domingo, 30 de abril de 2017

Márcia Muller Garcez faz reflexões importantes para se pensar sobre o suicídio entre jovens



        O apagar das luzes: suicídios na adolescência


Como pensar na idade do desejo, sem levar em consideração seus efeitos nefastos? Pesquisas apontam que além do crescimento dos suicídios em geral, segundo o Ministério da Saúde, cresce o ritmo em que ele se dá na adolescência. 
Marcela Antelo no texto ‘Idade do Desejo’ ressalta que “o desejo é a consciência do apetite. Que outra evidência real golpeia o corpo na flor da idade que a consciência perturbadora do apetite?” O desejo então, enquanto perturbador, onde o real do sexo se desvela, joga o sujeito na errância e nas vias da pulsão. Miller no texto ‘Em Direção à Adolescência’ vai apontar como novo na adolescência, cinco aspectos: procrastinaçãoautoerótica do saberrealidade imoralsocialização sintomática; e Outro tirânico. Pontos articuláveis entre si e atravessados pelo discurso da atualidade na relação de consumo e pressa – paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos entender o paradoxo pressa x procrastinação, na velocidade do consumo e troca de objetos – gadgets – que vemos pululando na contemporaneidade, tal como o afirma Aflalo: “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido”. Como destaca Miller, a adolescência tem um ponto de partida – a puberdade tratada por Freud em ‘Três Ensaios’ – mas não tem um ponto de chegada. Esse não saber onde chegar, articulado às transformações do corpo e atravessado pelo consumo produz um prolongamento da adolescência. É essa mesma velocidade do discurso capitalista que indica também a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, está no bolso de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  
O suicídio do jovem pode ser só e silencioso, mas pode ser contagiante também. É o que mostra a pequena cidade inglesa, Bridgend, onde ao longo dos anos, desde 2007 até hoje contamos 79 suicídios de jovens, quase todos por enforcamento. Trata-se de um movimento coletivo? Talvez uma cadeia, um contágio sem explicação, com apenas especulações sobre a perda de importância e a queda financeira da cidade, ou de que a própria mídia ao noticiar as mortes seria a motivadora.  Esse é um exemplo de uma solução para o desamparo que se transmitiu por uma via de acesso que serviu a muitos. Um saber que aparece diante da angústia da falta de conectividade com o Outro. Os jovens se conectaram através da morte e do mistério implicado nos seus atos.
Lucíola Macedo toma o termo ‘desenraizamento’ de Hannah Arendt, como “o que convoca a deriva, a errância, um avesso do que amarra”, sendo importante para situar os novos destinos da pulsão de morte. Como pensar o suicídio na adolescência e as possíveis inferências da psicanálise, uma vez que o ato já se revela como posto?
Muitos jovens conseguem, apesar da socialização sintomática e do ‘desenraizamento’, fazer até um modo de vida, uma socialização. Mas, há os que não. Há os que só lhes resta o apagar as luzes, diante do golpeamento no corpo da presença perturbadora do desejo, em sua forma nefasta. A fantasia parece não contornar o pulsional intensificado por esse não saber, e ter o objeto no bolso pode não dizer nada sem o Outro. Para além de incluir o suicídio na pauta sobre a adolescência, – é preciso falar sobre isso – pensar o que a psicanálise pode oferecer ao adolescente, frente ao desamparo. Não se curvar às dificuldades impostas pelo discurso capitalista e sua pressa, e oferecer lugar à adolescência na cultura e na cidade. Traçar um ponto de ancoragem para que a errância não circule no vazio do saber, e possa se ancorar, ainda que cambaleante, antes do apagar das luzes.

Marcia Müller Garcez

Referências:
AFLALO, A. Discurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.
ANTELO, M. A idade do desejohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/marcelaantelo.
FREITAS. L. Juventude e trauma: a experiência do desenraizamentohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/luciolafreitas.
LACAN, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].
MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/


 

sexta-feira, 17 de março de 2017