o mundo que o rodeia. Contudo, o real em jogo faz cair todos os semblantes. Ele emerge quando a cacofonia desses discursos, em um hospital psiquiátrico, por exemplo, faz reverberar o objeto a que lhes escapa.
Minha passagem pela direção do Hospital Juliano Moreira, na Bahia, se deu no momento em que, na expectativa do resultado do passe, me perguntava o que um analista da AMP poderia fazer em tal instituição. A degradação das condições humanas me fazia ver que não mais estávamos nos tempos do paciente reduzido ao objeto de algum discurso prevalente, tal como aprendera em minhas leituras de Foucault. Percebia que, como efeito colateral da prática entre vários, o paciente fora reduzido não a um objeto, mas a objetalidade, conceito que Lacan evoca no Seminário da Angústia para tratar o objeto a caído de qualquer discurso.
A objetivação da loucura está na base discursiva da maioria dos movimentos de inspiração basagliana que impulsionaram a reforma psiquiátrica no Brasil e em todo mundo. Contudo, Lacan toma a questão por outra perspectiva. Opõe ao termo objetividade o termo objetalidade. Não se trata de buscar o objeto como “o último termo do pensamento cientifico ocidental”, ou seja, o objeto que pode ser alcançado e manipulado pela ciência. Ao contrário, a objetalidade coloca em evidência o “pathos do corte”, a pura perda e desconexão com o vivente.
Com Lacan, aprendemos a valorizar os pequenos objetos que os pacientes internados carregam consigo. São pequenos embrulhos sem valor aparente, pedaços de papel com escrituras incompreensíveis, enfim, uma enorme quantidade de objetos guardados como preciosidades por muitos loucos e que não são recolhidos pelo Outro institucional. São eles, finalmente, a irrupção do objeto a no real, já que não são separados do corpo por nenhum discurso[1].
O louco é reduzido a objeto a quando é extirpado do laço social e segregado em instituições psiquiátricas degradadas, onde o fracasso dos semblantes expõe apenas fragmentos da loucura, sem nenhum sinthoma de amarração. É aí que constatamos que o louco é segregado por nos revelar o mais íntimo de nós mesmos, ele é nosso objeto a apenas em sua função de resto, uma vez que é alteridade que não se converte em causa de desejo.
Caminhando pelos corredores, encontrávamos fezes, seios expostos, pinturas e escritos nas paredes. O corpo estava exposto ao olhar indiferente da equipe, dos vigilantes e mesmo dos outros pacientes. A nudez não era revestida de nenhum conteúdo erótico, era pura carne. O olhar e a voz estavam igualmente presentes. A arquitetura era feita para que nada escapasse ao olhar, tal como o panopticum de Bentham. Porém, tratava-se de um olhar cego, já que era incapaz de ver o paciente para além da tarefa de disciplinar. Os gritos traziam o objeto voz em sua função áfona, pois eram tantos que ninguém mais os ouvia.
Concluí que o apagamento da condição subjetiva naquele hospital era correlato à explosão do corpo em múltiplos objetos a, restos subumanos que impregnavam a instituição por todos os seus poros. A falta, precisamente, de um discurso estabelecido fazia com que esses objetos, presentes no oco da arquitetura hospitalar, pudessem apenas ser mostrados. Eles surgiam como incidências contingentes, não planejadas, que perturbavam a ordem institucional. Pensando com Foucault, percebemos que os espaços institucionais são planejados apenas para estabelecer algum modo de disciplina: espaços para as refeições, para o lazer, para a higiene, etc. [2]
Uma moldura para o objeto
Uma das primeiras iniciativas, ao assumir a direção do hospital, foi realizada pelo antropólogo visual Stéphane Malysse[3]. Durante semanas ele filmou e fotografou o interior do hospital, deixando-se levar exclusivamente pelo que se dava a ver, sem nenhum roteiro estabelecido. O resultado desse trabalho não deve ser confundido com um estudo/denúncia da situação precária do hospital psiquiátrico em pleno século XXI. Ele é valioso por mostrar que na instituição, sua arquitetura, seus muros e grades, sua obscuridade, tudo leva ao objeto a separado de qualquer apreensão pelo discurso da clínica. Os corpos se confundiam com a arquitetura, às vezes criando insólitas mensagens, cartas das quais a instituição se negava a ser destinatária.
O resultado desse trabalho tornou-se uma grande exposição fotográfica sobre a vida cotidiana do hospital, aberta a toda a comunidade de Salvador. O evento contou com a presença de críticos de arte, jornalistas, universitários e toda uma comunidade intelectual que, de forma inédita, circulava entre as alas e pacientes, conhecendo o interior do hospital. Uma das instalações – forçosamente – mais visitadas era a “Louco pra ver”, de Stéphane Malysee. Tratava-se de uma grande tenda fechada, instalada no saguão de entrada do hospital, cujo interior era repleto de fotos tiradas durante sua pesquisa. O visitante, para entrar no hospital, tinha que passar necessariamente pelo interior da cabana, defrontando-se com as fotos. Caso não quisesse entrar, a tenda possuía orifícios que permitiam ver seu interior. Diante da tenda, foi possível elevar o objeto a na instituição à dignidade de causar a divisão subjetiva do visitante. Diante do que se dava a ver, e da dúvida sobre entrar ou não na casa dos loucos, muitos hesitavam entre olhar o objeto pelos orifícios ou diretamente no interior da cabana.
Estamos mais acostumados a encontrar iniciativas que visem ao resgate da dignidade dos pacientes através dos ideais de justiça e reparação. No caso dessa exposição, a equipe adotou uma proposta diferente. Apoiada na teoria do objeto, ela prescindiu dos ideais e confrontou a sociedade com sua própria divisão subjetiva, ao invés de fazer apelo, através dos ideais, a sua culpabilidade.
A experiência artística do “Louco pra ver” é coerente com o estatuto do objeto na contemporaneidade. A psicanálise lacaniana, precedida pelos artistas atuais, acolhe como marca de nosso tempo a ruptura da barreira dos ideais e do belo. Marie-Hélène Brousse nos chamou a atenção para o fato de que por muito tempo a imagem do belo revestia o objeto: I(A) recobria a.
Hoje, essa barreira acabou. I(A) não governa mais a abordagem do objeto pulsional pela Arte. A separação entre o Ideal e o objeto é consumida e é o a sem véu que se adianta. O artista interpreta diretamente ao modo do objeto pulsional, que corre entre os objetos comuns e anima nosso mundo, nossos corpos, nossos hábitos, nossos estilos de vida e, portanto, nossos modos de gozo[4].
Encontramos nesse comentário de Brousse uma feliz aproximação entre o artista e o louco. Ambos antecipam a psicanálise e apontam para o horizonte subjetivo de sua época[5].Quando a psicanálise se associa aos autores que apontam a queda dos ideais e a prevalência do objeto no coração da civilização, ela reafirma que não é pela vertente do sentido que se poderá obter um enquadramento para o gozo. Busca-se a escritura sem sentido e a obra de arte que não tem compromisso com o belo. Assim como é necessária a extração do objeto a nas psicoses, acreditamos que é necessário promover a extração do objeto a dos muros institucionais.
Concluo voltando ao ponto em que me lancei com afinco na direção do hospital e de sua desconstrução, após o resultado de meu passe. A resposta negativa do cartel teve o efeito imediato de me lançar na psicanálise aplicada como única possibilidade de permanência na Escola. Como não mais estava em análise, passei alguns anos interrogando o que seria uma psicanálise pura, ou mesmo se havia efetivamente feito uma.
Algum tempo depois, deparei-me novamente com as fotos dos primeiro anos do hospital. Foi então que me dei conta de que o meu olhar sobre a instituição somente se descolou do olhar de um diretor, burocrata da Saúde Mental, por que eu havia sido atravessado pela experiência da falta de sentido que apenas uma psicanálise pura pode sustentar. Nesse momento tive a convicção de que algo havia mudado no modo mesmo de pensar a psicanálise na instituição. Enquanto a burocracia visa eliminar os restos institucionais, com a psicanálise foi possível sinthomatizá-los, transformando-os no índice mesmo daquilo que apenas serve de causa para o discurso analítico. Percebi que havia reproduzido o mesmo equívoco em meu passe, visando eliminar todos os restos. Encontrar a psicanálise pura ali mesmo onde pensei estar protegido pela psicanálise aplicada foi a surpresa necessária para me levar a bater novamente na porta de meu analista.
[1] Lacan, J., “O aturdito”¸ in Outros escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
[2] Foucault, M. Vigiar e Punir¸ Petrópolis: Vozes, 2004
[3] Malysse, S. Images et représentations de la folie. Salvador site: http://zwyx.org/diffusion/malysse/expo_folie.html..
[4] Brousse M-H., “O objeto de arte na época do fim do belo: do objeto ao abjeto”, in Opção Lacaniana nº52, p.174.
[5] Lacan, J. «Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise», in Escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998 , p.322.
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
Psicanalista, Membro da EBP (BA)
A Saúde Mental é barrada, pois a soma de seus discursos não aponta para a promessa do Um holístico do ser biopsicossocial. Isolados, cada um em seu canto, esses discursos chegam a fazer semblante de promover o enlace do falasser em sofrimento com o mundo que o rodeia. Contudo, o real em jogo faz cair todos os semblantes. Ele emerge quando a cacofonia desses discursos, em um hospital psiquiátrico, por exemplo, faz reverberar o objeto a que lhes escapa.
Minha passagem pela direção do Hospital Juliano Moreira, na Bahia, se deu no momento em que, na expectativa do resultado do passe, me perguntava o que um analista da AMP poderia fazer em tal instituição. A degradação das condições humanas me fazia ver que não mais estávamos nos tempos do paciente reduzido ao objeto de algum discurso prevalente, tal como aprendera em minhas leituras de Foucault. Percebia que, como efeito colateral da prática entre vários, o paciente fora reduzido não a um objeto, mas a objetalidade, conceito que Lacan evoca no Seminário da Angústia para tratar o objeto a caído de qualquer discurso.
A objetivação da loucura está na base discursiva da maioria dos movimentos de inspiração basagliana que impulsionaram a reforma psiquiátrica no Brasil e em todo mundo. Contudo, Lacan toma a questão por outra perspectiva. Opõe ao termo objetividade o termo objetalidade. Não se trata de buscar o objeto como “o último termo do pensamento cientifico ocidental”, ou seja, o objeto que pode ser alcançado e manipulado pela ciência. Ao contrário, a objetalidade coloca em evidência o “pathos do corte”, a pura perda e desconexão com o vivente.
Com Lacan, aprendemos a valorizar os pequenos objetos que os pacientes internados carregam consigo. São pequenos embrulhos sem valor aparente, pedaços de papel com escrituras incompreensíveis, enfim, uma enorme quantidade de objetos guardados como preciosidades por muitos loucos e que não são recolhidos pelo Outro institucional. São eles, finalmente, a irrupção do objeto a no real, já que não são separados do corpo por nenhum discurso[1].
O louco é reduzido a objeto a quando é extirpado do laço social e segregado em instituições psiquiátricas degradadas, onde o fracasso dos semblantes expõe apenas fragmentos da loucura, sem nenhum sinthoma de amarração. É aí que constatamos que o louco é segregado por nos revelar o mais íntimo de nós mesmos, ele é nosso objeto a apenas em sua função de resto, uma vez que é alteridade que não se converte em causa de desejo.
Caminhando pelos corredores, encontrávamos fezes, seios expostos, pinturas e escritos nas paredes. O corpo estava exposto ao olhar indiferente da equipe, dos vigilantes e mesmo dos outros pacientes. A nudez não era revestida de nenhum conteúdo erótico, era pura carne. O olhar e a voz estavam igualmente presentes. A arquitetura era feita para que nada escapasse ao olhar, tal como o panopticum de Bentham. Porém, tratava-se de um olhar cego, já que era incapaz de ver o paciente para além da tarefa de disciplinar. Os gritos traziam o objeto voz em sua função áfona, pois eram tantos que ninguém mais os ouvia.
Concluí que o apagamento da condição subjetiva naquele hospital era correlato à explosão do corpo em múltiplos objetos a, restos subumanos que impregnavam a instituição por todos os seus poros. A falta, precisamente, de um discurso estabelecido fazia com que esses objetos, presentes no oco da arquitetura hospitalar, pudessem apenas ser mostrados. Eles surgiam como incidências contingentes, não planejadas, que perturbavam a ordem institucional. Pensando com Foucault, percebemos que os espaços institucionais são planejados apenas para estabelecer algum modo de disciplina: espaços para as refeições, para o lazer, para a higiene, etc. [2]
Uma moldura para o objeto
Uma das primeiras iniciativas, ao assumir a direção do hospital, foi realizada pelo antropólogo visual Stéphane Malysse[3]. Durante semanas ele filmou e fotografou o interior do hospital, deixando-se levar exclusivamente pelo que se dava a ver, sem nenhum roteiro estabelecido. O resultado desse trabalho não deve ser confundido com um estudo/denúncia da situação precária do hospital psiquiátrico em pleno século XXI. Ele é valioso por mostrar que na instituição, sua arquitetura, seus muros e grades, sua obscuridade, tudo leva ao objeto a separado de qualquer apreensão pelo discurso da clínica. Os corpos se confundiam com a arquitetura, às vezes criando insólitas mensagens, cartas das quais a instituição se negava a ser destinatária.
O resultado desse trabalho tornou-se uma grande exposição fotográfica sobre a vida cotidiana do hospital, aberta a toda a comunidade de Salvador. O evento contou com a presença de críticos de arte, jornalistas, universitários e toda uma comunidade intelectual que, de forma inédita, circulava entre as alas e pacientes, conhecendo o interior do hospital. Uma das instalações – forçosamente – mais visitadas era a “Louco pra ver”, de Stéphane Malysee. Tratava-se de uma grande tenda fechada, instalada no saguão de entrada do hospital, cujo interior era repleto de fotos tiradas durante sua pesquisa. O visitante, para entrar no hospital, tinha que passar necessariamente pelo interior da cabana, defrontando-se com as fotos. Caso não quisesse entrar, a tenda possuía orifícios que permitiam ver seu interior. Diante da tenda, foi possível elevar o objeto a na instituição à dignidade de causar a divisão subjetiva do visitante. Diante do que se dava a ver, e da dúvida sobre entrar ou não na casa dos loucos, muitos hesitavam entre olhar o objeto pelos orifícios ou diretamente no interior da cabana.
Estamos mais acostumados a encontrar iniciativas que visem ao resgate da dignidade dos pacientes através dos ideais de justiça e reparação. No caso dessa exposição, a equipe adotou uma proposta diferente. Apoiada na teoria do objeto, ela prescindiu dos ideais e confrontou a sociedade com sua própria divisão subjetiva, ao invés de fazer apelo, através dos ideais, a sua culpabilidade.
A experiência artística do “Louco pra ver” é coerente com o estatuto do objeto na contemporaneidade. A psicanálise lacaniana, precedida pelos artistas atuais, acolhe como marca de nosso tempo a ruptura da barreira dos ideais e do belo. Marie-Hélène Brousse nos chamou a atenção para o fato de que por muito tempo a imagem do belo revestia o objeto: I(A) recobria a.
Hoje, essa barreira acabou. I(A) não governa mais a abordagem do objeto pulsional pela Arte. A separação entre o Ideal e o objeto é consumida e é o a sem véu que se adianta. O artista interpreta diretamente ao modo do objeto pulsional, que corre entre os objetos comuns e anima nosso mundo, nossos corpos, nossos hábitos, nossos estilos de vida e, portanto, nossos modos de gozo[4].
Encontramos nesse comentário de Brousse uma feliz aproximação entre o artista e o louco. Ambos antecipam a psicanálise e apontam para o horizonte subjetivo de sua época[5].Quando a psicanálise se associa aos autores que apontam a queda dos ideais e a prevalência do objeto no coração da civilização, ela reafirma que não é pela vertente do sentido que se poderá obter um enquadramento para o gozo. Busca-se a escritura sem sentido e a obra de arte que não tem compromisso com o belo. Assim como é necessária a extração do objeto a nas psicoses, acreditamos que é necessário promover a extração do objeto a dos muros institucionais.
Concluo voltando ao ponto em que me lancei com afinco na direção do hospital e de sua desconstrução, após o resultado de meu passe. A resposta negativa do cartel teve o efeito imediato de me lançar na psicanálise aplicada como única possibilidade de permanência na Escola. Como não mais estava em análise, passei alguns anos interrogando o que seria uma psicanálise pura, ou mesmo se havia efetivamente feito uma.
Algum tempo depois, deparei-me novamente com as fotos dos primeiro anos do hospital. Foi então que me dei conta de que o meu olhar sobre a instituição somente se descolou do olhar de um diretor, burocrata da Saúde Mental, por que eu havia sido atravessado pela experiência da falta de sentido que apenas uma psicanálise pura pode sustentar. Nesse momento tive a convicção de que algo havia mudado no modo mesmo de pensar a psicanálise na instituição. Enquanto a burocracia visa eliminar os restos institucionais, com a psicanálise foi possível sinthomatizá-los, transformando-os no índice mesmo daquilo que apenas serve de causa para o discurso analítico. Percebi que havia reproduzido o mesmo equívoco em meu passe, visando eliminar todos os restos. Encontrar a psicanálise pura ali mesmo onde pensei estar protegido pela psicanálise aplicada foi a surpresa necessária para me levar a bater novamente na porta de meu analista.
[1] Lacan, J., “O aturdito”¸ in Outros escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
[2] Foucault, M. Vigiar e Punir¸ Petrópolis: Vozes, 2004
[3] Malysse, S. Images et représentations de la folie. Salvador site: http://zwyx.org/diffusion/malysse/expo_folie.html..
[4] Brousse M-H., “O objeto de arte na época do fim do belo: do objeto ao abjeto”, in Opção Lacaniana nº52, p.174.
[5] Lacan, J. «Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise», in Escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998 , p.322.
XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
O sintoma na clínica do delírio generalizado
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XVIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
sábado, 1 de maio de 2010

“O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos no ar. Quando este resultado não é atingido, seja por oposição do mundo exterior, seja por fraqueza do indivíduo, este se
desprende da realidade, recolhendo-se onde pode gozar, isto é, ao seu mundo de fantasia, cujo conteúdo, no caso
de moléstia, se transforma em sintoma”. (Freud, “Cinco lições de psicanálise”, vol XI, p. 47)
quinta-feira, 15 de abril de 2010
A violência urbana e as transformações familiares contemporâneas
Conferência pública de Sérgio Laia na Biblioteca Pública Piloto
Biblioteca da NEL-Medellín
A família também se faz
Entrevista da jornalista Mónica Quintero Restrepo a Sérgio Laia para o diário El Colombiano | Medellín | Publicado em 18 de fevereiro de 2010
A família também é permeada pelo tempo. Não é o mesmo, uma de 50 anos e uma de 20 ou uma atual.
Pode-se recordar a maneira, por exemplo, que muitos dos que hoje são adultos se queixam, em uma brincadeira muito séria, que quando eram crianças, a carne maior era para o pai e agora que são grandes, é para os pequenos. Uma mudança de importância ou de foco, para nomeá-lo de alguma forma.
A família sofreu transformações através do tempo, segundo o momento em que se vive. O que, sim, é claro, e talvez este não muda, é que é uma estrutura fundamental da sociedade.
É possível que o homem já não seja essa figura que dá as ordens e carrega toda a responsabilidade e que agora a mulher seja mais ativa. A construção da família é produto de seu trabalho em conjunto.
Agora, pode-se trazer um conceito de que fala o psicanalista brasileiro Sérgio Laia: "Vivemos em um momento paradoxal, o que faz com que o fato de serem pais não se reduza a procriar. Pode-se ser pai ou mãe não apenas biologicamente".
Assim, não é uma questão de por um óvulo ou um espermatozoide para ter um filho, mas tudo o que há mais além, que tem a ver com a criança, com o ensino, com o que significa realmente ser pais. Isso de compromisso, inclusive.
Desta maneira, disse Laia, quem esteve em Medellín conversando sobre a violência urbana e as transformações familiares contemporâneas, "que nem tudo se resolve biologicamente. Fazer uma prova de DNA para saber se alguém é o pai não é a solução porque este, da mesma forma, pode não aceitar o filho".
É preciso entender, então, e gravá-lo bem na cabeça, que o compromisso de ser pais é gigante e vai mais além de 'fazer' as crianças. E se o ideal é o compromisso dos biológicos, acrescenta Sérgio, "estamos em um tempo de construção no natural. Também é simbólico".
O que se aprende em casa
A família é o lugar onde se transmite, define o especialista, "uma condição subjetiva e não necessariamente tem que construir-se de forma conservadora. É um lugar onde se transmite algo" que é fundamental para o resto da vida.
É mais, faz finca-pé o especialista, há grupos que tem laços de amizade ou de parceria tão fortes que cumprem a função da família. "Coisas que não estão previstas e que não devem ser depreciadas".
O fato é que, disse ele, não é algo bom nem mau em si mesmo. Trata-se de adaptar-se a determinadas condições, se assim o exige o ambiente, para que não afete as pessoas ou o meio.
"Isso é bom desde que se acompanhe com a palavra", acrescenta Sérgio, e dá o seguinte exemplo que aconteceu no Brasil, onde ele realiza investigação e trabalho de recuperação social: Um jovem estava em uma quadrilha de tráfico, na qual pôde haver chegado a exemplo de seu pai, que também fez parte desta, desde quando ele era pequeno.
Recorda o jovem, que sua mãe lhe dizia que as condições em que viviam eram por culpa da decisão de seu pai, de envolver-se em um trabalho ilícito. Assim, o jovem, quando começou seu trabalho de recuperação, não pensou tanto em que devia sair porque era negativo para sua vida, mas porque "queria ser um pai diferente do que foi o seu. Essa palavra lhe permitiu sair", conta Laia.
Dentro da família, formam-se estruturas sociais, inclusive para evitar a violência em geral, e uma específica, como é a urbana.
"Quando vamos educar uma criança, lhe ensinamos a viver. Se um pequeno maltrata um animal, os pais devem dizer-lhe que não e ensinar-lhe porque não se deve fazer". A isto é preciso acrescentar que, se seu ambiente é de maltrato e, portanto, não sabem o que é não serem maltratados, a essas pessoas, grandes ou pequenas, enquanto aplica também para a sociedade, "é preciso dar-lhes melhores condições e oferecer-lhes algo que lhes possa ajudar. Não é apenas uma questão de dinheiro ou educação".
A família é a base para fazer uma sociedade melhor e isso sim, é preferível aprender desde pequenos, com o exemplo e a guia que se encontra nela. E seguindo o especialista, o importante é a família que se tem e que se fez, seja biológica ou não.
Uma proposta integral para a violência urbana
O expert brasileiro Sérgio Laia compartilhou sua experiência de trabalho com a Violência urbana. "É mais localizada e nos faz sentir que estamos aparentemente muito tranquilos, mas com uma atmosfera de angústia". Assinala que se faz anonimamente e tem um viés generalizado de sem sentido, o que não implica deixar de analisar o que está acontecendo e por que, para buscar soluções, sendo conscientes que "o ideal não existe e nem tudo se pode solucionar". O trabalho deve incluir uma união, disse ele, entre psicanálise, cultura, arte e opções de vida.
Comentários dos leitores:
"Se nas famílias de agora fossem levados em conta alguns desses parâmetros, a violência seria menos dentro das famílias e na cidade."
"Excelente, ressalto duas frases do autor para refletir.. A definição de família como uma condição subjetiva... onde se transmite algo"... e "é preciso dar-lhes melhores condições.....Não é apenas uma questão de dinheiro ou educação"...."
Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes
Biblioteca da NEL-Medellín
A família também se faz
Entrevista da jornalista Mónica Quintero Restrepo a Sérgio Laia para o diário El Colombiano | Medellín | Publicado em 18 de fevereiro de 2010
A família também é permeada pelo tempo. Não é o mesmo, uma de 50 anos e uma de 20 ou uma atual.
Pode-se recordar a maneira, por exemplo, que muitos dos que hoje são adultos se queixam, em uma brincadeira muito séria, que quando eram crianças, a carne maior era para o pai e agora que são grandes, é para os pequenos. Uma mudança de importância ou de foco, para nomeá-lo de alguma forma.
A família sofreu transformações através do tempo, segundo o momento em que se vive. O que, sim, é claro, e talvez este não muda, é que é uma estrutura fundamental da sociedade.
É possível que o homem já não seja essa figura que dá as ordens e carrega toda a responsabilidade e que agora a mulher seja mais ativa. A construção da família é produto de seu trabalho em conjunto.
Agora, pode-se trazer um conceito de que fala o psicanalista brasileiro Sérgio Laia: "Vivemos em um momento paradoxal, o que faz com que o fato de serem pais não se reduza a procriar. Pode-se ser pai ou mãe não apenas biologicamente".
Assim, não é uma questão de por um óvulo ou um espermatozoide para ter um filho, mas tudo o que há mais além, que tem a ver com a criança, com o ensino, com o que significa realmente ser pais. Isso de compromisso, inclusive.
Desta maneira, disse Laia, quem esteve em Medellín conversando sobre a violência urbana e as transformações familiares contemporâneas, "que nem tudo se resolve biologicamente. Fazer uma prova de DNA para saber se alguém é o pai não é a solução porque este, da mesma forma, pode não aceitar o filho".
É preciso entender, então, e gravá-lo bem na cabeça, que o compromisso de ser pais é gigante e vai mais além de 'fazer' as crianças. E se o ideal é o compromisso dos biológicos, acrescenta Sérgio, "estamos em um tempo de construção no natural. Também é simbólico".
O que se aprende em casa
A família é o lugar onde se transmite, define o especialista, "uma condição subjetiva e não necessariamente tem que construir-se de forma conservadora. É um lugar onde se transmite algo" que é fundamental para o resto da vida.
É mais, faz finca-pé o especialista, há grupos que tem laços de amizade ou de parceria tão fortes que cumprem a função da família. "Coisas que não estão previstas e que não devem ser depreciadas".
O fato é que, disse ele, não é algo bom nem mau em si mesmo. Trata-se de adaptar-se a determinadas condições, se assim o exige o ambiente, para que não afete as pessoas ou o meio.
"Isso é bom desde que se acompanhe com a palavra", acrescenta Sérgio, e dá o seguinte exemplo que aconteceu no Brasil, onde ele realiza investigação e trabalho de recuperação social: Um jovem estava em uma quadrilha de tráfico, na qual pôde haver chegado a exemplo de seu pai, que também fez parte desta, desde quando ele era pequeno.
Recorda o jovem, que sua mãe lhe dizia que as condições em que viviam eram por culpa da decisão de seu pai, de envolver-se em um trabalho ilícito. Assim, o jovem, quando começou seu trabalho de recuperação, não pensou tanto em que devia sair porque era negativo para sua vida, mas porque "queria ser um pai diferente do que foi o seu. Essa palavra lhe permitiu sair", conta Laia.
Dentro da família, formam-se estruturas sociais, inclusive para evitar a violência em geral, e uma específica, como é a urbana.
"Quando vamos educar uma criança, lhe ensinamos a viver. Se um pequeno maltrata um animal, os pais devem dizer-lhe que não e ensinar-lhe porque não se deve fazer". A isto é preciso acrescentar que, se seu ambiente é de maltrato e, portanto, não sabem o que é não serem maltratados, a essas pessoas, grandes ou pequenas, enquanto aplica também para a sociedade, "é preciso dar-lhes melhores condições e oferecer-lhes algo que lhes possa ajudar. Não é apenas uma questão de dinheiro ou educação".
A família é a base para fazer uma sociedade melhor e isso sim, é preferível aprender desde pequenos, com o exemplo e a guia que se encontra nela. E seguindo o especialista, o importante é a família que se tem e que se fez, seja biológica ou não.
Uma proposta integral para a violência urbana
O expert brasileiro Sérgio Laia compartilhou sua experiência de trabalho com a Violência urbana. "É mais localizada e nos faz sentir que estamos aparentemente muito tranquilos, mas com uma atmosfera de angústia". Assinala que se faz anonimamente e tem um viés generalizado de sem sentido, o que não implica deixar de analisar o que está acontecendo e por que, para buscar soluções, sendo conscientes que "o ideal não existe e nem tudo se pode solucionar". O trabalho deve incluir uma união, disse ele, entre psicanálise, cultura, arte e opções de vida.
Comentários dos leitores:
"Se nas famílias de agora fossem levados em conta alguns desses parâmetros, a violência seria menos dentro das famílias e na cidade."
"Excelente, ressalto duas frases do autor para refletir.. A definição de família como uma condição subjetiva... onde se transmite algo"... e "é preciso dar-lhes melhores condições.....Não é apenas uma questão de dinheiro ou educação"...."
Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes
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