domingo, 30 de setembro de 2012

Palestra e Curso: Criança, Mulher e Mãe

PALESTRA: CRIANÇA, MULHER e MÃE
DATA: 09/ 11/2012             Horário: 19h
LOCAL:Auditório da Facid
Palestrante: Analícea Calmon, psicanalista. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Bahia
Entrada Gratuita
CURSO: A Menina e suas Implicações com o Materno
PALESTRANTE: Analícea Calmon, psicanalista. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Bahia
DATA: 10/11/2012     HORÁRIO: 8h às 12h - 15h às 18h      
LOCAL: Av. Dom Severino, 1024- Edf. Afrânio Nunes, sala 06 - Fátima
Inscrições: cepp-teresina.blogspot.com
Até o dia 20/10/2012
Membros e Aderentes R$: 120,00
Estudante da Graduação R$: 80,00
Profissional R$: 100,00
A partir do dia 21/10/2012
Membros e Aderentes R$: 150,00
Estudante da Graduação R$: 100,00
Profissional R$: 120,00
    Vagas Limitadas

FORMAS DE PAGAMENTOS: depósito bancário direto no caixa
Banco do Brasil
Agência: 4708-2      Conta Corrente: 7.671-6
Em nome de: Maria Lídia M. Noronha Pessoa

ATENÇÃO:
Enviar ficha de inscrição junto com fotocópia do comprovante de depósito para o e-mail: cepp.teresina@gmail.com
Nos casos em que seja necessária comprovação formal dos alunos de graduação, a inscrição só será confirmada após o envio da comprovação da graduação junto com a ficha de inscrição;
Serão aceitas somente inscrições com depósito bancário direto no caixa e concluída com o envio para o e-mail do CEPP, constando ficha de inscrição e comprovante de pagamento.

 FICHA DE INSCRIÇÃO:
CURSO: A Menina e suas implicações com o Materno

Nome completo: _____________________________________
Endereço:__________________________________________
CEP: _______________Cidade: _______________UF_____
Telefones:_______________celular:__________________
E-mail:___________________________________________
Profissão:_______________________________________
Categoria:
( ) Membros e Aderentes
( ) Aluno da Graduação
( ) Profissional

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Palestra e Curso: SER CRIANÇA...SER MULHER...SER MÃE...

Comunicamos a todos que a Palestra e Curso: SER CRIANÇA...SER MULHER...SER MÃE... ocorreu alteração nas datas. O mesmo acontecerá nos dias 09 e 10 de novembro.

sábado, 18 de agosto de 2012

Palestra e Curso: SER CRIANÇA...SER MÃE...SER MULHER


PALESTRA: SER CRIANÇA...SER MÃE...SER MULHER...
DATA: 05/ 10/2012             Horário: 19h
LOCAL: Divulgação posterior
Palestrante: Analícea Calmon, psicanalista. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Bahia
Entrada Gratuita

CURSO: A Menina e suas Implicações com o Materno
PALESTRANTE: Analícea Calmon, psicanalista. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e Membro da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Bahia
DATA: 06/10/2012     HORÁRIO: 8h às 12h - 15h às 18h      
LOCAL: Av. Dom Severino, 1024- Edf. Afrânio Nunes, sala 06 - Fátima

Inscrições: cepp-teresina.blogspot.com
Até o dia 10/09/2012
Membros e Aderentes R$: 120,00
Estudante da Graduação R$: 80,00
Profissional R$: 100,00

Após o dia 11/09/2012
Membros e Aderentes R$: 150,00
Estudante da Graduação R$: 100,00
Profissional R$: 120,00
    Vagas Limitadas

FORMAS DE PAGAMENTOS: depósito bancário direto no caixa
Banco do Brasil
Agência: 4708-2      Conta Corrente: 7.671-6
Em nome de: Maria Lídia M. Noronha Pessoa

ATENÇÃO:
Enviar ficha de inscrição junto com fotocópia do comprovante de depósito para o e-mail: cepp.teresina@gmail.com
Nos casos em que seja necessária comprovação formal dos alunos de graduação, a inscrição só será confirmada após o envio da comprovação da graduação junto com a ficha de inscrição;
Serão aceitas somente inscrições com depósito bancário direto no caixa e concluída com o envio para o e-mail do CEPP, constando ficha de inscrição e comprovante de pagamento.

 FICHA DE INSCRIÇÃO:
CURSO: A Menina e suas implicações com o Materno

Nome completo: _____________________________________
Endereço:__________________________________________
CEP: _______________Cidade: _______________UF_____
Telefones:_______________celular:__________________
E-mail:___________________________________________
Profissão:_______________________________________
Categoria:
( ) Membros e Aderentes
( ) Aluno da Graduação
( ) Profissional

sábado, 4 de agosto de 2012

Da civilização à mundialização I


Agnès Aflalo
 Depois do fim da segunda guerra mundial, o mundo mudou. E essa mudança pode ser ordenada a partir do conceito de discurso formalizado por Lacan (1). Os avanços dos discursos do capitalismo e da ciência permitem compreender seu alcance.

O discurso capitalista e seu sujeito

Como cada discurso, o do capitalismo reflete uma perda de gozo impossível de recuperar. Essa perda de gozo é sempre percebida como roubo, e seu retorno, sempre localizado do lado do Outro, o mestre. Freud descreve os mesmos deslocamentos da libido no circuito da pulsão. Mas, Marx é o primeiro a amarrar junto os dois deslocamentos desconhecidos da libido, o que fez Lacan dizer que ele é o inventor do sintoma. Esse sintoma descoberto pela psicanálise, no momento de sua emergência, vale ainda hoje. O obscurantismo cientificista do XXI° Século pode bem decidir por o ignorar, mas isso não o impede de existir.
Esse discurso capitalista, rejeita a perda primeira de gozo e prorroga a recuperação de gozo. O sintoma reitera sem cessar o duplo movimento de recusa da perda de gozo e de sua recuperação, a fim de o totalizar, de que ele não falte. É o estereótipo fundamental do sintoma. Esse discurso executa, então, uma foraclusão da castração. À época de Freud, o mal estar na civilização se centrava essencialmente na perda, de modo que, hoje, a mundialização se centra sobretudo no segundo tempo da recuperação de gozo sem limites. Para Lacan, o discurso do inconsciente deve ser esclarecido com esse discurso capitalista.
O capitalismo fez emergir um novo sujeito. Ele é efeito da linguagem, mas não é mais assujeitado ao significante mestre que é recalcado. É dizer que os significantes do Outro social não o identificam mais. Constatamos isso, em particular, com o homossexualismo e o autismo, questões sintomáticas do DSM hoje. Esses sujeitos recusam a segregação induzida pelo discurso dominante que os encaixa respectivamente na classe da perversão ou das psicoses. Essas palavras mestres, usadas demais, não indexam mais o real em jogo e são rejeitadas.
Mais geralmente, o sujeito capitalista recusa a autoridade do mestre. E «a crise de autoridade» nomeia esse fenômeno do declínio do Mestre em todos os níveis de nossas sociedades democráticas. Ou, a função das palavras mestres, é também a de mortificar o gozo. Quando a palavra mestre é recalcada, a mortificação de gozo – castração – não opera mais. A consequência no nível do corpo é decisiva. Não há mais nenhum limite à produção de objeto «a» mais-de-gozar. É a exploração à morte. Pois não é mais somente o ter que é concernido, mas também o ser. O sujeito está mais entregue à palmatória do mestre absoluto quando ele não está identificado à um mestre em particular. A morte é o único principio de limitação do gozo quando a castração não opera mais.
O capitalismo tem conhecido duas grandes modificações nesses últimos trinta anos. Primeiro, ele se mundializou. Seguramente, depois da queda do muro de Berlim, as nações comunistas reuniram-se à economia de mercado.  É então legitimo dizer que não há mais civilização, mas mundialização na qual os sujeitos padecem sobretudo das adições sem limites fundadas sobre a recuperação ilimitada do mais de gozar. Em seguida, o capitalismo se «cientificizou» - o capitalismo financeiro deveria ser chamado de capitalismo cientifico. Seu sujeito é o proletário generalizado, pois não tem nada que lhe permite fazer discurso, como o mostra o fenômeno dos Indignados. Não é mais necessário localizar o proprietário na usina para extrair um mais de gozar. A crise financeira de 2008 o mostrou, basta o fazer brilhar nas aplicações com aparência de ganhos de cassino, e reduzidos à algumas equações matemáticas opacas (titrisação) para o transformar em SDF (morador de rua) na oportunidade da primeira crise de confiança. O fenômeno de solidão e sua satisfação autista dá uma ideia da expansão do fenômeno no mundo.

O discurso da ciência e seu sujeito

Com a ciência, o significante mestre também não funciona mais. A mais, a ciência diminui o efeito de uma série das funções do discurso : o significante é reduzido a seu efeito de letra – as matemáticas só utilizam as letras – e o objeto (a) mais de gozar é rejeitado;  lá, o trabalho dialético da verdade não é mais possível porque a divisão do sujeito é neutralizada. A castração não opera mais. A verdade e o real singular da libido estão disjuntos. O único real em jogo neste discurso obedece as leis universais e não à uma causa singular: é o real do organismo a distinguir-se daquele do corpo. O discurso analítico mostrou seguramente, desde sua emergência no século XX,  que o corpo é sempre um corpo falante, o que não é evidentemente o caso do organismo que é do domínio da ciência.
O sujeito da ciência data do cogito e não é outro coisa que um vazio. É um sujeito puro. É decisivo o perceber, pois a ciência não precisa mais recorrer à intuição corporal. Ela dispensa o corpo. Ela opera somente sobre o organismo e seu real. Este sujeito puro da ciência não existe em lugar nenhum, mas ele faz apreender que a ciência vela a parte do sujeito que se expressa na fantasia e que é correlata ao objeto a. O sujeito assim neutralizado na sua divisão passa a ser universalizante. Se presta sempre mais à lógica das classes. A liberação do corpo provoca uma disjunção entre o corpo e o objeto a, entre o universal do corpo e o particular do objeto a. O objeto a é um conjunto vazio; é, então, incorporal. Quando é rejeitado, ele se coloca a correr sozinho, separado dos corpos. Mas está também pronto a retomar os corpos na primeira curva. É o caso de cada objeto a natural ou industrial.
Este objeto a não é inerte. É um pouco como um buraco negro; é um objeto «que quer». Peguemos o exemplo do objeto a olhar e sua relação ao corpo. O olhar capta sempre mais os corpos nas nossas sociedades de vigilância, do lado de fora, nas ruas com as câmeras sempre mais numerosas, mas também em casa com as telas de televisão ou de computador sem contar o dos telefones celulares e outros tabletes portáveis em todos os lugares, e o tempo todo. Dito de outra forma, este objeto a tem um efeito de empuxo-ao-gozo sobre o corpo, do qual ele não pode ficar separado muito tempo. Quando ele faz o retorno sobre o organismo, ele se manifesta, então, em todos tipos de adições que fazem os sintomas contemporâneos. É o mesmo objeto olhar insaciável que perscruta a vida privada do Seu Zé e Dona Maria, nos jogos televisionados chamados de "bigbrothers/reality show"; é também este objeto que se satisfaz das vicissitudes da vida privada de nossos mestres modernos cuja midiatização é exigida sem prazo.
Mas quando o espelho midiático não consegue mais o tamponar, o ideal esperado não aparece, a decepção é aí assegurada. O ideal do homem normal está sem dúvida no ar da época. Mas, esta ficção que reúne contém, também nela mesma, a semente da dispersão ulterior. Apagado por um tempo somente, ele não cessa de reaparecer e de se manifestar, em particular, como a pequena diferença na qual cada um se apega como à seu bem o mais precioso. Acrescentamos que o sujeito da ciência, libertado do corpo, é também um sujeito sem vergonha. Seguindo o mesmo princípio, a emancipação do objeto oral provoca epidemias mundiais de obesidade ou de anorexia, desde a mais tenra idade.
A ciência e o capitalismo estão unidos para o melhor e para o pior. Eles engendraram os maiores progressos da humanidade. Mas, as profundas modificações que eles impõem aos discursos geram também novas formas de mal estar. A avaliação veio reforçar este mal estar mundializado. O mal estar contemporâneo não conhece mais as fronteiras tradicionais e é por isso que é justificado de falar hoje de mundialização e não mais de civilização.

1. J.-A. Miller o esclarece em seu Cours d’Orientation lacanienne

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Para uma política da ignorância em psicanálise


Claire Zebrowski

Gostaria de interrogar a orientação do discurso e a postura da psicanálise em relação à questão do autismo, nestes tempos em que a sociedade promove os conhecimentos imaginários.
Minha observação não visa as escolhas feitas pelas famílias, que estão tentando encontrar maneiras que levem seus filhos autistas a avançarem, mas o discurso dos promotores dos métodos do tipo ABA, e daqueles que excluem a possibilidade de um acompanhamento variado e livremente organizado para cada pessoa com autismo.

O saber pronto para o uso como sintoma de nossa época
No Petit Journal número 61 , Laetitia Belle recorda um artigo de François Leguil publicado na revista Mental. A partir da fórmula dada por Jacques-Alain Miller «Os usos do sintoma», em seu curso da Orientação lacaniana, François Leguil sustenta: «Nós podemos opor à noção de uso a de modo de usar; aos modos de usar, de preferência, se pensarmos em sua proliferação quase persecutória, como a proliferação que é o preço das técnicas»2 . Esta distinção me evoca a evolução dos conhecimentos na sociedade capitalista contemporânea. Falo dos conhecimentos no plural e, não do saber no singular, porque o saber não se manifesta mais tanto como veículo das idéias – políticas, sociais, religiosas –, mas antes, como verdades contíguas aos objetos de conhecimento, à maneira das aplicações para os iphones.  O saber é «tecnificado» [technifié], diretamente colado ao objeto, reificado. Deve ser eficaz como mostram a referência aos peritos, a generalização das políticas de avaliação, ou ainda a leitura montada numa escala que as TCC aplicam à humanidade, e vem daí, o método ABA apresentado como única fonte de saber sobre o autismo. 

O artigo «Uma semana com o ABA», publicado no Lacan Cotidiano n º 1973, mostra bem o tipo de «saber» que se busca para inspirar àqueles que trabalham com pessoas autistas. Este é um saber que não deixa espaço para a troca, que não pode ser discutido. É assim que Sylvie Dagnino, enfermeira em um centro infantil, narra a semana de formação no método ABA que ela seguiu: «Durante os primeiros dois dias, é passado o essencial da formação. Nos dias seguintes, o treinador repete as mesmas afirmações, ordenados em sequências curtas de edição de vídeo. Há poucas trocas com os participantes, pouco espaço para as perguntas». Gestos marcados, a altura da voz do treinador, cativam a atenção, «impedindo qualquer reflexão pessoal», «seu discurso não deixa espaço para a incerteza».
O que se entende, é que o método ABA, essa «análise aplicada aos comportamentos» como o nomeia a treinadora, é dado como uma verdade eficiente. Este é um saber agarrado ao seu objeto por um «é assim», o que retorna quase como identificar a palavra a um real. Poderíamos  nos preocupar com o risco exposto pelo método ABA de levar a um  discurso de ódio. Retomemos com Jacques Lacan. No Seminário, Livro 1, em que ele situa as três paixões, que são o amor, o ódio, e a ignorância, em relação às três ordens do simbólico, do real e do imaginário: «Na junção do simbólico e do imaginário, nesta fenda, se quiserem, esta aresta que se chama amor - na conjunção do imaginário e do real – o ódio e, na  junção do real e do simbólico, a ignorância»4.

O ódio, é, portanto, o que se encontra quando não há mais o simbólico, quando a linguagem foi ejetada e apenas o imaginário e o real se emaranham. A psicanálise não diz «a cada problema há uma solução», ela  afirma que a qualquer situação corresponde um saber pronto para ser usado. Ela sustenta que a relação não existe, e que diante do enigma, trata-se de se questionar e não, de início, responder.  É esta posição interrogativa do sujeito que determina o verdadeiro e o falso, nos diz Lacan.5 É daí que me vem, portanto, uma política da ignorância.

Política da ignorância

Ainda no Seminário 1, Lacan coloca a pergunta: «O que é a ignorância? É uma noção certamente dialética, porque é somente na perspectiva da verdade que ela se constitui como tal»6. Ignorância e verdade fazem par.
 No que diz respeito ao psicanalista, a ignorância é uma postura, que funda a sua ética. Lacan prossegue assim : «Em outros termos, a posição do analista deve ser a de uma ignorantia docta, o que não quer dizer sábia, mas formal»7. Segundo Le Petit Robert, formal é o que, por um lado, é preciso e afirmativo: o psicanalista tem que ser preciso e afirmativo. E, por outra parte, o formal é o que concerne à forma: o psicanalista tem a fazer com a estrutura do saber. Ora, na estrutura do saber, é precisamente aquela em que existe uma hiância, uma não-relação no coração de todo saber. O saber do psicanalista não é «tecnificado», ele não supõe que isso anda. Ao contrário, o que ele sabe é que isso não anda necessariamente, ou seja, que não há necessidade que isso funcione, que isso fracasse. O psicanalista toma, portanto, a postura do ignorante no sentido em que há saber sobre esta hiância. É o que funda a sua ética, porque é a partir dela que ele opera, e é daí que ele pode ouvir o que cada sujeito tem de único.  Estamos muito distante do método ABA, que expõe as pessoas autistas a comportamentos calcados em modelos imaginários de normalidade. Inversamente, a psicanálise aposta que um sujeito autista tem algo a inventar e não apenas a imitar, e que isto não se mede em termos de eficácia. É neste sentido que o ato analítico pode permanecer um ato ético.
Vamos ao segundo tipo de ignorância da qual quero falar: uma ignorância de caráter político. Esta idéia me vem da seguinte leitura do Seminário 1: «A tentação é grande, porque está em voga, neste tempo do ódio, transformar a ignorantia docta, no que chamei, não é de ontem, uma ignorantia docens. Que o psicanalista acredite saber alguma coisa, em psicologia por exemplo, já é o começo da sua perda»8. A ignorância do psicanalista deve ser douta, no sentido formal como nós vimos, e não docens, científica. Em outras palavras, o saber em psicanálise não é da ordem do conhecimento, nem da representação.9 O psicanalista não prega um saber total, totalmente imaginário poderíamos dizer, ele não busca professar, e seu discurso público se ressente disso. Quanto ao «tempo de ódio» do qual fala Lacan em 1954, ou seja, menos de dez anos após o fim da segunda guerra mundial, pode-se considerar que não tem mais validade hoje. Entretanto, a imagem de nossa sociedade, a ascensão ao zênite do objeto a como o formula Jacques-Alain Miller, sem mencionar a perturbação da ordem simbólica, devem despertar a nossa vigilância quanto ao empuxo dos discursos em forma de injunção à um modelo. O real e o imaginário fazem raramente um bom conjunto quando são desatados do simbólico. As pesquisas mostram que o autismo faz enigma, e é por isso que uma abordagem no plural é necessária. Assim, contra a onipotência dos saberes sintomáticos de nossa época, prontos ao uso, contra as suas aplicações sem mediação sobre o autismo, eu tomaria o partido de uma política da ignorância em psicanálise, que deixa lugar ao saber inédito de cada sujeito.

As referências bibliográficas encontram-se no fim deste número.
Claire Zebrowski apresentou esta intervenção por ocasião do FORUM POUR UN ABORD CLINIQUE DE L'AUTISME, que ocorreu em Angers nesta quinta, dia 14 de junho.

Para uma informação sobre o conjunto dos fóruns organizados em toda a França:


sexta-feira, 13 de julho de 2012

A INFÂNCIA SOB CONTROLE


Miquel Bassols


Essa intervenção foi feita em Barcelona, durante uma reunião preparatória para o Fórum 3 do ELN, que acontecerá em Sevilha, 2 de junho de 2012, sobre o tema « O quê a avaliação silencia: a infância sob controle » 

1) A infância, tal como a concebemos, nem sempre foi definida da mesma forma. Isto é um fato, que já tinhamos destacado a partir dos estudos, por exemplo, de Philippe Ariès e da História das mentalidades. O tempo designado como “infância†mudou consideravelmente ao longo da história, o quê nos indica que a infância é, antes de tudo, um fato de discurso. O que entendemos hoje por “infância†é necessariamente constituído como um “tempo passado†, mais ou menos idealizado, como um lugar situado em e a partir do discurso do Outro. Aliás, é sempre oportuno lembrar, como Lacan o fez em várias ocasiões, a etimologia do termo infância que provém de infans: (in-fari) alguém que não é capaz de falar, não para articular as palavras, mas para falar em público, de se representar no espaço público enquanto que sujeito do discurso. A infância é, portanto, constituida primeiramente como um lugar anterior e exterior a um discurso. A criança é assim aquela que deve permanecer necessariamente sob a responsabilidade do Outro, sem ser capaz de se tornar sujeito de uma responsabilidade social.

2) E porquê se deveria “controlar†esse fato de discurso? Porque a infância veio para designar também algo ignorado na vida de cada sujeito, algo que permanece também fora do discurso, como o que, simultaneamente, é o mais íntimo e estranho, o que é o mais idealizado, mas também o mais escondido. Se Freud pôde dizer que qualquer lembrança é uma lembrança encobridora, a infância é, como experiência de um tempo subjetivo, a lembrança encobridora por excelência de cada sujeito: ela sempre esconde um segredo familiar, ela é o véu, a tela de um segredo sempre ignorado.

3) E qual é esse segredo, sempre ignorado? É, primeiramente, o segredo do quê chamamos de “gozo†, quer dizer, uma experiência em torno dos diversos objetos pulsionais. A infância torna assim presente o objeto de uma experiência de gozo para cada sujeito. “A infância sob controle†é então a infância como um objeto das práticas do controle do Outro – das práticas de poder, vigilância e castigo (cf. Michel Foucault). A infância como objeto também é, necessariamente, o lugar de uma segregação. Ela faz série, historicamente, com o lugar da loucura e da mulher. Lembremos a observação de Jacques Lacan em 1968, no seu “Alocução sobre as psicoses da criança†: a segregação é “o fator, o problema mais candente em nossa época, enquanto que, a primeira, ela tem que sentir o questionamento de todas as estruturas sociais pelo progresso da ciência2†. Lacan antecipou assim a segregação como o fenômeno que se estende em nosso universo “de maneira cada vez mais premente†.
Apesar das boas intenções de qualquer política de integração, como não se pode notar que a infância é atualmente um objeto de segregação, na medida em quê ela é inerente à função do objeto como resto de um gozo? Não se têm garantias de que uma maior atenção e uma vigilância reforçada possam preservar a infância desta separação estrutural. Pode-se ver estes efeitos em determinadas políticas de integração a todo o custo da criança “diferente†, integração que duplica, na verdade, este efeito de segregação. Sob o ideal de normalização da criança sempre haverá este lugar do objeto “segregado†como resto de gozo.

4) A criança foi e é objeto do gozo do Outro, especialmente como um objeto sexual: presume-se que esta observação faz parte - assumida como tal - da descoberta freudiana. Mas, identificar a infância como objeto não foi o ponto mais subversivo desta descoberta. A verdadeira descoberta - já presente nos “Três ensaios sobre a teoria sexual†de 1905 – é de ter ouvido o sujeito da infância como um sujeito de pleno direito na sua relação ao inconsciente e ao desejo. Há algo mais subversivo ainda do quê de ter atualizado o lugar da criança como um objeto sexual: é a idéia de um gozo sexual na infância, a idéia de que existe um sujeito, responsável por um desejo e um gozo, no espaço que se designa como “infância†; é também o fato de que se tenha uma responsabilidade no sujeito do inconsciente freudiano, que se estende para a infância o lugar de um sujeito da fala e da linguagem.

5) Quem está pronto hoje para assumir esta verdade e seus efeitos nos diversos campos do saber e nas práticas que são-lhe proprias? Mantemos normalmente um silêncio sobre a infância como lugar de um sujeito de desejo e de gozo.
O discurso científico, na sua aliança com o discurso do capitalismo, se lançou decididamente numa estratégia de avaliação, contrôle, vigilância e triagem da infância, como sujeito de um gozo que se torna intolerável, que augura mesmo o pior dos destinos sociais. É preciso se lembrar das campanhas realizadas em vários países para a prevenção da delinquência adulta, nas escolas, a partir do controle avaliador das crianças.
O discurso jurídico tem atualmente encontrado dificuldades em identificar a responsabilidade do sujeito da infância: a partir de que momento um sujeito pode ser considerado legalmente responsável por seus atos? A aplicação das leis faz recuar este momento a uma idade cada vez mais precoce.
O discurso pedagógico, entretanto, continua atualmente claramente dividido entre uma visão da criança como objeto de um controle e de uma prevenção dos “distúrbios†do mundo adulto, e uma visão da criança como um educando, um sujeito de experiência em relação ao saber.
6) Para o discurso psicanalítico, a criança é, primeiramente, um sujeito-suposto-saber da mesma forma que o adulto. Foi o comentário feito por Jacques-Alain Miller na intervenção durante as Jornadas da Criança, em março de 2011, com o título A criança e o saber:
“É a criança, na psicanálise, que é suposto saber, e é mais o Outro de que se trata educar, é o Outro que deve aprender a se segurar. Quando este Outro é incoerente e dividido, quando ele deixa assim o sujeito sem bússola e sem identificação, trata-se de elucubrar com a criança um saber ao seu alcance, à sua medida, que possa servir-lhe. Quando o Outro asfixia o sujeito, trata-se, com a criança, de fazê-lo recuar, para fazer com quê esta criança respire. Em todos os casos, o analista está do lado do sujeito†.

Escutar e ouvir a infância como sujeito-suposto-saber implica tomar cada criança como um ser que fala, como um falasser, mesmo quando ele é falado em demasia pelo Outro como infans, como sintoma deste Outro, mas sujeito enfim responsável do desejo e do gozo que o habitam, sempre fora de controle.